O que o vírus nos está ensinando?, por Fernando Horta

E o vírus, numa destas imponderabilidades da História passou a nos dar aula sobre coletividade, segurança, distribuição de bens materiais, ajuda ao próximo e reconhecimento dos trabalhos socialmente relevantes.

O que o vírus nos está ensinando?

por Fernando Horta

A lavagem cerebral que o neoliberalismo fez no mundo todo, especialmente depois da crise de 2008, foi realmente impressionante. Usando um enorme poder financeiro, o “donos do mundo” atacaram em três pontas distintas: primeiro nos cursos de economia e administração para promover (e pagar muito mais) os defensores de suas ideias. De Larry Summers, Carmem Reinhart e Ken Rogoff até Gregory Mankiw, todos foram catapultados ainda mais para cima do que suas ideias sozinhas poderiam fazer. Elevados a famosa “TINA” (there is no alternative), o pensamento neoliberal tomou os centros de pesquisa e ganhou o selo “científico”, isolando críticos e tornando-se hegemônicos não pelo poder dos argumentos, mas do dinheiro que os argumentos defendiam.

Ajudados por “think tanks” conservadores e pela mídia quase monopolista, estas ideias desceram ao povo com a chancela de verdades plenas e passaram a orbitar o imaginário de todo aquele que tivesse contato com a rede mundial de computadores através de plataformas como o youtube. Jovens pobres e distanciados de qualquer possibilidade de enriquecimento no mundo capitalista atual passaram a acreditar piamente em conceitos como “meritocracia”, “trabalho” e “esforço” sem raciocinar a partir de suas próprias experiências de vida. Foram convencidos de que se eram pobres, a culpa era exclusivamente sua e que era possível “enriquecer” apenas trabalhando e se esforçando. Para fazer este Conto da Carochinha funcionar, o sistema construiu uma escada de “coachs” que falavam em “sucesso”, “mindset”, “vontade”, como enriquecer e “dar o máximo de si” enquanto deixavam as “palestras” que davam dirigindo um carro popular de cinco ou dez anos atrás.

Não importava mais a realidade. O sonho era vendido em todas as esquinas, ora fantasiado de “franquia”, ora de “empreendedorismo digital”. A história do sistema que deixava rico aquele que trabalhava e pobre aquele que não trabalhava foi contada aos quatro cantos da Terra, ao mesmo tempo que ela se tornava plana. Marx virou um facínora. Lênin, uma aberração histórica. E até Paulo Freire, o demônio brasileiro. Note-se que todos os pensadores que defendiam que o sujeito pensasse a partir da sua própria realidade, que defendiam o materialismo ao invés de um idealismo juvenil foram atacados. Com a internet, o plano era vender sonhos a todos, indiscriminadamente.

Tarólogos viraram filósofos. Torturadores, democratas. Nazistas tornaram-se “lutadores da liberdade” e os pobres responsáveis pela sua pobreza. Fazer gesto de fuzilamento era sinal de que era “temente a Deus”, defender o fim da saúde pública era “defender um Brasil melhor” e acabar com toda a proteção ao trabalho a ao trabalhador passou a ser entendido como um gesto de coragem pelo “futuro do Brasil”. Professores viraram vagabundos, herdeiros que nunca trabalharam viraram “joão trabalhador” e policial assassino “defensor do país”.

Neste cenário de completa loucura as instituições sucumbiram (fácil demais). Ministros se tornaram animadores de auditório, e sessões de tribunal programas de televisão. Juízes viraram acusadores e os acusadores tornaram-se pastores de uma fé muito peculiar: a que defendia que qualquer meio e qualquer argumento deveria levar à crucificação. Militares se tornaram políticos e políticos foram organizados de forma militar. Seguem ordens estranhas, agridem, atacam em bandos, organizam-se em pelotões e não dão a mínima para os que sofrem e os mais necessitados deste país.

Jornalistas, a quem a sociedade entregou a fina tarefa de lutar contra o poder com apenas a verdade, passaram a ser negociantes de opinião e vendedores de mentiras. Nada é impossível de se dizer ou patrocinar, não importa o tamanho da asneira ou do absurdo. Basta pagar bem a quem outrora fez um juramento ético para com a sociedade. Ninguém mais era capaz de dizer o que era verdade e o que era mentira. As “fakenews” começaram nas redações de jornais e revistas antes de se popularizarem em aplicativos e grupos sociais.

A crise do século XXI era uma crise de toda a humanidade. O planeta não aguentava o consumo, a sociedade não suportava a concentração de renda e a democracia não estava preparada pala a vilania das redes sociais associadas ao dinheiro da expropriação financeira mundial. Nem mesmo o Papa conseguiu trazer seu rebanho para longe dos ídolos de ouro. Cristo passou a ser uma palavra suja na boca de charlatões que ao invés de ensinar compaixão, amor à vida e respeito ao próximo, só fazem é pedir dinheiro a quem não tem para fazer o contrário do que o galileu um dia pregou.

Com o caos instalado, muitos de nós – atônitos – não compreendíamos como havíamos chegado aqui. E tampouco tínhamos qualquer ideia de como trazer centenas de milhões à razão de novo. A terra era plana, as vacinas matavam, Deus exigia dinheiro e quem dava amor eram os comunistas (coisa do diabo). Ser pobre era um pecado mortal e ser rico uma demonstração inequívoca de genialidade. Matar crianças negras em situação de rua era “limpeza”, enquanto se chorava copiosamente por animais abandonados. Os índigenas voltaram a ser “vagabundos” e era preciso incendiar suas florestas para “desenvolver o brasil”. O nióbio passou a ser solução para a economia brasileira e o leite de ornitorrinco um dos produtos mais importantes que o Brasil tinha a oferecer ao mundo, junto com a exportação de abacate para a Argentina que poderia inverter nossa balança de comércio.

Eis que surge o vírus.

A forma de vida mais simples e talvez mais primitiva do planeta. Sem sistema nervoso, ou qualquer capacidade de pensar. O vírus não acredita em mentiras, nas redes sociais ou em cultos de televisão. Não respeita ordens de PM com cassetete em punho ou vociferação de político e seus perdigotos. O vírus não respeita praias particulares, carros importados com vidro à prova de bala ou casas com vista para a Baía de Guanabara. O vírus não pergunta em que você votou, quanto você ganha ou quem você acha que deve morrer.

Ele mata.

E o vírus, numa destas imponderabilidades da História passou a nos dar aula sobre coletividade, segurança, distribuição de bens materiais, ajuda ao próximo e reconhecimento dos trabalhos socialmente relevantes.

Se você olhar na história das religiões há um lugar comum. Sempre uma figura que surge em momentos de crise para liderar a humanidade a um novo sentir e uma nova forma de pensar. Neste processo ele mata muitos, ameaça outros vários e salva uns poucos. Talvez o vírus venha a ocupar o lugar do Messias. Afinal, ele está nos ensinando coisas que já nos havíamos esquecido.

Se vamos aprender, não sei. Há quem diga que estamos no limiar de uma grande transformação. Há quem defenda que nada vai efetivamente mudar. Sinceramente, não sei. Contudo, o banho de pragmatismo e realidade que o vírus está dando ao mundo é inegável. Reabram os cultos e morram em nome de Deus. Quebrem a quarentena para salvar a economia para os ricos poderem sobreviver. Gritem no parlamento para não dar assistência aos pobres e vejam esses mesmos pobres se levantarem em ódio quando lhes faltar o médico, o remédio ou o pão.

O vírus não fez nada diferente do que é o sistema capitalista. Apenas diminuiu o tempo de resposta entre as ações e os resultados. E aqueles que enganam e mentem, aqueles que sempre enganaram e mentiram não conseguem mais tempo para convencer que a morte é “boa para o Brasil” ou que tudo não passa de uma “gripezinha”. Nem mesmo com “lives” e “robôs” pagos por empresários sonegadores e criminosos.

Não é o juízo final, mas o vírus tá pagando todas as apostas.

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