O dia seguinte eleitoral e a sanha dos ‘analistas imparciais’, por Eduardo Borges

Dou minha contribuição na análise do que estou chamando aqui de “espetacularização” da política, sempre lembrando que essa é a parte que menos importa.

O dia seguinte eleitoral e a sanha dos ‘analistas imparciais’

por Eduardo Borges

O day after de uma eleição normalmente é o momento em que os chamados “comentaristas” ( as aspas não são para todos) políticos passam a agir como se Pitonisas fossem. Não sei se isso é motivado por vontade própria ou eles estão somente se adaptando à vontade de um público sedento por “análises” proféticas ou que flertem com a espetacularização da política. De maneira geral, o que temos é uma boa quantidade de comentários baseados muito mais nos desejos inconscientes ou ideológicos do comentarista do que necessariamente uma análise mais próxima da realidade que leve em conta um mínimo de trabalho empírico. Por dever de ofício, desde 1994 que acompanho as eleições no Brasil e parece que parte dessa turma de “analistas” desconhece a importância da longa duração como elemento básico para se compreender a dinâmica da cultura política brasileira. Muitos deles enxergam cada eleição como um momento estanque (não estou negando de que cada eleição tem sua própria história), como se ela não fizesse parte de um conjunto mais amplo de fatores econômicos, sociais, culturais e, claro, políticos.

No caso da eleição do último domingo os temas para debate já estavam, aparentemente, pré-definidos, por exemplo: Bolsonaro seria vitorioso? O PT finalmente entrou definitivamente em sua fase de declínio? Quem vão ser as novas lideranças nacionais, seja na esquerda ou na direita, a influenciar o jogo eleitoral em 2022? Não estou negando que são temas pertinentes, eles fazem parte do espetáculo, existe um público que gosta das análises fatalistas, mas o problema está justamente no fato de que quando centramos o debate exclusivamente em torno desses temas, negligenciamos o que realmente importa que é analisar a própria política brasileira. Ao nos centrarmos no debate em torno de nomes e legendas, esquecemos de pensar projetos estratégicos para o país. Nomes são somente nomes, é o personalismo em estado puro, e é justamente por nos restringirmos a nomes que elegemos figuras completamente despreparadas e impensáveis como Jair Bolsonaro.

Feito isso, dou minha contribuição na análise do que estou chamando aqui de “espetacularização” da política, sempre lembrando que essa é a parte que menos importa. Buscando responder às perguntas que fiz acima, os números mostram, de forma inequívoca, que o apoio de Bolsonaro não surtiu efeito para a maioria dos candidatos apoiados por ele. Mas em se tratando do capitão Jair, não podemos analisá-lo usando ferramentas clássicas da ciência política. Até 2018, quem era Jair na fila do pão da política brasileira? A tendência é que o bolsonarismo venha desaparecer (não sei quando) pelos mesmos motivos que apareceu, ou seja, pelo retorno da política ao centro do debate. Quanto mais política com P maiúsculo tivermos, menos Jair vai haver. Nesse caso, essa eleição municipal sinalizou para isso, o retorno, aos poucos, da política. Prefeitos como Kalil e ACM Neto, tiveram votação expressiva porque em tempos de pandemia agiram como políticos e usaram das decisões políticas para responder aos problemas de seus eleitores. Bolsonaro fez justamente o contrário,  optou pela bravata e pelo negacionismo, a abriu mão de fazer política. A chegada ao segundo turno de candidatos como Boulos e Manoela d’Ávila, trazendo com eles todo o peso do anticomunismo tosco, nada mais foi do que a representatividade de um projeto político alternativo para suas cidades. Subestimamos muitas vezes o eleitor, mas ele sabe que só se acerta errando. Ele sabe que em política, não existe uma única verdade que dure a vida toda, a alternância de poder é algo inato à própria democracia.

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Quanto ao fim do PT, estamos esperando desde 2006. Se dependesse de revistas semanais como a Veja isso já aconteceu desde 2010. Para uma parcela do conservadorismo brasileiro, o PT acabou depois do afastamento de Dilma Rousseff. O crescimento pontual do PSOL, muito por conta da visibilidade oferecida por São Paulo, está sendo suficiente para alguns pregarem que já estaríamos vivendo uma situação policentrica na esquerda, será? Essa conclusão, por parte de alguns “analistas” políticos, diz menos sobre o real crescimento do PSOL e mais da louca e obsessiva vontade de eliminar o PT. É inegável, os números mostram isso, que houve uma queda no número de votos no PT. Mas em 2016 esse mesmo partido tinha sido considerado praticamente “morto”, porém, dois anos depois, disputou o segundo turno das eleições presidenciais. É fato que ganhar prefeituras ajudar a eleger deputados e senadores e manter musculatura no Congresso Nacional. É fato que ganhar prefeituras assegura palanques para 2022. Mas é fato que pelo menos até 2020 o PT continua sendo o maior partido de esquerda do Brasil e só depende dele para construir uma trajetória saudável até 2022. Afirmar isso não significa diminuir a importância do PSOL ou o PC do B, mas é somente respeitar uma fila cuja posição cimeira o PT construiu em anos de história. Se na trajetória petista até 2022 cabe pensar em apoiar outra candidatura, isso é tão legítimo quanto lançar candidato próprio. Quanto ao PSOL e o PC do B, de maneira geral, entre os comentaristas que enaltecem certo crescimento ( e realmente houve) de visibilidade de um ou de outro, não sejamos ingênuos, é tão somente para fazer o contraponto com a suposta e desejada derrocada petista. O caso da elite dirigente com o PT é freudiano, ou se enquadra na frase popular de que “não se bate em cachorro morto”.

Em relação ao que tem sido chamado de centro esquerda formado por PDT, PSB e REDE, me parece que foi o mais negativamente afetado. Isso certamente vai impactar em Ciro 2022. Mas, no caso deles, o que melhor caracteriza esse grupo é a capacidade camaleônica de incorporar novas identidades ao sabor das alianças circunstanciais. Em relação à direita, concordo que houve um ressurgimento do DEM e uma consolidação do PSD como legenda “fiel da balança” no campo conservador. Não enxergo nomes de destaque na direita, mas entendo que pode se caminhar para 2022 na construção de uma aliança poderosa composta por PMDB, DEM, PSD e PSDB. Nomes como os de Luciano Huck e Sergio Moro, devidamente tutelados de forma preventiva, podem ser pensados para representar estrategicamente o grupo em 2022.

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Acho que o grande desafio para os analistas políticos é acompanhar os próximos movimentos, até 2022, dos grupos formados por PSDB/DEM/PSD/PMDB e PDT/PSB /REDE. Não será surpresa nenhuma se eles estiverem em 2022 mais próximo do que imaginamos.

Quanto às novas lideranças, seja no campo de esquerda quanto no de direita, essa é a pior parte da análise pós-eleição. É a mais rasa e menos instrutiva para a população. É a menos democrática, pois construída em torno do personalismo. É a mais populista no que esse conceito tem de mais pejorativo. E, simplesmente, a menos política com P maiúsculo. Repito, não é de pessoas que precisamos, mas de projetos estratégicos e viáveis para o país a médio e longo prazo. Antes que alguém diga que eu estou exigindo demais para um prefeito, me defendo dizendo que ao buscar novas lideranças os analistas estão pensando não em 2020, mas em 2022.

Por fim, ao se restringirem a análises do “varejo” político os analistas fazem o jogo da elite política que não quer debater o “atacado” com o povo. É ficar na cosmética da política, na perfumaria, no personalismo de revistas de fofoca, tudo isso somente para evitar as chamadas fissuras da sociedade ou os tais radicalismos e extremismos. Isso é quase estrutural na história da elite dirigente brasileira, eles não lidam bem com a pluralidade de ideias. Basta ver como a simbólica vitória eleitoral de diversos representantes das minorias identitárias passa ao largo dos “eminentes analistas” da Globo News e CNN. A quem interessa essa necessidade de evitar os lados e enaltecer exclusivamente um suposto centro? Ou, a quem interessa uma realidade pregada por  Fernando Gabeira de que nessa eleição venceram a esquerda civilizada e a direita civilizada? O que é uma esquerda civilizada? É a esquerda que a direita gosta? É uma esquerda bem adequada ao jogo do sistema da elite dirigente? Espero que a esquerda brasileira não tenha vergonha de dizer quem ela é e siga fazendo política com P maiúsculos, pois, a princípio, parece ter sido essa a grande mensagem saída das urnas em 2020.

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Eduardo Borges – Historiador e professor adjunto de História na Universidade do Estado da Bahia

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2 comentários

  1. PMDB nao existe mais, agora voltamos ao MDB, A direita conservadora tomou uma porrada embora tenha alguns se saído bem. Mais tambem devemos dizer que eleiçoes de prefeitos e vereadores nao é tao impactante como a de presidente governador senador e deputados federais onde eu acredito que as pessoas levam mais a serio o seu voto. Em Salvador pude ver quem a turminha de ACM NETO, fez como sempre faz boca de urna, mais nao vi a esquerda fazer o mesmo. Hoje ouvir uma senhora dizer. Nao sei o que vou fazer a clinica tal que estavam marcando consulta agora fechou e nao tem mais como. Claro as eleiçoes passaram e eles nao se interessam pelo povo. so os faz de otarios como sempre e vem mais 4 anos e continuam votando. Por outro lado Se a esquerda nao vai para a boca de urna tambem deixa margem para que a maioria dos vencedores sejam do partido de ACM Neto E ESTOU dizendo isso sem saber quantos vereadores tanto o partido dele como os que lhe dao sustentaçao ganharam a vaga. No colegio evangelico na boca do rio o pessoal de boca de urna estavam a 50 metros dessa zona eleitoral o que nao é permitido . Alguem fez alguma coisa.: nao que eu saiba.

  2. A sede desses analistas é de imediatamente dar um rótulo aos acontecimentos, enquadrar e ditar o debate, principalmente da classe media que sempre precisa de “tutores” para lhe dizer o que vestir, onde comer e o que pensar. O que mais me chamou a atenção foi olhar conservador que lançaram sobre as candidaturas coletivas, subliminarmente lançando suspeição quanto a sua eficiência.

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