O que leva a uma crise tão profunda?, por Rogério Maestri

Pois esta queda da produção internacional não é uma ação da pandemia, é uma situação que vinha sendo gestada já há algumas décadas

O que leva a uma crise tão profunda?, por Rogério Maestri

Já no fim do mês de março a crise econômica dava sinais da sua profundidade, como neste mês estávamos com a produção e o consumo prejudicado em menos de 30 dias não era de se esperar sinais tão fortes da queda na produção e consumo, pois seria como um mês que uma empresa normal na Europa e no Brasil tem suas férias concentradas num só momento, porém rapidamente as empresas começaram a despedir e caindo dessa forma a possibilidade de uma retomada a curto prazo, logo se tem que procurar razões estruturais para entender a velocidade com que se implanta a crise e o pior a profundidade dessa.
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O Banco da Inglaterra ainda no início do mês de maio procurou um análogo para a crise prevista e não usou 1929 ou mesmo crises do século XIX, teve que retornar para 1709, ou seja, trezentos anos na história para traçar um paralelo. Os anos de 1708 e 1709 foram os anos mais frios medidos desde que se inventou o termômetro e esse fenômeno climatológico, o pico do chamado Mínimo de Maunder causou uma imensa desgraça em todo o mundo. Só na França morreram de fome 600.000 pessoas.
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Pois esta queda da produção internacional não é uma ação da pandemia, é uma situação que vinha sendo gestada já há algumas décadas, tudo devido a perda de lucratividade das empresas e ao processo de endividamento de praticamente 15% ou mais das empresas do mundo inteiro, inclusive as chinesas e indianas que mesmo com uma taxa de juros NEGATIVA não conseguiam pagar os juros dos seus empréstimos (empresas Zumbis). Em resumo, grande parte das empresas industriais e comerciais vinham rolando a suas dívidas tirando outros empréstimos para pagar os anteriores. Da mesma forma que as empresas as famílias norte-americanas perdiam seus empregos com melhor remuneração e empregavam-se em verdadeiros “bicos” que não garantiam um mínimo de poupança para resistir mais de um mês sem salário.
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O estouro dessa bolha, que vinha sendo alavancada artificialmente por uma bolsa de valores que as próprias empresas maiores compravam suas ações com os benefícios recebidos pela política neoliberal de diminuição de impostos no lugar de reinvestir na produção, entretanto essa ausência de reinvestimento na produção não era porque eles gostavam mais de aplicar na especulação financeira do que produzirem, era pela total e completa expectativa de aumento de lucros futuros nas suas vendas, isso era causado por dois motivos, a retração do volume dos salários em termos internacionais e uma concorrência das empresas Zumbis que funcionavam somente para pagar a produção e ter um lucro se não fosse zero era abaixo de zero.
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Os economistas capitalistas achavam que haveria um novo ciclo de destruição criativa como previa o economista austríaco Joseph Schumpeter, porém as empresas que apareciam com maiores ganhos eram as Gafam (Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft) que de maio de 2014 passaram para maio de 2019 de 1,5 trilhão de dólares em valores de bolsa para 4,2 trilhões de dólares nesses cinco anos e essas empresas não tem nada a propor de novo para substituir milhares de outras que entrarão em processo falimentar.
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Se olharmos com cuidado veremos que essas empresas, mais prestadoras de serviços do que produtoras de mercadorias reais, simplesmente drenavam grande parte dos recursos que se supunha como “riqueza”. Excetuando as fábricas chinesas, nenhuma dessas empresas tiveram ganho de produtividade devido a alguma inovação tecnológica, se passou para um iPhone 6 para um iPhone 11, sem que seus usuários saibam direito qual é o ganho de todo o ano pagar em torno de US$1.000,00 para ter um modelo que serve quase que a mesma coisa do que o modelo do ano anterior.
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Parte pequena e mais bem remunerada da população estava no chamado consumo suntuário, em resumo inútil, enquanto a outra parte consumia para sobreviver, quem produzia as inutilidades eram as empresas mais bem sucedidas, já as empresas que produziam coisas úteis simplesmente sobreviviam. Sem contar que a agressividade de empresas como Amazon simplesmente extinguiam milhões de pequenos comércios por todo o mundo que reduziam cada vez mais a massa de salários. Nem vou colocar aqui o papel deletério que fazem as empresas de Uberização de serviços, centralizando seus lucros em dezenas de empresas e falindo milhões de outras.
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Se repararmos bem estávamos no maior sistema de Pirâmide da história, em que só faltava alguém tirar uma pecinha de baixo dela para todo o sistema ruir. Porém ainda falta o pior, a falência do sistema bancário, pois o desmoronamento de toda essa imensa Pirâmide levará instavelmente ao não pagamento dos empréstimos feitos pelas pequenas, médias e grandes empresas, causando mais um terremoto em todo o nosso sistema econômico mundial.
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A solução prevista pelos economistas capitalistas são as mais estapafúrdias possíveis, como a MMT que levará a uma estagflação, inflação devido ao aumento de custos causado pela diminuição do consumo e com aumento de preços da empresas que não falirem e assumirem posições de oligopólio e estagnação porque o consumo não se recuperará dentro de uma perspectiva de perda de renda das famílias e incapacidade de modernização da indústria devido a baixa capacidade de investimento, somado a estes dois fatores teremos Estados ainda mais endividados sem capacidade de investir.
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Há também a solução de não fazer nada, teremos a política Herbert Hoover que não fez nada e aprofundou ainda mais a recessão de 1929, levando a miséria e a pobreza milhões de norte-americanos.
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Em resumo, o capitalismo está na situação do ditado: Se correr o bicho pega e se ficar o bicho come.

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