Os desafios superpostos durante a pandemia da Covid-19 em um Brasil real, por Fabianna Freire Pepeu

É inevitável que ocorra a falta de leitos para casos de moderada e alta complexidades muito breve e o gráfico de óbitos será assustador. 

Os desafios superpostos durante a epidemia da Covid-19 em um Brasil real

por Fabianna Freire Pepeu

Os pronunciamentos e, principalmente, as atitudes de Bolsonaro, nas últimas semanas, levaram milhares de brasileiros a quebrar não o jejum da Quaresma, mas o jejum do Fique Em Casa.
Na sequência, o ministro da Saúde também flexibilizou, embora em outro nível , o próprio discurso, “num ir e vir infinito”, ora concordando, ora discordando do genocida mor.
No Rio de Janeiro — ainda tateio uma explicação, mas sei que ela existe —, Witzel, inusitadamente, para alguém que apareceu como um dos primeiros no enfrentamento das orientações federais, radicalizando a ponto de tomar decisões que fugiam à esfera estadual e que foram abatidas por Bolsonaro, também mudou discurso e, criminosamente, liberou cidades do interior. Também não se dedicou a cuidar, em parceria com o prefeito de Niterói, da questão fulcral da aglomeração diária nas barcas que ligam a cidade à capital fluminense.
Zema, em Minas Gerais, outro desqualificado na arte de salvar vidas, mas muito versado na prática do puxa-saquismo, nunca teve convicção sobre o distanciamento social, a exemplo de qualquer pessoa que nega a obviedade da ciência ou dos números e informações mórbidas que chegam, todos os dias, de vários países europeus e dos Estados Unidos. Dono de uma cadeia de lojas no estado e adepto do gerúndio de telemarketing (“Estamos estudando um protocolo que deveremos estar divulgando na próxima semana para que toda a liberação seja feita …”), o governador de Minas Gerais apresenta estatísticas de contágio e morte por Covid-19 que parecem distante da realidade: são apenas 14 óbitos em um estado de dimensões enormes, mas 97 mortes estão sob investigação e há mais de 50 mil casos suspeitos. Temo que no estado de um aliado de Bolsonaro que disse, inclusive, em um vídeo recente que “o vírus precisa circular”, esteja ocorrendo especial escamoteamento da verdade dos números do novo coronavírus.
Tudo isso somado ao modo de ser brasileiro e isso, na média, significa se importar muito pouco com o outro, não há como criar ilusões: é inevitável que ocorra a falta de leitos para casos de moderada e alta complexidades muito breve e o gráfico de óbitos será assustador.
Faça das tripas coração — e é mesmo muito pouca gente que tem o extremo privilégio de ter reservas financeiras para se manter em casa em um país no qual falta água encanada para milhões de pessoas — e continue em quarentena, pois assim, apesar de todo movimento genocida daqueles que deveriam proteger o seu povo, você poderá, talvez, escapar desse naufrágio e salvar mais alguém.
Fabianna Freire Pepeu é jornalista. 

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