Obrigado Clovis. Teu aporte à queda do Pinochet os chilenos não esqueceremos, por Tebni Pino Saavedra

Hoje, ao saber da sua partida, seguramente deveremos guardar um velho disco de Chico Buarque e beber aquela garrafa de vinho que o esperou anos para devolver o gesto, o compromisso, a solidariedade.

Obrigado Clovis. Teu aporte à queda do Pinochet os chilenos não esqueceremos

por Tebni Pino Saavedra

Corria o ano 1986 e a Frente Patriótica Manuel Rodríguez (FPMR) precisava rebater a informação oficial da ditadura do Pinochet com informações que eram geradas desde o estrangeiro pois, essas, sim, eram críveis.

Foi então que fomos até a casa de Clovis, elegido para ser ele quem escrevesse a verdade desde as páginas da Folha São Paulo. Participaram da reunião Rodrigo, José Miguel e eu, quem tinha feito o contato. Empanadas numa mesinha no quintal de sua casa, um disco do Quilapayun e os detalhes contados pelo máximo referente da FPMR, o comandante José Miguel (http://culto.latercera.com/2019/05/18/raul-pellegrin-ingeniero-almas/), quem vinha da Europa numa cruzada esclarecedora acerca do significado que tinha para o Chile o aparecimento de uma força paramilitar que respondesse, através das armas, a cruenta repressão da ditadura.

Compromisso feito, coube a Clovis contar detalhes da reunião e, posteriormente, entregar a versão oficial do ataque do grupo ao ditador, quando este retornava de um tranquilo final de semana numa casona que dispunha nas encostas da cordilheira dos Andes. Era o dia 7 de setembro de 1986 e o Chile todo acreditou na veracidade do ataque e sua matéria (traduzida), junto a outra escrita na Europa, virou uma tufada de ânimo ao povo chileno que, desta vez, sim, se preparou para acertar o golpe final aos já mais de 13 anos de repressão, assassinatos, desaparecimentos e perseguição contra quem se atrevesse levantar a voz.

Não foi, porém, a única vez que Clovis acertou com sua velha máquina de escrever. Transcorridos alguns meses, jornalistas da Folha viajaram ao Chile buscar a verdade dos fatos, sendo ele secretário de redação do jornal quem pedia contatos, buscava a melhor forma de cuidar da vida dos seus dirigidos, insistia na necessidade não apenas porque acreditava na verdade, senão porque era simplesmente inimigo feroz da ditadura.

Leia também:  Semestre de retrocessos, por Daniel Almeida

Hoje, ao saber da sua partida, seguramente deveremos guardar um velho disco de Chico Buarque e beber aquela garrafa de vinho que o esperou anos para devolver o gesto, o compromisso, a solidariedade.

Tebni Pino Saavedra é jornalista

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