O passaporte da IA
Por Reynaldo Aragon
Uma infraestrutura nova começa a tomar forma por trás da corrida mundial pela inteligência artificial. Os Estados Unidos passaram a financiar cadeias tecnológicas tratadas como “confiáveis”, com mecanismos capazes de rastrear a origem de minerais, chips e equipamentos e de diferenciar sua circulação. O Brasil está no centro dessa mudança: seus minerais já alimentam uma cadeia estratégica americana, sua infraestrutura pública combina tecnologias dos Estados Unidos e da China e o país participa da formação da WAICO. A pergunta deixou de ser abstrata: por quanto tempo essas conexões poderão coexistir sem que uma delas cobre exclusividade?
Quando a confiança vira fronteira
Em agosto de 2026, o Departamento de Estado dos Estados Unidos abriu uma licitação para construir no Panamá uma infraestrutura pouco convencional. O projeto reúne alfândegas, portos, transportadores e sistemas de rastreamento numa plataforma destinada a acompanhar componentes da cadeia de inteligência artificial desde a origem até o destino. Credenciais digitais, verificação criptográfica da carga e análise de risco por IA fazem parte do desenho. Washington batizou a iniciativa de Silicon Highway.
Ainda não existe uma rodovia do silício em funcionamento. O edital fechou em 20 de agosto e o piloto continua sendo um projeto, não um regime já implantado. Mas o documento oficial é revelador porque mostra o que se pretende construir: uma infraestrutura capaz de reconhecer participantes considerados confiáveis e antecipar procedimentos para suas cargas. Um chip, um equipamento ou um lote mineral passa a interessar não apenas pelo preço e pelo lugar de onde saiu, mas pela história que consegue provar sobre si mesmo.
A mudança parece pequena porque acontece dentro da logística. Não é. Durante anos, a disputa pela IA foi narrada como corrida por semicondutores, data centers, energia, minerais e modelos. Esses recursos continuam no centro do conflito, só que agora surge uma camada anterior ao uso: quem pode atravessar a cadeia com menos atrito, sob quais credenciais e segundo regras definidas por quem controla a infraestrutura de confiança.
Daí a utilidade da palavra passaporte. Um passaporte não cria quem o carrega. Registra identidade, origem e pertencimento para que uma fronteira decida como tratá-lo. O Silicon Highway tenta fazer algo semelhante com bens estratégicos. Se prosperar e for replicado entre parceiros, a geopolítica ganhará um instrumento discreto: classificar mercadorias não apenas pelo que são, mas pela cadeia à qual demonstram pertencer.
O piloto panamenho nasceu dentro da Pax Silica, lançada em Washington em dezembro de 2025. A declaração inaugural organiza a economia da IA como um stack que começa em energia e minerais, passa por refino, manufatura, semicondutores, compute, redes e data centers e chega a modelos, software e aplicações. O documento fala em reduzir dependências excessivas, proteger tecnologias sensíveis e oferecer aos parceiros confiáveis acesso ao conjunto das tecnologias que moldam a nova economia.
Três meses depois, a Pax deixou de ser apenas linguagem diplomática. O Departamento de Estado anunciou US$ 250 milhões em assistência para financiar mineração, processamento, infraestrutura crítica e ativos ligados à cadeia de semicondutores, tentando atrair capital soberano e privado muito maior. O projeto do Panamá, por sua vez, admite acordos de até US$ 50 milhões. Confiança, financiamento e logística começam a aparecer na mesma arquitetura.
Pequim constrói outra resposta. Em julho, representantes de 29 países assinaram em Xangai o acordo de criação da WAICO, organização intergovernamental voltada à cooperação em inteligência artificial, capacitação, governança e redução da distância tecnológica. A China também passou a propor centros de cooperação com BRICS, CELAC, União Africana e ASEAN. A WAICO não é o espelho chinês da Pax: nasce com outra forma institucional e, até aqui, com instrumentos econômicos muito menos integrados.
Também não existem duas muralhas digitais completas. Empresas, capitais e tecnologias ainda atravessam a rivalidade, e países mantêm vínculos com os dois lados. A tensão está justamente nessa sobreposição. Em agosto, a Reuters revelou um rascunho do Departamento de Estado que discutia pressionar parceiros ligados simultaneamente à Pax e à WAICO a escolher. O texto não havia sido enviado e não virou política. Sua existência, porém, mostrou que a palavra confiança pode deixar de ser apenas convite e passar a conter uma pergunta incômoda: confiança em quem?
Para o Sul Global, a pergunta traz uma história conhecida. A periferia do capitalismo forneceu por séculos terra, trabalho, energia e matéria-prima enquanto tecnologia, crédito e etapas de maior valor se concentravam nos centros. A IA pode atualizar essa divisão com infraestrutura de ponta: alguns países cedem minerais, eletricidade, território, dados e mercado; outros dominam chips, compute, cloud, propriedade intelectual e financiamento. O Brasil entra nessa disputa carregando as duas condições ao mesmo tempo. É fornecedor de recursos e, ao mesmo tempo, grande mercado, potência energética e país com instituições científicas capazes de disputar parte das etapas superiores.
A Serra Verde, em Goiás, torna a contradição visível. A mina produz terras raras pesadas usadas em ímãs, eletrônica avançada e sistemas de defesa. Em 24 de agosto, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos anunciou US$ 750 milhões dentro de uma estrutura de US$ 1,55 bilhão para assegurar uma cadeia baseada no projeto brasileiro, somando financiamento, offtake e um compromisso de compra de US$ 300 milhões da Defense Logistics Agency. O minério continua brasileiro; sua função estratégica passa a estar amarrada, em parte, à segurança econômica e militar americana.
Na outra direção, o governo brasileiro assinou em abril um protocolo com a chinesa iFlytek, por meio do MCTI e do Serpro, para desenvolver capacidades nacionais em modelos, infraestrutura e operação de IA. O próprio acordo ressalva que projetos concretos dependerão de instrumentos específicos. Em julho, o Brasil assinou o acordo constitutivo da WAICO, sujeito aos procedimentos internos necessários à incorporação jurídica. Não é uma troca de lado. É a tentativa de ampliar capacidade em meio a uma rivalidade que torna cada escolha técnica mais carregada de política.
Essa mistura já existe dentro do Estado. A Nuvem de Governo do Serpro opera em território brasileiro e combina infraestrutura própria com tecnologias homologadas da AWS e do Google, dos Estados Unidos, e da Huawei, da China; Oracle e Microsoft estavam em homologação no fim de agosto. Em 15 de setembro, o REDATA virou lei, oferecendo incentivos a data centers e exigindo contrapartidas em pesquisa e destinação de capacidade ao mercado interno. E o LNCC conduz a compra de um novo supercomputador especializado em IA, com seleção estimada em R$ 959 milhões e requisitos de transferência de tecnologia e formação de profissionais brasileiros.
É uma posição pouco comum. O Brasil não observa Estados Unidos e China do lado de fora. Minerais extraídos aqui já se conectam a objetivos estratégicos americanos; partes da infraestrutura pública usam tecnologia chinesa; o país compra compute ocidental, coopera com Pequim e tenta erguer capacidade própria. Isso pode produzir vulnerabilidade, mas também margem de negociação. A questão é onde termina a diversificação e começa uma dependência que outro país consegue converter em veto.
O Cazaquistão fornece um ensaio dessa tensão. Entrou formalmente na Pax Silica em 25 de junho e assinou com Washington uma parceria para infraestrutura de IA e manufatura avançada. Em 16 de julho, tornou-se também fundador da WAICO. Por enquanto, a dupla presença existe. O caso prova que os dois sistemas ainda não são excludentes; prova também por que a possibilidade de exclusividade deixou de ser uma discussão abstrata dentro de Washington.
O precedente mais duro vem dos Emirados Árabes Unidos. Em 2024, uma autoridade da Casa Branca celebrou o acordo entre Microsoft e G42 porque ele levou a empresa emiradense a romper vínculos com a Huawei. Dois anos depois, o Bureau of Industry and Security passou a permitir que G42 e Core42 recebessem certos equipamentos avançados de computação sem licença individual. A sequência não demonstra uma regra universal da Pax, mas mostra algo mais concreto: acesso a tecnologia de ponta pode ser negociado junto com alinhamentos de segurança.
Nem por isso estamos diante de uma nova Cortina de Ferro. Em 20 de setembro, enquanto a disputa por chips e minerais seguia aberta, Washington propôs a Pequim um mecanismo bilateral de notificação de incidentes de segurança envolvendo IA. Empresas americanas continuam ligadas ao mercado chinês, modelos chineses rodam em clouds ocidentais e as duas economias permanecem profundamente conectadas. A forma que emerge é mais contraditória: competição intensa dentro de uma interdependência que nenhum dos lados consegue simplesmente desligar.
É justamente por haver conexão que instrumentos de seleção ganham peso. Export controls, licenças, credenciais, regras de investimento e decisões corporativas não precisam separar dois mundos de uma vez. Podem fechar uma porta específica, atrasar uma carga, negar determinado acelerador ou tornar uma escolha técnica muito mais cara. A fronteira deixa de ser uma linha no mapa e passa a aparecer dentro da cadeia.
Para o Sul Global, o perigo não está apenas em escolher o parceiro errado. Está em descobrir tarde demais que aquilo que parecia uma decisão comercial criou uma dependência sem substituto. Uma cloud pode estar fisicamente no país e depender de software estrangeiro. Um supercomputador nacional pode exigir aceleradores cuja exportação é decidida fora. Uma mina pode estar em território brasileiro e ter sua produção comprometida por contratos de longo prazo. Soberania começa quando essas perguntas deixam de ser tratadas como detalhes técnicos.
A medida real é simples de formular e difícil de alcançar: se uma rota fechar, existe outra? Quanto tempo o Brasil levaria para trocar um fornecedor de GPU, migrar uma carga de cloud, substituir um modelo, reorganizar um contrato mineral ou manter um serviço público essencial se uma licença fosse revogada? A dependência aparece com nitidez quando se mede o custo e o tempo necessários para sair dela.
Chamo essa condição de capacidade de bifurcação. Não significa autarquia, nem a fantasia de produzir sozinho cada chip, modelo ou servidor. Significa preservar alternativas materiais suficientes para mudar de caminho quando a relação entre parceiros muda. Um país pode ser profundamente interdependente e ainda conservar autonomia; perde-a quando uma dependência crítica não admite saída sem paralisia econômica, tecnológica ou institucional.
É sob esse critério que a eventual participação brasileira na Pax precisa ser lida. Estar dentro pode ampliar acesso a capital, semicondutores, compute, infraestrutura e cadeias de fornecedores; também pode aumentar exposição a regras de confiança definidas por Washington. Permanecer fora preserva distância política, mas pode significar menor presença numa arquitetura que já mobiliza dinheiro, logística e acesso tecnológico. WAICO, BRICS e cooperação chinesa apresentam outro conjunto de oportunidades e dependências. Nenhuma dessas escolhas, isoladamente, resolve o problema brasileiro.
O ponto decisivo é transformar a posição que o país já ocupa. O Sul Global conhece bem a armadilha de possuir o recurso e não controlar aquilo que o torna tecnologia. Na era da IA, permanecer no andar de baixo significa exportar terras raras e energia, oferecer território para data centers e comprar de volta capacidade computacional, software e inteligência incorporados a preços e condições definidos fora. A margem brasileira depende de conseguir converter seus ativos em processamento, conhecimento, compute, pesquisa, indústria e capacidade pública que permaneçam no país.
O passaporte da IA, então, interessa menos como metáfora futurista do que como aviso sobre o presente. Quando origem, confiança, financiamento e circulação começam a caber na mesma infraestrutura, a soberania deixa de ser apenas possuir máquinas. Passa a incluir a capacidade de continuar operando quando uma porta se fecha. Para o Brasil, o teste será esse: atravessar a próxima crise tecnológica sem precisar pedir a uma potência estrangeira autorização para continuar escolhendo o próprio caminho.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>
Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. Editor do codigoaberto.net É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.
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