O ‘fique em casa’ levou mesmo ao aumento dos preços?, por Emilio Chernavsky

Os principais impactos foram nos itens da alimentação no domicílio – arroz, carne, leite e óleo –, mas isso não tem relação com o distanciamento social e sim com os altos preços no mercado internacional, a desvalorização do real e o fim dos estoques reguladores

Supermercado na zona sul do Rio de Janeiro.

do Brasil Debate

O ‘fique em casa’ levou mesmo ao aumento dos preços?

por Emilio Chernavsky

Na última quinta-feira dia 9, ao comentar o aumento dos preços do arroz, o presidente Bolsonaro citou críticas que recebeu por falar de “vírus e emprego” quando outros diziam “fique em casa e a economia vem depois” . A relação que ele insinua entre as medidas de distanciamento social e o aumento dos preços tem sido repetidamente evocada para atacar opositores do presidente nas redes sociais frequentadas por seus apoiadores. “Fique em casa” contra o vírus? “A conta chegou”.

Houve até “especialistas” explicando os preços mais altos como resultado do aumento dos custos unitários provocado pela redução das vendas na esteira das medidas de distanciamento. Isso certamente ocorreu em setores e locais, mas estaria aí a explicação central para o aumento do custo de vida no país que tem afetado especialmente as famílias mais pobres?

Basta analisar a evolução dos preços dos distintos itens desde o início da pandemia para facilmente constatar que não. Os principais impactos ocorreram em itens da alimentação no domicílio – arroz, carne, leite e óleo –, que respondem por grande parcela das despesas das famílias, e são fornecidos por grandes complexos agroindustriais cujas produção e vendas não só não caíram com o distanciamento social, mas cresceram nos últimos meses. Como, aliás, declarou o próprio presidente, “o campo não parou”.

De fato, não parou, e viu os preços de seus produtos crescerem muito acima da inflação geral, em muitos casos mais de 10% em apenas seis meses, gerando lucros elevados para os produtores. Essa situação não tem nenhuma relação com o distanciamento social, mas, sim, com os altos preços no mercado internacional, a desvalorização do Real e o fim dos estoques reguladores no país.

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Outros setores que registraram aumentos importantes de preços são o de cimento e de produtos eletrônicos que, assim como o de alimentos, ao invés de reduzirem, elevaram suas vendas desde o início da pandemia. Com efeito, parte do auxílio emergencial pago pelo governo foi direcionado a gastos atípicos nesses setores que, dominados por grandes oligopólios, conseguem aproveitar a expansão pontual na demanda para elevar os preços e aumentar suas margens.

Em compensação, os preços praticados justamente pelos setores mais afetados pelos aumentos de custos e da incerteza decorrentes das medidas de distanciamento, que em sua maioria atuam no setor de serviços prestados às famílias e que contam com grande participação de micro e pequenas empresas e de profissionais autônomos, não só não cresceram mais que o índice geral, como, em razão da queda da renda de parcela da população que normalmente usa esses serviços, em muitos casos caíram ou mesmo despencaram.

Ou seja, enquanto os setores que mais aumentaram seus preços estão entre aqueles menos impactados pelas medidas de distanciamento social, aqueles mais impactados não aumentaram ou até reduziram seus preços. A relação entre o “fique em casa” e o aumento de preços que tem pressionado o custo de vida dos mais pobres é, portanto, mentirosa. Isso não impede que ela circule amplamente entre os apoiadores do presidente como evidência de que ele “tinha razão”.

Emilio Chernavsky – É doutor em economia pela USP

Crédito da foto da página inicial: Tânia Rêgo/Agência Brasil

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5 comentários

  1. Bolsonaro ignora a lei da oferta e da procura. Ora, se as pessoas ficam em casa e consomem menos, a demanda cai e os preços recuam. Sem o isolamento, a situação estaria pior.

  2. Em relação ao aumento da demanda por alimentação doméstica em tempos de ficar em casa, tudo bem, é de se esperar mesmo que ela suba.

    Porém, o usuário neófito em trabalho remoto, quando ia ao escritório da empresa para trabalhar, deixou de comer nas chamadas “comidas a quilo”, estando em casa. Certamente estas fornecedoras alimentares tiveram que se virar com a entrega em domicílio, ao menos para sobreviverem.

    Parece que a tal queda no consumo destes almoços o autor não considerou.

  3. De que forma a redução das vendas (na esteira das medidas de distanciamento) provoca a elevação dos custos unitários de produção?

    Pior, porque isso ocorreria logo com bens cuja demanda é pouco elástica e que, portanto, tiveram relativamente pouco redução do consumo, como os alimentos?

  4. “Os principais impactos foram nos itens da alimentação no domicílio – arroz, carne, leite e óleo –, mas isso não tem relação com o distanciamento social e sim com os altos preços no mercado internacional, a desvalorização do real e o fim dos estoques reguladores”
    Mas alguem ainda tem dúvida?

    Imaginar que o fato de o trabalhador estar no sistema home office prejudicou o mercado de oleo, feijão, arroz e carne, não tem lógica. Afinal, quem, assim como eu, por anos almoçou em restaurantes, deve ter verificado que, há muito, arroz e feijão foram substituídos por 2 folhas de alface e 1 rodela de tomate, isso quando nao rolava só um “shake” ou marmitinhas na copa dos sites.

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