O engodo Paulo Guedes (mais um), por Camilo de Oliveira Aggio

O importante é ver que o modelo de democracia de Paulo Guedes é aquele velho conhecido: democracia é quando eu mando em você. Quando é o contrário, aí tome reclamação.

O engodo Paulo Guedes (mais um)

por Camilo de Oliveira Aggio

Disse o (super-)ministro da economia do presidente Jair Bolsonaro:

“Sejam responsáveis, pratiquem a democracia. Ou democracia é só quando o seu lado ganha? Quando o outro lado ganha, com dez meses você já chama todo mundo para quebrar a rua? Que responsabilidade é essa? Não se assustem então se alguém pedir o AI-5. Já não aconteceu uma vez? Ou foi diferente? Levando o povo para a rua para quebrar tudo. Isso é estúpido, é burro, não está à altura da nossa tradição democrática.”

Antes de chegarmos ao mais destacado, é importante atentar para o fato de que o problema, nessa manifestação pontual, não é Paulo Guedes repudiar protestos de rua com tão pouco tempo de governo. Isso qualquer governante ou ministro do quilate de um ministro de pasta tão importante faria. À esquerda, à direita, ao centro.

O importante é ver que o modelo de democracia de Paulo Guedes é aquele velho conhecido: democracia é quando eu mando em você. Quando é o contrário, aí tome reclamação. Bem, eu nunca vi Paulo Guedes repudiando ou dizendo que repudiou os protestos de rua contra uma presidente que tinha acabado de ser reconduzida a um novo mandato. Ali, para Guedes, era injustiça da afobação ou, contra Dilma Rousseff, aí já era o pleno exercício das liberdades democráticas e genuína manifestação das insatisfações? Gostaria de ouvi-lo sobre isso, ainda que não precise.

Dito isto, passemos para o AI-5.

Paulo Guedes diz que não devemos nos assustar se alguém pedir um AI-5. Bem, já eu, amigos e amigas – e aqui há muitas testemunhas – não me espanto nem um pouquinho com Paulo Guedes pedindo um AI-5.

Só comprou a falácia de que Paulo Guedes era uma espécie de quadro técnico, cuja a característica e motivações predominantes de sua figura eram tocar um projeto econômico apartado dos supostos “arroubos ideológicos” de seu chefe, quem comprou, convenientemente, a falácia mediática de que Jair Bolsonaro encarnou um personagem eleitoral em 2018 e seguia o caminho inexorável da moderação e responsabilidade que exige o cargo de presidente da República. Alô GloboNews.

Paulo Guedes sempre deu todas as demonstrações, como seu chefe, de que era apenas uma faceta “liberal na economia” de um sujeito tão competente e liberal quanto seu presidente. Evidências? Abaixo.

1) No dia do resultado da eleição de Jair Bolsonaro, maltratou uma jornalista argentina que perguntava sobre o Mercosul. E emendou indagando à jornalista sobre seu destempero com dizeres do tipo: “Percebe a semelhança com o presidente?? Então….”. Recibão.

2) Não demorou muito, o sujeito veio à público demonstrar que sequer sabia quais eram os países membros do Mercosul. Tudo bem não gostar do bloco, mas ministro da economia do Brasil não pode desconhecer algo tão elementar.

3) Ao contrário do que venderam figuras, inclusive, como Guga Chacra, Guedes já dava todas as demonstrações de que não era uma figura tecnicamente competente para assumir o cargo. Diante de parlamentares, incluindo presidente do Senado, demonstrou, em outro episódio de estupidez e destempero, que não sabia como funcionava, em sua forma elementar, a Lei Orçamentária Anual (LOA). Para constrangimento do presentes. Até a Globo News, vejam, repercutiu o fato.

4) Paulo Guedes declarou, em público, e reforçando o sexismo e machismo rasteiros de seu chefe, que a esposa do presidente da França era “Feia, mesmo”. Disse o galã.

5) Não faz muitos dias, Guedes mostrou que pensa sobre meritocracia e pobreza exatamente o que seu chefe pensa ao declarar que ricos, ao contrário de pobres, sabem poupar e investir, daí a sua explicação sociológica sobre a existência de ricos e pobres nesse país e no mundo. Essa metade dos brasileiros que vive com renda de R$ 413 só continua recebendo isso porque não poupa e investe a grande gordura dessa renda que sobra todo final do mês. O fizessem, estavam ricos. A mentalidade de Guedes é igualzinha a de Jair Bolsonaro, que distorce a realidade em seu favor: o problema do pobre é MORAL. E cognitivo, obviamente. É pobre porque é burro, consumista e imediatista. Aos ricos, sobra a virtude.

6) Não à toa, tudo que Paulo Guedes vem apresentando em matéria de economia é voltado para destruir as (frágeis e insuficientes) bases de proteção social do Estado para essa renca de pobre que tem que se virar e melhorar por si para ficarem ricos como os ricos e direcionar, ainda mais, o Estado para o rentismo e iniciativas privadas. E o faz com todo o apoio da grande imprensa, que reza a mesmíssima cartilha, com um pouco mais de cinismo. Vide Folha nos dizendo que estávamos no caminho certo com Paulo Guedes diante de cotação do dólar com recorde histórico de alta, estagnação, aumento da pobreza, da miséria, do desemprego e promessas de campainha não realizadas, como o crescimento da economia, arrecadação com privatizações, etc.

7) AI-5, nesse pacotão, não assusta. E, havendo protestos de rua com quebradeiras de manifestantes ou umas dúzias de infiltrados, Guedes não estará sozinho, como hoje não está.

Aplicarão, com facilidade, como já estão anunciando há um bom tempo, algo parecido com um AI-5 e licenças para matar, como já está tocando o presidente com sua obsessão pelo excludente de ilicitude que Sergio Moro, sua outra cara metade, piorada, defendeu. O motor da construção de narrativas para alimentar climas de opinião já roda a todo vapor: não podemos deixar que “esquerdistas” transformem esse país num caos para derrubar a gente de bem que está querendo consertar o país.

E converter “protesto” em baderna ou terrorismo, como vende, cinicamente, a distinção feita pelo presidente eleito, é apenas um golpe de enquadramento: basta dizer se algo é ou não é, não importa o que efetivamente seja.

Acontecendo, Guedes vai ter imprensa, elites econômica e financeira e muita opinião pública ao seu lado nessa “batalha farsesca”. Não se esqueçam da velha lição: para zilhões de brasileiros, democracia não é um valor, mas uma pedra no caminho de quem está na situação e de quem fatura com ela. E na atual conjuntura (poderia ser outra, à esquerda) se for para o bem do rentismo e fim do Estado que gasta dinheiro com pobre (essa gente que não poupa e investe) a democracia que se exploda.

Havendo protestos de rua, a arma da retórica já está carregada. Apertam o gatilho sem muita cerimônia. E o mais importante: não se assustem quando lhe disserem que, sim, ainda estamos numa democracia.

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