Os ‘mercados’ precisam pagar o preço, por André Motta Araújo

É inacreditável a passividade do comando da política econômica brasileira desde 2014 ao observar de camarote o afundamento da produção e do emprego, sem absolutamente nada fazer.

Os ‘mercados’ precisam pagar o preço

por André Motta Araújo

O Brasil pode crescer usando uma vasta reserva de mão de obra desocupada, imensa capacidade instalada em produção de alimentos, cimento, aço, alumínio, algodão, tecidos, veículos, navios, calçados, roupas, bebidas, remédios, madeira, tijolos, azulejos, auto peças, papel e celulose.

Por que não cresce se todos esses fatores estão disponíveis no País? Estão todos aí, parados, milhões de trabalhadores parados e o País precisando de saneamento, moradias, drenagem, despoluição de cidades, praias, periferias, reparos de hospitais e escolas, conclusão de obras paradas.

Porque um grupo de economistas, que controlam o Banco Central e toda a política econômica, TRAVAM o funcionamento conjunto desses fatores de produção para atingir objetivos meramente estatísticos que são necessários aos “mercados” financeiros como metas de inflação e com isso impedem o país de trabalhar e crescer. Mesmo dispondo de todos os elementos e instrumentos para crescer e com isso atender às necessidades imensas da população, o Brasil tem fatores físicos de produção de bens, de geração de empregos, de criação de riqueza e oferecimento de serviços à população.

Nada anda porque, de propósito, a  economia está bloqueada para se tentar atingir estatísticas e índices que para eles é o negócio, é um processo de insanidade e de cupidez, uma agressão à  ciência econômica que foi criada para, através da inteligência, amenizar crises e operar contra ciclos naturais que podem ser enfrentados pelo engenho humano, como fizeram os grandes economistas operacionais  Keynes e Schacht.

Para deixar o processo econômico seguir um curso da natureza não seria preciso ciência econômica e nem economistas. Mas, pior ainda é quando economistas por sua intervenção aumentam as crises como cortar gastos públicos em meio à recessão, quando  a lógica indica que o Estado deve fazer o contrário no contra ciclo com a maior ferramenta que só o Estado dispõe, a moeda. A moeda é o instrumental para enfrentar crise, quando deve ser expandida e não contraída, é uma arma do Estado.

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POR QUE NÃO USAR A CAPACIDADE OCIOSA?

É inacreditável a passividade do comando da política econômica brasileira desde 2014 ao observar de camarote o afundamento da produção e do emprego, sem absolutamente nada fazer. Há no País fatores INTERNOS de produção que não estão limitados por nenhum constrangimento externo e que podem ser ativados por uma política de estímulos monetários calibrados dia a dia, o que exige inteligência, engenho e arte, algo desconhecido no campo de economistas de cartilha que desde o Plano Real manejam a política monetária através de seu domínio absoluto do Banco Central do Brasil.

A POLÍTICA ECONÔMICA ATENDE AOS INTERESSES DO “MERCADO”

A recessão, agora caminhando para a depressão, atende especialmente aos interesses do “mercado”. O sistema financeiro e seus clientes rentistas são os credores em Real do Estado, das empresas e das famílias. Quanto mais recessão, mais valorizadas são as dívidas em Real, não só a dívida pública federal como as dívidas das empresas e os financiamentos às famílias, tudo o que tem na ponta credora o sistema financeiro e seus clientes rentistas.

Como a taxa de juros real é várias vezes superior ao crescimento do PIB, a cada dia os que detém aa riqueza financeira ficam mais ricos, a renda mais se concentra e os pobres ficam mais pobres. No caminho, o Estado esmagado pela dívida pública cujo custo de carregamento é a maior despesa do orçamento, maior que a previdência, não tem mais recursos para educação, saúde, saneamento, obras públicas, tudo o que prejudica ainda mais os pobres.

Portanto, NÃO HÁ NENHUMA VANTAGEM PARA O PAÍS EM PROTEGER OS ‘MERCADOS ‘, que não entregam crescimento em troca da proteção de seus ativos, proteção essa que custa caríssimo à sociedade e especialmente aos pobres. Essa proteção se dá pelo “juro real” e pela “meta de inflação”.

Os “mercados” nem querem ouvir falar em uma política de estímulos monetários representada pela emissão de moeda cuja base está seca. Desde o Plano Real o Brasil não emite moeda nova, a base monetária real não cresce, o terreno da economia produtiva está seco e nada cresce em terreno seco.

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O TRATO DO PAÍS COM OS ‘MERCADOS’

O País dá GARANTIAS EXCEPCIONAIS aos ‘MERCADOS’, representadas pelo juro real, pela ausência de controle cambial, pela manutenção de ALTÍSSIMAS reservas internacionais, cujo custo de carregamento é pago por todo povo brasileiro mas que serve como garantia especialmente aos especuladores internacionais, parte central dos “mercados” que entram e saem em minutos do País, para aproveitar todas as jogadas possíveis em diferencial de juros, o que só é possível pela segurança que lhes dão as reservas internacionais de quase US$ 400 bilhões e ausência completa de controle de câmbio, abolido por completo em 2008 (Resolução 3.568/2008), permitindo aos bancos remeterem divisas sem necessidade de autorização oficial, algo que havia desde 1933.

Todas essas super vantagens tinham como contrapartida implícita que os “mercados” promoveriam o crescimento e a prosperidade em troca da liberdade absoluta, proteção e garantias que o Estado lhes concedia. O Estado cumpriu sua parte, mas os “MERCADOS” não pagaram o preço combinado.

A MAIS ALTA CONCENTRAÇÃO DE RENDA DO PLANETA, O MAIOR CRESCIMENTO DA MISÉRIA NA HISTÓRIA DO BRASIL,  NUNCA HOUVE TANTOS RICOS E TANTOS POBRES NO PAÍS,  UMA EXTRAORDINÁRIA DILACERAÇÃO DA BASE SOCIAL, RUPTURAS FAMILIARES, CRIMES E FALTA DE PERSPECTIVA DOS JOVENS

Os últimos dados do PNAD apontam um crescimento nunca antes registado do Coeficiente de Gini, que aponta a concentração de renda, colocando o Brasil como um dos campeões da concentração e, como consequência, do empobrecimento da população mais carente, que já era muito pobre em 2014.

OS ‘MERCADOS’ PRECISAM PAGAR O PREÇO

Foram extraordinariamente beneficiados pelo controle absoluto do BANCO CENTRAL, desde 1994, com o que capturaram a quase totalidade da riqueza nacional, muito melhor distribuída entre 1950 e 1980 do que em 2019. Entre 1950 e 1980 os “mercados” NÃO controlavam a moeda e a riqueza do País.

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O preço a ser pago deve ser a desmontagem dos mecanismos de proteção e garantia GRATUITOS que o Estado oferece aos mercados quais sejam:

1.Retornar o BANCO CENTRAL ao controle do Estado brasileiro. Nenhum dirigente pode ter sido ligado ao mercado financeiro. Desde 1994 TODOS os dirigentes do BC são, foram ou voltaram ao mercado financeiro. Basta seguir o caminho do Federal Reserve System dos EUA, onde nenhum dirigente pode ter ligação com o mercado financeiro, regra não escrita e fielmente seguida. É inaceitável essa infiltração de dirigentes de bancos privados dentro do BC.

2.Restabeler o controle de câmbio pelo FIRCE, que operava no Brasil de 1933 a 2008, com moderação, segurança e proteção dos interesses do País.

3.Abolir o sistema de “metas de inflação”, que só trouxe travas ao crescimento do País. A China tem “meta de crescimento” e não meta de inflação.

4.Restabelecer a CONTA MOVIMENTO do Banco do Brasil para financiar o dia a dia do governo, de forma mais barata e eficiente do que se financiar no “mercado” a juros altos, ficando réfem do sistema financeiro nacional e internacional, a quem precisa prestar reverência e submissão, além de pagar caro.

5.Juro da dívida pública 1% ao ano acima da inflação. Os detentores que não aceitarem, resgate em dinheiro, que irá para ativos físicos.

6.Programa de obras públicas de R$2 trilhões em 40 meses, o que fará o País crescer 5 a 7% ao ano nos próximos 4 anos.

O Brasil hoje está de joelhos perante os “mercados” a troco de nada, não se beneficiou dessa submissão, só perdeu, a China não cometeu esse erro.

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9 comentários

  1. Prezado André

    Isto não vai acabar bem, se estes ogros idiotas que se entopem de dinheiro a cada clique de teclado de computador acham que vão escapar pegando um avião; seus carros serão atacados pela miséria no caminho. E não haverá brioches para todos. Estão criando as condições (fome, miséria e ausência absoluta de perspectivas) para que tenhamos uma conclusão sangrenta, como na Revolução Francesa. E nosso Antigo Regime é o neoliberalismo e o “lúmpen empresariado”, como tipos do dono da Havan (uma careca vazia em busca de um cérebro)

  2. A mídia assassina, quadrilheira e corrupta é tida pró mercado……vendem seu peixe todo dia, enganando a população que nada ganha com esses abutres . ..
    E ainda demonizando aqueles que tentam explicar esse engodo, como Marilena Chauí…..

    A bolha será difícil de estourar, já que temos um bizarro sinistro da fazenda que só pensa nisso….proteger o mercado e f…..o país…….

  3. Perfeito, André. Vamos ver se, a partir do movimento da gurizada nas ruas, a parte mais consciente da sociedade aproveita o impulso para cobrar essa mudança radical; não adianta sacar Bolsonaro e essa agenda nefasta permanecer. É preciso impor uma nova dinâmica.

    Não vai ser fácil. Aliás, essa é a guerra de fato. Não vai ser fácil, mas é imperioso.

  4. Esse post diz tudo, tecnicamente perfeito. Só faço um comentário ou correção, por que 1% de juros acima da inflação? Por que não 0,5%? Na verdade, nada acima da inflação, os bancos já lucraram muito nestes últimos 25 anos pós real.

  5. Caro sr. André (se me permitir) viu a chacina em Lauro de Freitas / BA? E a outra em Belém / PA? A chacina a meu ver é olhar para aquelas ruas, aqueles fios pendurados em postes caindo, para aquelas casas, aquela favela em alvenaria. Não era a imagem do fundão do Parque Edu Chaves em SP? Vila das Belezas, Parque Pirajussara ou algum lugar perdido nos cafundós de Guaianazes na Capital Paulista? Não era a abarrotada Capital com crescimento e imigração desordenada. Nem mesmo Rio de Janeiro. Eram duas Cidades isoladas, sem a pressão imobiliária, no meio das Florestas que segundo “Nossa Consciência Ambientalista Apurada e Refinada” deveriam garantir a Existência e Condições de Vida da Humanidade !!! Onde estava o esplendor da Mata Atlântica em Lauro de Freitas? E ainda pior, onde estava uma única árvore nas imagens daquela Humanidade Chacinada no meio da Floresta Amazônica? O Brasileiro não se enxerga. O Brasileiro não comanda a Vida e o Poder que Somos Nós próprios. É Inacreditável !!! Como é Surreal olhar para a Cia. Norueguesa Hydro Alunorte destruindo e se enriquecendo no meio da miséria e exploração da Amazônia e População Brasileira Amazônida, enquanto discursos e reprovações de 1.a Ministra daquele País. Onde está toda a Fortuna, Evoluções, Progresso, Desenvolvimento, Empregos de tamanha Riqueza Nacional que brota dentro do Nosso Território? É a mesma chacina aos olhos e consciência de enxergar Brumadinho / MG ou Barão de Cocais / MG. Toda aquela miséria e atraso no meio de Gigantescas Minas e Espetaculares Recursos Minerais e Financeiros. Onde estão? Qual Morador destas Cidades Brasileiras se beneficiam disto? Onde está tamanha Pujança e Riqueza no meio daquela pobreza? Um Caminhão de Mineração (daqueles que vemos às dezenas nas minas) pode chegar a custar quase 6 milhões de dólares (US$ 6.000.000,00) Somente os pneus em alguns modelos podem chegar até 40 mil dólares. Onde está esta Tecnologia? Onde estão estas Fábricas? Onde estão os Engenheiros Brasileiros para desenvolverem tais produtos? Onde estão estes EMPREGOS? Onde está toda esta RIQUEZA, que não enxergamos de forma alguma, sob ângulo algum em Lauro de Freitas, Belém, Brumadinho ou Barão de Cocais? Alguém reparou na pobreza destas cidades e suas chacinas? E no esplendor das Matas Tropicais? Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação. Obrigado. abs.

  6. Gostaria que algum economista ligado ao governo comentasse esse artigo, para entender os prós e contras, analisados pela outra face.

  7. Lauro de Freitas / BA ou Belém / PA. Aproximadamente 150 mil habitantes cada. Isoladas de outros grandes centros. um décimo da população de Campinas ou Guarulhos / SP.

  8. Nesse e em outros blogs são postados comentários prevendo que a população, ao empobrecer, irá para as ruas defender mudanças na política econômica para o país voltar a crescer. Não vai. Nas duas últimas manifestações (caminhoneiros e estudantes) o que se viu foi a defesa de interesses ligados aos seguimentos que protestavam. Os caminhoneiros visaram somente a diminuição do preço do diesel, mas foram incapazes de protestarem contra a venda/entrega do patrimônio da Petrobras a grupos privados nacionais e internacionais. Já o objetivo dos estudantes era reverter os cortes de verbas nas universidades federais porque eles sabem que a alternativa é a cobrança de mensalidades ou a privatização. Nos dois casos, poucos teriam como pagar os cursos por elas ministrados.
    A população brasileira, desde a época colonial, foi impedida e aprendeu a não interferir na administração pública, não opinar sobre nada. Os que vieram ou foram enviados para o Brasil, vieram só para trabalhar. Uns poucos conseguiram enriquecer e retornar ao continente europeu, mas a grande maioria ficou por aqui trabalhando a troco de baixos salários e sobrevivendo como podiam, mas jamais reivindicaram melhorias em protestos contra a carestia. Os que foram trazidos (os escravos) vieram para trabalhar a terra, acorrentados e isolados do convívio com os demais habitantes. Quando foram libertados ouviram a frase: “Vocês agora são livres, se virem”. Eles estão por aí, se virando até hoje, mas não se tem notícia de protestos, organizados a nível nacional, no sentido de, pelo menos, impedirem a eliminação de direitos adquiridos.
    São esses dois tipos de pessoas que formam o grosso de nossa população. Eles sabem muito bem que nada aqui lhes pertence. Foi-lhes permitido apenas habitarem o país, mas calados quanto ao destino do mesmo. É muito difícil o Congresso, onde estão seus representantes, ouvir a voz dos representados. Então, quem irá pedir para o país voltar a crescer?

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