O domínio das corporações (ou a privatização dos governos), por Márcia Denser

 
Por Márcia Denser
 
No limite, o mundo globalizado caracteriza-se precisamente como uma “corporatocracia”, ou seja, é dominado pelas corporações. Então me ocorreu que ninguém melhor que Naomi Klein em seu livro, A Doutrina do Choque – a ascensão do capitalismo de desastre, para dissecar o catastrófico poder corporativo. Segundo ela, o fenômeno ocorre na intersecção entre superlucros e megadesastres: Estava claro que os desastres facilitadores estavam se tornando maiores e mais chocantes, porém o que estava acontecendo no Iraque e em New Orleans não era uma versão posterior ao 11 de setembro, pelo contrário, esses experimentos audaciosos com a exploração das crises eram o ponto culminante de três décadas de uma adesão rigorosa à doutrina do choque. 
 
Algumas das violações mais infames dos direitos humanos de nossa época, interpretadas erroneamente como atos sádicos perpetrados por regimes antidemocráticos, foram cometidas com a intenção clara de aterrorizar o público a fim de preparar o terreno para a introdução das “reformas” radicais de livre mercado. 
 
Na Argentina da década de 70, o “desaparecimento” de trinta mil pessoas sob o regime da junta militar, fez parte da imposição ao país das políticas neoliberais da Escola de Chicago, do mesmo modo que o extermínio foi parceiro da mudança econômica no Chile. Em 1989, o massacre da praça da Paz Celestial na China e as prisões de milhares de manifestantes facilitaram ao Partido a conversão de amplos setores do país a uma imensa zona de exportação, suprida com uma força de trabalho aterrorizada demais para reivindicar seus direitos. 
 
Na Rússia, em 1993, foi a decisão de Boris Yeltsin de enviar os tanques para bombardear o Parlamento e prender os líderes da oposição que abriu caminho para a escalada de privatizações, criando os notórios oligarcas do país. Nos anos 80, na América Latina e na África, a crise da dívida forçou os países a “privatizar ou morrer”; na Ásia, a crise financeira de 1997 dobrou os Tigres Asiáticos que por fim abriram seus mercados para “a maior liquidação de negócios falidos do mundo”, segundo o New York Times – eis como as corporações se apropriam dos valores e recursos do mundo inteiro.
 
Na verdade, as proezas de Bush representaram o ápice monstruoso de uma campanha de mais de cinqüenta anos pela total liberdade das corporações, compreendendo desde o agro-negócio até os conglomerados de mídia. Após o 11 de setembro, o governo Bush se apropriou rapidamente do medo gerado pelos ataques, não apenas para deslanchar a “Guerra ao Terror”, como garantir que esta fosse voltada quase completamente para o lucro, uma nova e estimulante indústria que revitalizasse a economia norte-americana já à beira do crash, que efetivamente ocorreu sete anos depois. 
 
Definido como um “complexo do capitalismo de desastre”, esse modelo possui tentáculos de alcance muito maior do que o complexo industrial-militar da era Eisenhower: trata-se de uma guerra global travada em todos os campos pelas empresas privadas, cuja participação é paga com dinheiro público, que se legitima indefinidamente pela necessidade de proteger o território dos Estados Unidos mediante a eliminação de todo o “mal” existente no mundo exterior.
 
O objetivo central das corporações que operam no centro desse complexo é trazer para o funcionamento regular dos Estados-Nação seu modelo de administração voltado para o lucro, que progride rapidamente sobretudo em circunstâncias excepcionais, reais e/ou fabricadas. 
 
Em síntese: trata-se de privatizar os governos. Do comércio de armas aos soldados privados, da reconstrução com fins lucrativos a industria de segurança nacional, resultou do  pós-11 de setembro uma nova economia totalmente articulada. Construída na era Bush, ela agora existe globalmente, independente de quaisquer governos, e vai continuar exercendo seu domínio absurdo e insano até que a ideologia das corporações, que a sustenta, seja identificada, isolada, questionada e colocada em cheque.
 
Na década de 90, muitas companhias, que tradicionalmente fabricavam seus produtos mantendo grandes equipes de operários estáveis, adotaram o “modelo Nike”, ou seja, não seja dono de indústria alguma, fabrique seus produtos por meio de uma rede de contratantes e subcontratantes e gaste seu dinheiro com projetos de design e marketing. A alternativa era optar pelo “modelo Microsoft”: manutenção de um controle central rígido por parte de empregados/acionistas, chamado “núcleo de competência”, e terceirização de todo o resto com trabalhadores temporários. Essas companhias foram apelidadas “corporações ocas”, porque são unicamente formais, com um reduzidíssimo conteúdo (pessoal)
 
Seguindo rigorosamente os princípios corporatistas, segundo os quais o Grande Governo une forças com os Grandes Negócios a fim de redistribuir os fundos para cima – entre os ricos – a segunda gestão Bush/Rumsfeld/Cheney, queria gastar menos com pessoal e transferir muito mais dinheiro público diretamente para os cofres das empresas privadas. Aliás, o dogma central do regime Bush era que a função do governo não é governar,isto é, cumprir as funções para as quais fora eleito, mas sim subcontratar a tarefa para o setor privado. 
 
Em síntese: era um governo que atuava contra os interesses da população. De forma que o comprometimento do presidente Bush com o leilão do Estado, associado à liderança do vice Dick Cheney na terceirização das forças armadas americanas e ao patenteamento de remédios destinados a prevenir epidemias, comandado pelo secretário de Estado Donald Rumsfeld, ofereceu uma visão do tipo de Estado que os três iriam construir: um “governo completamente oco”.
 
Então aconteceu o 11 de setembro. No relato de Naomi Klein, “ter um governo cuja missão central era a própria autodestruição não parecia boa idéia diante duma população aterrorizada, reclamando a intervenção de um governo forte e sólido”. Afinal, as falhas de segurança no 11 de setembro demonstraram as conseqüências de mais de vinte anos de sucateamento do setor público e de terceirização das funções governamentais para corporações movidas pelo lucro. 
 
Assim como o Katrina em New Orleans exporia as condições lastimáveis da infra-estrutura pública (e a cruel indiferença moral de seus políticos), os ataques revelaram um Estado que havia se tornado perigosamente fraco: equipamentos da polícia e bombeiros de Nova York quebraram em meio às operações de socorro, os controladores de tráfego aéreo falharam permitindo a ruptura dos circuitos de segurança dos aeroportos, uma vez que eram funcionários terceirizados cujos salários geralmente eram inferiores até aos dos garçons da praça de alimentação.
 
Klein observa que a desregulamentação da aviação civil começara no governo Reagan. Vinte anos depois, todo o sistema de tráfego aéreo havia sido privatizado, desregulamentado e enxugado, com a grande maioria do pessoal de segurança constituída por trabalhadores mal remunerados, mal treinados e não sindicalizados. A atitude das companhias aéreas quanto às medidas de segurança resumia-se em“aviltar, negar, adiar e reduzir custos”.
 
Mas tudo isso foi obliterado pela Guerra ao Terror lançada pelo equipe de Bush – construída desde o começo para ser privatizada. Embora o objetivo declarado fosse a guerra contra o terrorismo, seu efeito foi a criação do complexo do capitalismo de desastre – uma nova economia apoiada em segurança doméstica, guerra privatizada e reconstrução de desastres, encarregada de construir e administrar um Estado de segurança privatizado, dentro e fora de casa. Se durante décadas o mercado vinha sendo nutrido com os apêndices do Estado, agora ele iria devorar seu núcleo.
 
Como protocapitalistas do desastre, os arquitetos da Guerra ao Terror fazem parte de um ramo de políticos corporatistas diferente de seus antecessores: para eles, as guerras e outros desastres constituem os fins em si mesmos. Quando Dick Cheney e Donald Rumsfeld fundem o que é bom para empresas como Halliburton, Lockheed, Carlyle, Bechtel e Gilead com o que é bom para os Estados Unidos e para o mundo inteiro, realizam uma espécie de projeção com conseqüências extremamente perigosas. 
 
Porque o que é positivo para tais companhias – guerras, epidemias, enchentes, tsunamis, escassez e privatização de todos os recursos naturais – é o desastre para as populações e os países como unidade política.
 
Querem um exemplo? O jogo de Washington para o Iraque era “chocar e aterrorizar o país inteiro, arruinar deliberadamente sua infra-estrutura, não fazer nada diante da pilhagem da sua cultura e história, depois tornar tudo aquilo correto por meio de um suprimento ilimitado de utilidades domésticas baratas e comidas prontas importadas: todo o Iraque seria comprado com Pringles, Mcdonalds, Pizza Hut e cultura pop!
 
O fato é que onde quer que tenha surgido, de Santiago a Moscou, de Beijing ao Iraque, com o governo Bush a aliança entre uma pequena elite das corporações com um governo de direita passou a ser retratada como uma espécie de aberração – capitalismo de patota,  capitalismo mafioso, capitalismo-cassino. Que quebrou em outubro de 2008 e renasceu graças ao Congresso e à “generosidade do povo norte-americano” (vide o documentário de Michael Moore, “Captalism, A Love Story”, 2009).
 
Guy Debord escreveu não sei onde que “num mundo totalmente unificado é impossível exilar-se”, só que tal afirmação também é válida em sentido inverso: num mundo totalmente globalizado e informatizado tornou-se possível ocultar a realidade sob o manto da ideologia. Não se sabe ainda por quanto tempo.
 
Vide o Brasil aqui e agora, um país sem futuro!
 

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16 comentários

  1. Falta perspectiva histórica à teoria da “doutrina do choque”

    Há três problemas com a teoria da “doutrina do choque”:

    Primeiro, creio que falta a esta teoria uma perspectiva histórica. A teoria considera como normalidade a democracia do estado do bem estar social, que foi restrito, tanto de uma perspectiva geográfica (Europa, EUA e Japão, e mesmo assim às custas da exploração do 3o mundo), quanto temporal (durou da década de 1950 a 1970).

    Enfim, a tal “doutrina do choque” não é um excepcionalidade e sim o normal do capitalismo, e mesmo do mercantilismo, seu precursor. O que está acontecendo é apenas a volta ao normal capitalista.

    Vejamos alguns exemplos desta normalidade:

    – a colonização das Américas e o extermínio dos povos indígenas, depois a hegemonia inglesa que resultou em barbaridades como a guerra do Paraguia, na qual o Brasil cometeu um genocídio em nome de interesses ingleses e, mais recentemente, o domínio dos EUA e sua política de golpes na década de 60 e agora, no séc XXI

    – a colonização africana, primeiro com a escravização dos negros, depois com a política de terror, exploração e extermínio praticado pelas potências europeias e, mais recentemente, as “primaveras árabes” no norte da África, desagregando as já frágeis sociedades do Egito e Líbia.

    – os incontávies crimes humanitários contra a Índia e a China cometidos pelo domínio inglês, as manipulações do EUA, com o regime dos Xás no Irã e, mais recentemente, o caos provocado pelos EUA e Otan com as guerras do Afeganistão, Iraque e Síria.

    O segundo problema é relacionado aos agentes promotores da “doutrina do choque”. Do ponto de vista da descrição dos fenômenos, a teoria da “doutrina do choque” está correta, mas fica parecendo que tal doutrina é uma armação de mentes de uma elite do mal: o famoso 1%, as corporações e a banca, os governos dos EUA e da Otan etc.

    É claro que há grupos de interesse agindo no pesado jogo geopolítico mundial e que este jogo é tudo, menos limpo. E é claro que esta gente deve ser responsabilizada. Mas a causa última deste arranjo geopolítico de predomínio das grandes corporações não é a maldade de alguns e sim a lógica do capital a que todos (inclusive os 1%) estão submetidos.Todo este movimento de concentração e centralização do capital na banca e nas grandes corporações já havia sido previsto por Marx e decorre não da maldade de alguns humanos, mas da lógica da concorrência e das leis do valor.

    Quanto à privatização do estado, trata-se de outro normal capitalista, também já previsto por Marx, que afirmava que o estado no capitalisto atende prioritariamente aos interesses da elite burguesa e funciona como um instrumento para a reprodução do capital.

    Portanto, creio que seja perda de tempo querer atacar a banca, as corporações e governos do mal como causa última da crise atual. É preciso substituir este maniqueísmo moralista, tipicamente cristão, pela conscientização de que o “inimigo” real é o capital, uma forma social que exerce uma dominação abstrata por meio do trabalho abstrato, que não tem objetivos políticos, não é bom nem mal e nem mesmo é consciente, pois se trata de uma forma social cega, cujo único objetivo é se reproduzir, as custas da humanidade e da natureza. Os humanos criaram o capital e agora ele ameça a humaniade. É preciso então acabar com ele.

    Aqui chegamos ao terceiro problema da teoria da “doutrina do choque”. Quando ela considera implicitamente que o estado do bem estar social é a normalidade virtuosa, também considera que há um “bom capitalismo”, democrático e industrial, ao qual seria possível voltar e que foi corrompido pelas forças do mal, neoliberias e globalizantes. Esta é uma ilusão que não se sustenta nos fatos: a financeirização atual é um desenvolvimento estrutural e do capitalismo, ou seja, é um processo necessário, dentro da lógica da valorização do valor. Não há capitalismo industrial “do bem” e nem mesmo possibilidades de domesticar o capital. A única forma de humanizar o mundo é sair do capitalismo. A realidade dos fatos (de 1500 para cá) fala por si mesma – e comprova as ideias de Marx.

    • Caro Wilton, concordo com sua

      Caro Wilton, concordo com sua análise. Entretanto, a doutrina do choque apresenta uma vantagem: a materialização dos agentes capitalistas, porque o homem aprendeu que deve combater o inimigo, mas como combater o inimigo real que não tem identidade, o abstrato modelo social ?

  2. Um artigo essencial que,
    Um artigo essencial que, arrisco dizer, nem cinco por cento da população mundial tem signos e lucidez para sua apreensão e entendimento em profundidade…. Trata, na verdade, do quanto viramos, os seres humanos, uma espécie de imenso rebanho a caminho da alienação e do matadouro….. Porque se permite a existência – ainda… – de classes médias vigorosas nos países mais ricos, essas mesmas classes médias aprenderam a viver em seus aquários alienantes e indiferentes, tornando-se cúmplices – como no Brasil… – dessa onda corporativista, onde os governos se tornam fantoches das corporações e as nações perdem, literalmente, sua autonomia. Quem ler e compreender a gravidade do que enfrentamos nesse tempo, não poderá evitar a perplexidade, o sofrimento, o desespero…. alguns sentirão uma vontade irremovível de lutar contra esse horror, esse inferno.

    • Justamente. Quanto a Naomi

      Justamente. Quanto a Naomi Klein cobra da classe média por suas palestras e apresentações?

      – “Ah, mas a moça fez seu trabalho de pesquisa e faz o de apresentação. Além disso ela precisa morar, comer… viver. E pesquisar.”

      Então o que ela diz perde significado pelo que ela faz. Ela faz rodar uma ordem econômica engendrada para concentrar o poder econômico. As pessoas que desejam que a ordem concentradora seja mantida sabem muito bem recuperar discursos transgressores. Algo como a propaganda recuperar o desejo de liberdade para vender calça de brim.

      “Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada que você pode usar como quiser…”

      “Como quiser”… Não é que o fabricante dessas calças é generoso? A pessoa que comprar seu produto pode fazer dele o que quiser! A pessoa compra e paga pela calça e a liberdade é concedida gratuitamente pelo magnânimo industrial. Se não industrial, porque o esquema é o da “Nike”, pelo menos o dono da marca.

      Quem souber um jeito de reformar o sistema, por favor avise. Mas tem que ser uma reforma que o sistema não engula, não recupere. Até agora eu tenho a impressão de que só o desprezo, a liberdade e a construção de alternativas ao sistema o matará. O lado bom é que tal desprezo ao sistema o matará queiramos essa morte ou não.

    • Talvez seja mais do que 5% o

      Talvez seja mais do que 5% o tanto de gente que entende essas ideias, seja com essas palavras ou com outras…

      Enfim, as denúncias ao capitalismo são também um nicho do mercado capitalista. Quantos dólares ganhou quem participou do filme “Clube da Luta”? Quanto cutou esse filme? E não é que a gente sai do cinema com um sentimento de que, de alguma forma e em alguma medida, estamos vingados contra o monstro opressor? E já podemos comprar pipoca de alguma firma estadunidense.

  3. O monstro adora brigas. Antídoto: paz. E desprezo.

    Artigo absolutamente alinhado com a ideia de tocar terror geral, tão ao gosto das pessoas que operam o capitalismo. Não apenas quanto ao contraproducente alarmismo mas retomando e resgatando a manutenção do viralatismo brasileiro, que vinha sendo debelado pelo governo do PT, no Brasil, e por outras iniciativa socialistas do tipo “Podemos”.

    Não se combate a violência com mais violência, especialmente quando o oponente é muito mais forte e principalmente quando o monstro já está introjetado em nós. Que entremos na luta é tudo o que o oponente deseja. A única forma de vencermos o capitalismo é desprezando-o. Um líder só é líder porque há quem tope ser liderado, quem tope dançar a música que o tal de líder toca.

    É preciso consciência da nossa colaboração ao monstro, mas isso demanda jogarmos fora coisas que aprendemos tão profundamente que temos até a impressão de que, se jogarmos fora, morreremos ou pelo menos deixaremos de ser nós mesmos, o que sob a ótica egóica são particamente a mesma coisa.

    Talvez, se não tivéssemos deixado o monstro ficar tão grande, ainda poderíamos pensar em como tornar o capitalismo menos predatório. Mas na situação atual não vejo outra saída exceto matá-lo por abandono e inanição: como eu disse, um líder só é líder porque há quem aceite ser liderado, muitas vezes na expectativa de salvar-se. Melhor tirar o cavalo da chuva: enquanto toparmos a briga, perderemos.

    “A lição sabemos de cór”: independência do modelo monstruoso que por vezes deixamos crescer, por vezes colaboramos para que tenha crescido na esperança de nos darmos bem ou pelo menos salvarmos nossas peles. Desprezo à velha ordem e adoção de nova sem pedir nada ao monstro: nem que interrompa seus ataques e nem que conceda-nos o direito de corrermos por fora, em alternativas. “Só nos resta aprender”.

     

  4. Ilusões

    “Vide o Brasil aqui e agora, um país sem futuro!”

    De qualquer forma, cara Márcia, o futuro existe tanto quanto as viagens no tempo: não existe.

    Só o que temos – e como se fosse pouca coisa – é o presente. Um rico e denso presente. Um presente infinito em possibilidades a quem ousar alternativas.

    É somente nesse tempo, presente, que podemos criar novas formas de nos relacionar. Esse negócio de “país do futuro” é coisa de “americano”. E citar os EUA já é entrar na deles e, inexoravelmente, entrar na do dólar. Ou seja, continuar na mesmo ritmo, afundando-nos cada vez mais nessa areia movediça, nesse poço sem fundo de ilusões criadas pelo pessoal de vendas… de ilusões.

    Lamento mas absolutamente nada do que for feito “por dentro” do sistema resultará senão em sua reafirmação, sua manutenção. Quer mesmo se livrar desse monstro que tem tomado violentamente e de assalto os estados públicos, a democracia? Esqueça dos EUA, esqueça do dólar, embarque em alternativas que não incluam esses monstros, que os despreze.

    • De quem é o seu dinheiro?

      A gente se apega ao dinheiro que ganha e tem porque se ilude, pensa que o dinheiro é da gente. Finge não saber que quem o controla, quem dá a esse dinheiro o valor que quiser, não é a gente.

      Se a economia é globalizada e internacional porque apenas um país – de nacionalidade muito bem difinida – emite e controla a moeda que se pretende global? O dólar é seu? É meu?

      • Lembro que durante o regime

        Lembro que durante o regime militar, tinhamos um inimigo: o imperialismo….era o alvo: e havia uma luta e uma vigilância. Do lado do Império, agora sabe-se, tinham receio que as Forças Armadas desenvolvessem em meio a tropa o sentimento anti-americano. Com o fim da ditadura, nos descuidamos da luta contra o imperialismo, que envolve, como mostra o ótimo texto de Márcia, o poder das grandes corporações, como a Shell, para quem Carmem Lúcia prometeu prrender Lula….em prol da qual os paises da OTAN fazem qualquer coisa em defesa dos interesses: deles…o dólar é parte desse jogo de interesses.

        A era do dólar: o imperialismo depois da II Guerra, por Gilson Dantas

        http://www.esquerdadiario.com.br/A-era-do-dolar-o-imperialismo-depois-da-II-Guerra 0

        Com o triunfo econômico dos Estados Unidos após a II Guerra, inicia-se a era do dólar como “moeda mundial”, ou do “padrão-dólar”.

        A era do livre-câmbio ou do “padrão-ouro” durou até a I Guerra. Dali em diante entrou em crise. Cada país foi abandonando este padrão monetário e passando a emitir mais ou menos livremente sua moeda. O lastro-ouro estaria “de volta” em 1944 (Bretton Woods) quando os Estados Unidos se impuseram, como detentores de quase todo o ouro do mundo, e estabeleceram sua moeda como equivalente-ouro na proporção de 35 dólares por cada onça de ouro.

        Os países ricos, na prática, aceitaram a hegemonia norte-americana e, portanto, o dólar como moeda mundial. O país que obtivesse poupança (divisas de exportação, por exemplo), preferia guardar suas reservas em forma de dólares. Dólar era tão bom quanto ouro e rendia mais que o ouro uma vez aplicado no Tesouro norte-americano.

        Em suma, em todas as esferas, da monetária à industrial, a II Guerra significou a afirmação da hegemonia da economia imperialista norte-americana sobre o mundo capitalista.

        “A II Guerra Mundial acelerou consideravelmente esse processo de concentração internacional do capital. A Grã-Bretanha, que era a primeira potência exportadora de capitais antes da Guerra Mundial, viu-se obrigada agora a liquidar uma ampla parte de suas inversões de outros países para financiar a guerra: essa ‘desinversão’ é calculada em 17 bilhões de dólares. Além disso, os capitalistas americanos afluem constantemente em direção a este país.

        A França, a Holanda, a Bélgica perdem uma parte de seus investimentos em outros países e se convertem ao mesmo tempo em áreas de investimentos para capitais estrangeiros, sobretudo americanos. O Japão depois de ter conseguido, em 1942-45, estender o raio de ação de seus capitais a todo o Sudeste Asiático, entra em derrocada e tem que abrir suas próprias portas aos capitais americanos. A mesma coisa acontece com a Itália e a Alemanha. Este último país que, em 1940 a 1945 tinha inundado com seus capitais a maior parte da Europa e da Rússia Ocidental, passou por sua vez a ser inundado por capitais americanos depois da derrota” (MANDEL, 1972: 102).

        Portanto, se é verdade que tinha havido um ciclo de prosperidade norte-americana nos anos 20, pós I Guerra Mundial, como foi mencionado em outro momento, mas será sobre as ruínas e a devastação da II Guerra que a economia mundial encontrará seu primeiro, embora fugaz, grande ciclo de crescimento econômico.
        Celebrizado como os anos de ouro do capitalismo (não duraram uma geração) foram o suficiente para reafirmar a crença de que o capitalismo tinha superado sua história de crises, ou pelo menos de crises graves.

        E também foi o suficiente para a propagação do “mito keynesiano”, da ideia de que gastos públicos (em obras públicas civis) e planejamento foram os responsáveis pela superação da Depressão e pela retomada econômica excepcional. A própria força mundial assumida pelo dólar passou a ser vista – mistificadamente – como resultado de pacto entre as nações livremente acordado.

        Não passam de relatos de valor de face fundamentalmente ideológico.

        A força do dólar
        A força do dólar (Bretton Woods) foi resultado da força econômica de uma determinada potência imperialista na economia mundial e de forma alguma foi resultado de diálogo ou acordo econômico pacífico entre nações.

        Em uma economia mundial sob concorrência brutal e com o imperialismo de primeira ordem tratando de impor-se sobre os demais, é improvável qualquer acordo duradouro na esfera de uma variável dependente como é a moeda. Esta foi a experiência histórica da economia mundial e, por isso mesmo, a história do ‘equilíbrio instável’ do dólar, mantido como economia mundial após seu deslastreamento (fim do padrão-ouro estabelecido após a II Guerra) era enfraquecido a cada crise.

        Quando se discute crise da moeda é essencial pesquisar sobre seu substrato econômico. A libra, moeda lastreada em ouro durante mais de duas gerações, conversível em ouro, entrou em crise quando seu rival econômico, os Estados Unidos, bem mais desenvolvidos, já detinham boa parte do ouro do mundo. O dólar, lastreado em ouro e conversível durante 26 anos, entrou em crise quando rivais econômicos (Japão, Alemanha) começaram a ganhar a corrida da produtividade industrial em relação aos Estados Unidos no final dos anos 1960 e o ouro já não estava tão concentrado nos cofres norte-americanos.

        Nos dois casos instala-se na economia mundial uma grave crise e a potência hegemônica, portadora da ‘moeda mundial’ se vê enfraquecida frente a rivais, o lastro-ouro se mostra não mais sustentável e, por fim, impõe-se uma reforma que permita um novo padrão, embora instável, de equilíbrio (como foi o caso do equilíbrio inglês, mais orgânico; e também como veio a ser o norte-americano do seu período de crescimento no pós-II Guerra, agora excepcional e instável).

        [Retomando a análise sobre o boom pós-II Guerra, a novidade, pouco enxergada por muitos analistas de época, é que aquele crescimento, além de ter contado, para poder existir, com condições históricas e políticas [o apoio dos grandes PCs stalinistas e o pacto de Yalta] muito especiais, deu-se através da exacerbação de processos parasitários (crédito, capital fictício, economia armamentista) e de contradições que continuaram operando no seio da economia para aflorarem ali no início dos anos 70 levando a economia global à sua mais longa crise.]

        Prosperidade e colaboração política 
        Aquela fase de prosperidade – e desenvolvimento parcial das forças produtivas – seria impensável, como vem sendo argumentado, sem intervenção pesada do Estado no restabelecimento do equilíbrio para a acumulação do capital.

        Foi essencial para aquele crescimento capitalista do pós-II Guerra, como parte da recuperação da taxa de lucro (motor da acumulação do capital), que os governos pudessem impor maiores taxas de exploração do que as de antes da guerra.

        No argumento de Bach, o boom do pós-II Guerra está longe de representar força orgânica do sistema. A condição deste novo “equilíbrio” foram duas guerras mundiais de destruição maciça e o pacto com o stalinismo e, além disso, uma espetacular e sem precedentes intervenção direta do Estado na economia, alterando tendências do ciclo, mas gerando resultados que sequer seus dirigentes podem prever (1999: 27).

        Aqui, novamente, o papel do Estado foi crucial. O mesmo Estado que acionara a indústria de guerra, que movimentava o crédito público maciço na era do boom e assumia medidas de sustentação de uma aristocracia operária e também adotava mecanismos defensivos de proteção social.

        A base para esta ação do Estado – contando com a imprescindível e colossal destruição de forças produtivas, sobretudo capitais europeus – foi a mais profunda exploração do trabalho e a garantia de uma certa “paz social” forçada, graças à já mencionada colaboração dos PCs, a começar do PC da URSS (PCUS), no sentido de que a classe trabalhadora europeia apertasse os cintos e fosse contido e desviado qualquer ímpeto revolucionário. Esta foi, em grande medida, a história daquelas décadas. E a história do período do acordo de Yalta [Stálin-imperialismo].

        A reconstrução econômica europeia contou com ajuda financeira dos Estados Unidos (Plano Marshall) que procuravam evitar riscos de revoluções sociais naquele continente. Na periferia, os Estados Unidos contaram com o indispensável apoio das ditaduras militares para esmagar a ferro e fogo as revoluções coloniais que radicalizavam.

        Mas jamais se deve deixar de destacar que, sem a garantia da URSS, que saiu politicamente prestigiada da guerra, de que nenhum PC sob seu controle – e todos estavam sob seu controle – iria tomar o poder em lugar algum à semelhança de 1917 na Rússia, certamente o capitalismo não encontraria o equilíbrio econômico para qualquer boom europeu.

        Quanto à celebrada política keynesiana, de dirigismo estatal e gastos públicos, ela irá revelar toda sua impotência poucos anos depois, quando a economia não mais for capaz de manter aquelas taxas de crescimento do pós-Guerra. O keynesianismo teve um papel mais ideológico, no sentido de encobrir as reais causas do crescimento econômico, do que mesmo como afirmação de uma nova política civil para o capitalismo ou sequer como testemunho da possibilidade de regular a economia capitalista mundial. No entanto, as “ilusões keynesianas” no período pós-Guerra tinham sua razão de ser:

        “A entrada em vigor da política keynesiana do mundo capitalista imediatamente depois da II Guerra Mundial era o duplo resultado dos ensinamentos da depressão dos anos 30 e dos êxitos econômicos em matéria de realização do pleno emprego ao longo dos anos de guerra. A depressão tinha revelado a impotência do tradicional mecanismo deflacionista da crise para segurar a reativação que tinha colocado a necessidade do recurso aos meios mais aptos de preservar o equilíbrio social, que não era o desemprego, o estancamento e a miséria. 
        De sua parte, a guerra tinha demonstrado eficiência do dirigismo estatal na realização do crescimento, através de uma certa inflação, e o objetivo prioritário dos anos pós-guerra era a conquista do pleno emprego e o crescimento econômico através de uma fina articulação das políticas monetárias, fiscal e orçamentária. Através deste `ajuste de precisão` da economia, acreditava-se poder nivelar no ciclo econômico e, sobretudo, libertá-lo das pressões que trazem convulsões sociais” (GILL, 2002: 663).

        Nada disso foi conseguido tomando-se o médio prazo: o boom logo se esgotaria. E para tentar resumir o significado daqueles anos de boom depois da II Guerra, pode-se dizer que, na verdade, a economia mundial capitalista estava – embora em condições históricas excepcionais – construindo prosperidade a partir da devastação promovida pela crise e pela guerra. E tratou-se de um padrão de crescimento logo rompido. A prosperidade que durou quase vinte anos foi, pouco a pouco, perdendo sua força propulsora. Caía a taxa média de lucro.

        O maior credor do seio da economia mundial do pós-Guerra, os Estados Unidos, revelavam os primeiros sinais de esgotamento de seu papel hegemônico. Seu peso industrial já não era o mesmo, com o crescimento econômico dos rivais japoneses e alemães e aparecia o déficit na balança comercial (os Estados Unidos estavam comprando mais do que exportando).

        O dólar perdia sua força frente a economias mais competitivas industrialmente e que mostravam capacidade produtiva para inundar os Estados Unidos com mercadorias mais baratas. O ‘equilíbrio norte-americano’ logo se romperia.

        E aqui, tem importância remarcar um item raramente enfatizado nos livros de economia. Ou seja, o papel da intervenção econômica, mas também política dos governos na luta para preservar seu equilíbrio instável.

        Intervenção política e econômica do Estado 
        O capitalismo da era dos oligopólios, o capitalismo moderno, imperialista, já não mais consegue encontrar apenas através das livres leis da economia, o equilíbrio necessário para tentar crescer após as crises. O exemplo da Grande Depressão, do crack de 1929, é terminante a este respeito. A intervenção política dos Estados Unidos tratando de impor mundialmente sua hegemonia (militar e política) no pós-II Guerra, não deixa de ser um fator político [ou “extra-econômico”] sem o qual não é possível entender o essencial da economia mundial.

        A economia capitalista mundial em época na qual seu crescimento já não é orgânico e enfrenta resistência social revolucionária, tem mostrado que não sai da estagnação pelas livres forças do mercado e que, portanto, necessita do Estado cada vez mais, não apenas para se safar da crise mas, ao mesmo tempo, para funcionar e ganhar sobrevida.

        A simples análise da dinâmica econômica do boom – suas tendências e processos econômicos – como já foi mostrado, não tem o poder de explicar porque a França ou a Itália se mantiveram de pé e crescendo naquele período convulsivo em que os trabalhadores e guerrilheiros comunistas (partisans, partiggiani) tinham o poder político ao alcance da mão, mas suas direções optaram pela estratégia de colaboração com a classe dirigente imersa em profunda crise e colapso de pós-Guerra.

        De Gaulle, chegou a reconhecer isso em suas memórias, onde presta um específico tributo aos dirigentes do PCF, ao seu papel de bombeiro contra o incêndio político que ameaçava o capitalismo europeu no final dos anos 1960.

        Em suma, não é convincente tentar explicar o boom por razões apenas ou principalmente endógenas, da economia strictu sensu. Esta explicação poderia ser em alguma medida aceitável para a fase de crescimento orgânico da economia mundial (fim século XIX).

        Por sua vez, o Estado não tem o poder de intervir para evitar a crise e nem impedir seu alcance destrutivo pleno, mas intervém, e tem que fazê-lo, para salvar o sistema. Intervém com recursos públicos para alterar o ciclo eco¬nômico.Existe a consciência, por parte de suas direções mais “esclarecidas”, de que os mecanismos cíclicos e semilivres de recessão e recuperação econômica, que se davam até o crack de 1929, são inaceitáveis: passa a ser questão de sobrevivência e vida ou morte do sistema a maior intervenção do Estado sobre a economia (BACH: 2008).

        E aqui é essencial lembrar que a intervenção do Estado pode adotar medidas e estratégias de caráter civil de gastos públicos, pacotes financeiros ou nacionalizações (como em 2008 ou, antes, em toda a primeira fase do New Deal de Roosevelt nos anos 30), mas também pode mergulhar na economia de guerra (primeira opção da Alemanha, com o partido nazista e, em seguida, dos Estados Unidos de Roosevelt).

        Neste ponto economia e política estão unidas mais que nunca. Forçar a sociedade, sobretudo os trabalhadores, a aceitarem o encargo colossal e mais pesado da crise econômica do sistema requer ação política e ideológica do Estado em grande escala. A crise de 2008/09, com seus pacotes de trilhões de dólares, ilustra este argumento de forma eloquente. A era daquele boom é esclarecedora a este respeito. O prestígio da URSS foi usado, pelas direções burocráticas da classe operária, para barrar a ameaça revolucionária anticapitalista que varria Itália, França e Grécia: novamente, e de outra forma, política operando para salvar um sistema em dêbacle econômica.

        BACH, Paula, 1999. Introducción a Naturaleza y dinâmica del capitalismo y la economia de transición, León Trotsky, Buenos Aires, Ceip, p. 9 a 29,
        BACH, Paula, 2008. La ´cuestión monetária y el equilíbrio capitalista´, Suplementos Econocrítica n.7, 23 de octubre de 2008, Buenos Aires. 
        GILL, Louis, 2002. Fundamentos y límites del capiralismo. Madrid: Editorial Trotta.
        MANDEL, Ernest, 1972. Tratado de economía marxista, 2 volumes. México: Ediciones Era.

        [Juntas, essas notas integram o livro Breve introdução à economia mundial contemporânea: acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G Dantas]. 
        Continua na nota n.16.

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      • Perguntando a si mesmo.

        Assim mesmo, caro Marcos. Perguntando, buscando entender, verificando, com a mesma humildade de onde brota a pergunta. Encarando primeiro que há dúvida e depois encarando as próprias dúvidas com a coragem e a humildade necessárias para quem realmente busca respostas.

        Com isso as pessoas vão formando suas consciências, desmontando formas de pensar que não se encaixam nos fatos, buscando entender os fatos. Com uma coragem que seja maior que o medo de ousar pensar diferente. Principalmente pela contatação de que pensar igual como tem sido não “bate” com a realidade.

        E aí toda ação será no sentido que você achar ser o certo. Aí, na medida em que as oportunidades forem chegando, e na medida do possível, as ações expressarão suas convicções.

        No caso do dólar, por exemplo: se você for atrás dos fatos e se fizer reflexão honesta sobre essa moeda, talvez – veja bem, talvez – chegue à conclusão de que a adesão a essa moeda traz problemas. E aí, quando for tratar de qualquer coisa relacionada a essa moeda, automaticamente você busca alternativas, que serão adequadas às sua consciência. Mas se chegar à conclusão de que não, essa moeda não traz problema, da mesma forma sua ação será expressa no sentido de aderir a ela.

        O que quero dizer, caro Marcos, é da importância de criticar, verificar, refletir. E perguntar. Ou melhor, perguntar-se. A resposta será expressa, não se preocupe.

  5. Construímos realidades. E essa?
    A GUERRA É UM MODELO MENTAL

    Em determinados casos, precisamos nos proteger ou defender uma pessoa dos atos prejudiciais de alguém. No entanto, temos que ter cuidado para não transformar isso numa missão de “erradicação do mal”, uma vez que, provavelmente, nos converteremos na própria coisa que estamos combatendo. Lutar de modo inconsciente pode nos levar à inconsciência. Há a possibilidade de que a inconsciência – o comportamento egóico desajustado – nunca seja vencida pelo ataque. Mesmo se derrotarmos o oponente, ela simplesmente se transferirá para nós ou esse adversário reaparecerá num novo disfarce. Nós fortalecemos tudo aquilo que combatemos, enquanto todas as coisas a que resistimos persistem.

    Hoje em dia ouvimos com freqüência a expressão “a guerra contra” isso ou aquilo. Onde quer que eu a ouça, sei que está condenada ao fracasso. Há a guerra contra as drogas, a guerra contra o crime, a guerra contra o terrorismo, a guerra contra o câncer, a guerra contra a pobreza, e assim por diante. Por exemplo, apesar da luta contra o crime e as drogas, tem havido um aumento impressionante no número de crimes e de delitos relacionados às drogas nos últimos 25 anos. Nos Estados Unidos, por exemplo, a população carcerária passou de 300 mil detentos em 1980 para 2,1 milhões em 2004. A guerra contra as doenças nos deu, entre outras coisas, os antibióticos. A princípio, muitos especialistas concordam que o uso disseminado e indiscriminado desses remédios criou uma bomba-relógio e que as espécies de bactérias resistentes a eles provavelmente causarão um ressurgimento dessas moléstias, talvez até como epidemias. O “Journal of the American Medical Association” diz que nos Estados Unidos o tratamento médico é a terceira maior causa de morte depois dos males cardíacos e do câncer. A homeopatia e a medicina chinesa são dois exemplos de métodos de tratamento alternativos que não consideram as doenças inimigos e, portanto, não criam novas enfermidades.

    A guerra é um modelo mental, e toda ação que resulta dela tanto pode fortalecer o inimigo (o mal percebido) ou, quando ela é vencida, criar um novo adversário, um mal que pode ser idêntico ao que foi derrotado ou até pior do que ele. Existe uma profunda inter-relação entre nosso estado de consciência e a realidade externa. Quando nos encontramos sob o domínio de um modelo mental como o da “guerra”, nossas percepções se tornam extremamente seletivas e distorcidas. Em outras palavras, só vemos aquilo que queremos ver e, assim, interpretamos tudo errado. É fácil imaginar que tipo de ação decorre dessa espécie de engano. Se você não quiser imaginá-la, observe as notícias na televisão hoje à noite.

    Reconheça o ego pelo que ele é: um distúrbio coletivo, a insanidade da mente humana. Quando o identificamos pelo que ele é, deixamos de interpretá-lo erroneamente como a identidade de uma pessoa. E temos mais facilidade em não adotar uma atitude reativa em relação a ele. Já não o tomamos como algo pessoal. Não existe queixa, culpa, acusação nem ação equivocada. Ninguém está errado. É apenas o ego em alguém, só isso. A compaixão surge quando compreendemos que todas as pessoas sofrem do mesmo distúrbio mental, algumas delas de forma mais aguda do que outras. Assim, paramos de nutrir o conflito que faz parte de todos os relacionamentos egóicos. E o que o alimenta? A atitude reativa: com ela, o ego prospera.”

    Exertos de “UM NOVO MUNDO – O DESPERTAR DE UMA NOVA CONSCIÊNCIA”, de TOLLE, ECKHART, Capítulo 3. Sextante, 2007.

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