O que a rebelião ecológica inglesa pode ensinar à imprensa e à polícia brasileira?, por Fábio de Oliveira Ribeiro

A imprensa brasileira tem mostrado o desenvolvimento do movimento Extinction Rebellion que ocorre na Inglaterra.

O que a rebelião ecológica inglesa pode ensinar à imprensa e à polícia brasileira?

por Fábio de Oliveira Ribeiro

A imprensa brasileira tem mostrado o desenvolvimento do movimento Extinction Rebellion que ocorre na Inglaterra. Maiores informações sobre o movimento podem ser facilmente encontradas na internet. A página da Wikipedia em inglês é bem mais detalhada do que a brasileira

Um cidadão inglês, que será aqui chamado apenas de JP, aderiu ao movimento e me forneceu algumas informações sobre o que ocorreu. Com base nelas podemos fazer uma comparação entre a atuação da polícia na Inglaterra e no Brasil.

1 – Did the police beat you physically?

JP: No.

2. Verbal assaults? Specify.

JP: No

3. During the police operation were used truncheons, gas bombs and firearms? Were shots fired? Were people injured?

JP: It is possible there were injuries after protesters were dragged through the streets but other than that no.

4. Have the police infiltrated provocateurs to legitimize the use of violence? What care have you take?

JP: Oh yes they have. Various forms of security have been attempted like use of the Signal secure communications app. We have also had to self police and restrained those who exhort the use of violence. Alcohol openly used during protests is something we must also watch out for as it will be used to get things out of control. So far this has not been successful in damaging the movement. So far.

5. In prison have you been stripped, beaten or otherwise subjected to abusive treatment (such as a cold water bath, etc.)?

JP: I have not experienced this or heard of it happening to other protesters.

6 – Give a description of each prison and prosecution? During the arrest did you discuss with the police the terms of the indictment? Did they change the charge? Explain.

JP: 1. Kingston police station 2. Belgravia Police station 3. West end central police station. Very similar conditions in each. Front desk where they searched and processed me and removed all my possessions. Then they informed me of my charges and inquired after any medical needs. When I was held for 24 hours they made sure I was fed. I had a toilet in my cell and they gave me a book to read. I had interviews each time and the solicitor (from the company Bindman’s. This company specialises in arrests during protests and XR recommends calling them) advised me to give a “no comment” interview which I did.

Tradução

1 – A polícia agrediu você fisicamente?

JP: Não.

2. Agressões verbais? Especifique.

JP: Não

3. Durante a operação policial foram usados cassetetes, bombas de gás e armas de fogo? Tiros foram disparados? As pessoas ficaram feridas?

JP: É possível que houvesse ferimentos depois que os manifestantes foram arrastados pelas ruas, mas além disso, não.

4. A polícia se infiltrou em provocadores para legitimar o uso da violência? Que cuidado você toma?

JP: Ah sim eles têm. Várias formas de segurança foram tentadas como o uso do aplicativo de comunicação segura Signal. Nós também tivemos que nos autopoliciar e restringir aqueles que exortam o uso da violência. O álcool usado abertamente durante os protestos é algo que também devemos ter cuidado, pois ele será usado para tirar as coisas do controle. Até agora isso não foi bem sucedido em danificar o movimento. Até agora…

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5. Na prisão você foi despido, espancado ou submetido a tratamentos abusivos (como banho de água fria etc.)?

JP: Eu não tenho experimentado isso ou ouvido isso acontecendo com outros manifestantes.

6 – Dê uma descrição de cada prisão e acusação? Durante a prisão, você discutiu com a polícia os termos da acusação? Eles mudaram a acusação? Explique.

JP: 1. Esquadrão de polícia de Kingston 2. Esquadrão de polícia de Belgravia 3. Esquadrão de polícia central de West End. Condições muito semelhantes em cada uma. Recepção onde eles procuraram e processaram-me e removeram todas as minhas posses. Então eles me informaram sobre as minhas acusações e perguntaram sobre quaisquer necessidades médicas. Quando fiquei preso por 24 horas, eles se certificaram de que eu me alimentasse. Eu tinha um banheiro na minha cela e eles me deram um livro para ler. Em cada uma das oportunidades eu pude ter entrevista com o advogado (da empresa Bindman’s. Essa empresa é especializada em prisões durante protestos e XR recomenda chamá-los) me aconselhou a dar uma entrevista “sem comentários”, o que eu fiz.

Além as informações acima, JP fez alguns outros comentários importantes:

I am glad to report that, aside from two notable incidents – one where a female passerby was pushed to to the ground and another when protesters were dragged down the street, the police have not used violence to achieve their aims during the extinction rebellion protests. I have not been physically mistreated while in custody and have not heard of anyone who has.

Tradução

Tenho a satisfação de informar que, além de dois incidentes notáveis – um em que uma transeunte feminina foi empurrada para o chão e outro quando os manifestantes foram arrastados rua abaixo, a polícia não usou violência para atingir seus objetivos durante os protestos do Extinction Rebellion. Eu não fui fisicamente maltratado enquanto estava sob custódia e não ouvi falar de ninguém que tenha.

Essas informações fornecidas pelo inglês JP são corroboradas pela cobertura jornalística. Ao contrário do que geralmente ocorre no Brasil, de maneira geral a polícia inglesa respeitou o direito dos cidadãos de se manifestar.

Em nosso país, o uso da violência policial é programaticamente utilizada para desqualificar e silenciar qualquer tipo de movimento político considerado indesejado pelas autoridades. Os policiais brasileiros são compelidos pelos seus comandantes a agredir fisicamente os manifestantes usando cassetetes, bombas de gás e tiros com balas de borracha. A atuação da PM já resultou a cegueira de pelo menos dois jornalistas (matéria O Globo e matéria Uol).

No Brasil, os policiais que cometem violências para dispersar manifestações de rua geralmente não são punidos. Aqueles que se recusam a brutalizar cidadãos são retirados do local e podem sofrer consequências desagradáveis. Em nosso país, a formação policial é abusiva e estimula o soldado a praticar abusos. A PM/PR, uma das corporações policiais mais violentas do país, afirma em sua página de internet que tem valores profissionais e deveres éticos. Impossível dizer onde essas duas coisas estavam quando do massacre dos professores paranaenses.

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O inglês JP foi preso três vezes na Inglaterra. Em nenhuma delas ele foi agredido física ou moralmente pelos policiais. A polícia inglesa cumpriu sua missão sem utilizar violência, pois o objetivo dos policiais não era criminalizar o movimento ou o direito de manifestação. Apesar das tensões urbanas geradas pelo Extinction Rebellion os policiais não utilizaram bombas de gás ou armas de fogo.

O tratamento dispensado pelos policiais ao cidadão inglês JP durante e depois dele ser três vezes preso não foi indigno, nem desumano. Se a Polícia Federal brasileira tivesse feito o mesmo no caso do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo ele não teria cometido suicídio. Impossível deixar de citar aqui o caso da menina que foi jogada pela juíza Clarice Maria de Andrade num calabouço cheio de homens adultos para ser sistematicamente estuprada.

Outra coisa digna de nota é a maneira distinta como a polícia atua no Brasil. Os manifestantes de direita que foram às ruas para derrubar Dilma Rousseff não foram molestados. Os de esquerda que defendiam a legalidade do mandato atribuído ao PT foram esmagados sob uma chuva de socos, pontapés, pauladas, tiros de borracha, bombas de gás e até atropelamentos. De modo geral, as polícias brasileiras cometem abusos e ficam impunes porque elas foram estruturadas para blindar as elites. Isso explica inclusive a omissão do MPF em reprimir o terrorismo policial empregado seletivamente em nosso país.

Transcrevo abaixo o depoimento do inglês JP sobre a maneira como a imprensa cobriu o Extinction Rebellion (ele usa as letras XR para se referir ao movimento).

The press reaction to Extinction Rebellion has varied wildly. Here is an example of negative coverage.
Rupert Murdoch Sky owned news dislikes XR intensely. The Guardian is in favour. The BBC was dismissive at first but is slowly changing its attitude to take XR more seriously.
On Thursday 18th April the documentary My Planet came out, narrated by David Attenborough. This has a massive effect and boosted the protests.
XR are simultaneously middle class hypocrites and unemployed Eco-terrorists to their critics.

Tradução

A reação da imprensa ao Extinction Rebellion variou descontroladamente. Aqui está um exemplo de cobertura negativa.
Rupert Murdoch Sky, que é proprietária de veículos de comunicação, não gosta muito de XR. O Guardian é a favor. A BBC foi desdenhosa no início, mas está lentamente mudando sua atitude para levar a XR mais a sério.
Na quinta-feira, 18 de abril, saiu o documentário My Planet, narrado por David Attenborough. Isso teve um efeito enorme e impulsionou os protestos.
Aos olhos de seus críticos, os militantes do XR são simultaneamente hipócritas da classe média e desempregados eco-terroristas.

No Brasil, a grande imprensa costuma chamar as pessoas que participam de manifestações políticas consideradas indesejadas de “vândalos”, “bárbaros” e “baderneiros”. A mídia corporativa raramente cria uma imagem multifacetada de passeatas ou vigílias que considera adversárias dos seus interesses políticos e/ou econômicos.

Em razão de depreciar os manifestantes, a imprensa brasileira legitima tanto a criminalização do direito de manifestação quanto o uso exagerado e até criminoso da violência policial. Chegamos ao ponto em que até mesmo uma Desembargadora do TJSP foi ferida durante uma manifestação.

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Apenas os “blogues sujos” fazem uma cobertura das manifestações de uma forma não preconceituosa. Em razão disso, eles são odiados pelas autoridades que acreditam que a imprensa não tem o direito de deslegitimar a violência policial.

As informações dadas por JP sobre o que ocorreu na Inglaterra são mais importantes do que parecem. Mesmo tendo sido chamados de “eco-terroristas” por uma parte da imprensa, os manifestantes do Extinction Rebellion não foram vítimas de agressões físicas e morais como as que ocorrem no Brasil. Em nosso país a paranoia evocada pela palavra “terrorista” seria suficiente para fazer a polícia usar munição viva com o intuito exterminar à bala uma manifestação. Impossível esquecer o que ocorreu com aqueles pobres estudantes que foram presos com base na Lei Anti-Terrorismo porque havia um militar infiltrado entre eles.

O descompasso entre a cobertura jornalística negativa e a repressão policial não violenta sugere que, na Inglaterra, a atuação da polícia independe da imagem que a imprensa construiu do movimento. No Brasil ocorre exatamente o oposto. Quando um movimento é deslegitimado pelas empresas de comunicação isso funciona como uma espécie de senha para os oficiais policiais mandarem seus subordinados usarem violência extrema contra os manifestantes. Algumas vezes a violência policial precede a cobertura jornalística, mas raramente a imprensa deixa de aplaudir a ação das PMs.

A maneira como as empresas de comunicação inglesas e brasileiras são financiadas talvez tenha alguma importância. No Brasil é fato notório que os jornais e redes de TV dependem das verbas de propaganda dos governos federal, estadual e municipal. Esse vínculo parece interferir diretamente na maneira como algumas manifestações são retratadas de forma a impedir um debate público sério acerca da criminalização policial do direito de manifestação.

Ao responder a questão número 6, JP fez uma observação importante que preferi tratar com destaque.

Yesterday I was arrested on the wrong bail charges. I protested vigorously against this and found the experience extremely stressful. When the police realised their mistake they rearrested me on a different charge while I was in my holding cell.

Tradução

Ontem fui preso com base em acusações erradas. Protestei vigorosamente contra isso e achei a experiência extremamente estressante. Quando a polícia percebeu o erro que tinha cometido, ela me prendeu com uma acusação diferente. Isso ocorreu enquanto eu estava na minha cela.

Em nosso país quem tenta argumentar com a polícia geralmente é agredido. Até mesmo os advogados brasileiros têm dificuldade para convencer os policiais quando eles estão cometendo um equívoco. O mais grave, entretanto, ocorre no Judiciário.

Não é incomum acusações absurdas feitas por policiais resultarem em processsos e até em condenações criminais. Foi exatamente isso que ocorreu no Rio de Janeiro quando Rafael Braga foi preso numa manifestação por causa de uma embalagem de Pinho Sol. Quando o Sistema de Justiça endossa abusos policiais eles geralmente se multiplicam ao infinito.

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3 comentários

  1. DO REINO UNIDO
    Entrevista de ativistas ambientais Greta Thunberg e Anna Taylor, MP do Green Party Caroline Lucas e jornalista do Guardian, Zoe Williams.
    Legendas em português e outros idiomas (>Detalhes (segundo ícone abaixo à direita)>Legendas>Inglês (gerada automaticamente)>aperte novamente Legendas>Traduzir automaticamente>escolher o idioma na lista).

    Greta Thunberg, Anna Taylor and Caroline Lucas on the new climate movement | Guardian Live
    https://www.youtube.com/watch?v=ZyY8yarwI5g

    Sampa/SP, 26/04/2019 – 22:07

  2. a referência é clara. mas eles preferem copiar o lixo, ao invés da civilidade!
    eu sempre digo, policia será civilizada, quando tratar o povo como trata os bacanas. com respeito.
    não por tratar bacana como povo. não há glória nenhuma nisso.

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