Como Trump está Criando uma Arquitetura Legal e Militar para Invadir a América Latina
por Sara Vivacqua
Parte 2
“O Extremismo de Esquerda” e a América Latina
O Novo Mapa do Terror – A América Latina
Na primeira parte [A arquitetura legal de Trump contra o ‘extremismo transnacional de esquerda’, por Sara Vivacqua] desta reportagem documentamos como uma grande arquitetura legal, política e militar está sendo desenhada pela administração Trump e seus parceiros internacionais para a chamada Nova Guerra ao Terror contra o que foi declarado “extremismo transnacional de esquerda”.
Enquanto nos EUA e na Europa essa doutrina se traduz em campanhas de securitização e criminalização da sociedade civil — sobretudo da solidariedade palestina e da imigração —, na América Latina ela se expressa numa ruptura ainda mais radical.
Desde o primeiro dia do segundo mandato de Trump, um grande arcabouço legal, militar e de inteligência passou a ser implementado em coordenação entre múltiplos ministérios e países latino-americanos aliados ao Estados Unidos. Juridicamente, parte da estratégia para a América Latina consistia em fundir o conceito de “narcoterrorismo” e o chamado “extremismo de esquerda” numa única categoria, atribuí-la a governos e governantes eleitos considerados hostis a Washington — e abrir passagem, inclusive, para intervenção militar. Washington construiu um caminho jurídico, ainda que ilegal, que lhe permite aspirar a um controle quase governamental sobre a região e reivindicar a aplicação extraterritorial de jurisdição para o uso da força militar. Nada foi feito ao acaso, ao contrário do que o caos performático de Trump nos induz a crer. Esta seria uma analise personalista de uma administração de operadores frios, grandes conhecedores do sistema e sem limites.
No 20 de janeiro de 2025, o primeiro dia exato de sua posse, Trump designa Cuba como Patrocinadora Estatal do Terrorismo — em inglês, State Sponsor of Terrorism (SST) — enquanto a Venezuela foi deliberadamente reservada dessa lista. Deliberadamente, porque nesse mesmo dia Trump assina, em caráter de prioridade política, uma ordem executiva que inaugurou uma outra estratégia a ser testada na Venezuela: um processo formal para designar, a partir de linguagem genérica e expansiva, “certos cartéis” e “outras organizações” como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO) ou Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT), com base na Lei de Imigração e Nacionalidade e no International Emergency Economic Powers Act (IEEPA). O mais importante: o documento altera a própria definição de cartéis, estabelecendo que eles vão além do crime organizado tradicional — por sua convergência com atores extrahemisféricos, inclusive governos hostis, e por operarem como sistemas adaptativos complexos.
O secretário de Estado, Marco Rubio aciona o gatilho da ordem executiva logo um mês depois, emitindo a Notificação Pública 12672. Ficam assim designadas oito organizações do México, El Salvador e Venezuela como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO), com base no artigo 219 do Immigration and Nationality Act. No mesmo dia, Rubio publica um ato paralelo designando essas mesmas entidades como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT). Ao longo dos dez meses seguintes, Rubio chegaria a designar 13 cartéis e organizações criminosas transnacionais na América Latina como FTOs.
Mas a designação terrorista, por si só, criminaliza o ator — era necessário ir além e garantir o isolamento financeiro global de qualquer entidade designada, estendendo o alcance da doutrina muito além das fronteiras norte-americanas. Em 18 de março de 2025, o OFAC (Office of Foreign Assets Control), braço financeiro do Tesouro americano responsável por implementar sanções econômicas, entra neste processo e publica um alerta formal advertindo qualquer banco, empresa ou instituição — dentro ou fora dos EUA — com qualquer exposição às organizações designadas passava a estar sujeita a sanções secundárias e persecução criminal.
Enquanto a arquitetura jurídica era formalizada, Washington em paralelo já havia destacado navios de guerra, posicionado caças F-35 em Porto Rico e enviado o porta-aviões USS Gerald R. Ford ao Caribe — armamento claramente desproporcional para combater cartéis sem força aérea. Desde 2 de setembro de 2025, os EUA conduziram ao menos 44 ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico Oriental, no que a ONU classificou como execuções extrajudiciais. Em março de 2026, um oficial de defesa confirmou ao Congresso que 47 embarcações foram atacadas e ao menos 157 pessoas mortas, incluindo pescadores de Trinidad e Tobago e da Colômbia. A ONU classificou que ação militar encoberta ou direta contra outro Estado soberano representaria “violação ainda mais grave da Carta da ONU.
O próprio comandante do Comando Sul americano — o Comando Sul (SOUTHCOM), estrutura militar responsável pelas operações dos EUA na América Latina e no Caribe —, Almirante Alvin Holsey, levantou internamente preocupações sobre a legalidade das operações e ofereceu sua renúncia numa reunião tensa com o Secretário de Defesa Pete Hegseth em 6 de outubro.
Em 15 de setembro de 2025, entre bombas e execuções extrajudiciais em nome do combate ao narcoterrorismo, Trump expande então o alcance geográfico de sua ameaça e envia ao Congresso uma “Determinação Presidencial” que, sem precisar nomear nenhum deles como terrorista, identifica 23 países como “principais países de trânsito ou produção de drogas ilícitas”: Afeganistão, Bahamas, Belize, Bolívia, Burma, China, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, Índia, Jamaica, Laos, México, Nicarágua, Paquistão, Panamá, Peru e Venezuela.
Com o Comando Sul paralisado por preocupações jurídicas e Holsey já afastado, Rubio forneceu o instrumento que faltava para destravar a operação. Em novembro de 2025, designou o Cartel dos Sóis como Organização Terrorista Estrangeira (FTO) e insistiu publicamente que Maduro era “o líder desse cartel” — exatamente nos termos da nova definição da ordem executiva.
O Cartel dos Sóis nunca existiu. O termo é uma gíria venezuelana dos anos 90 para designar genericamente líderes corrompidos pelo narcotráfico. O próprio Departamento de Justiça (DOJ) admitiria em juízo que a organização não existe e órgãos técnicos do governo americano — DEA, Departamento de Estado, Serviço de Pesquisa do Congresso e o Relatório Mundial sobre Drogas da UNODC — contradizem a mentira que justificou a invasão, não identificando produção nem rede de distribuição de fentanil na Venezuela.
Mas a designação foi suficiente para abrir o caminho jurídico para a invasão de um Estado soberano. Como admitiu o próprio Hegseth em entrevista à One America News Network, declarar o Cartel dos Sóis uma organização terrorista inserida no Estado venezuelano traria “um monte de novas opções” para a forma como os EUA lidam com os narcoterroristas na região.
A ordem executiva de Trump pode ser lida como o ato inaugural de sua estratégia para toda a América Latina. Caracas não seria isolada financeiramente como Havana — foi reservada para outro tipo de intervenção, numa espécie de balão de ensaio para uma nova política intervencionista e de extração de recursos. A invasão à Venezuela foi a execução de uma estratégia coerente, construída em múltiplas frentes — jurídica, militar, de inteligência e política — peça por peça, desde o primeiro dia da posse do segundo mandato de Trump.
O Escudo das Américas e a Arquitetura de Infiltração Regional
Dois meses após a invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da Primeira-Combatente, Cília Flores, em 7 de março Trump reuniu chefes de Estado de 12 nações latino-americanas em seu clube de golfe em Doral, na Flórida, para a cúpula inaugural do Escudo das Américas (Shield of the Americas), oficialmente batizado de Coalizão Contra os Cartéis das Américas (Americas Counter Cartel Coalition). Os líderes das três maiores economias da região — Brasil, México e Colômbia — não foram convidados, mas o autocrata Nayib Bukele, de El Salvador, e Javier Milei, da Argentina, faziam parte da lista. O discurso oficial era o combate aos cartéis, mas a proclamação do Escudo falava em repelir “influências estrangeiras malignas de fora do Hemisfério Ocidental” — linguagem dirigida à China, cujo comércio com a região saltou de 12 bilhões de dólares em 2000 para mais de 500 bilhões hoje. A coalizão reúne 18 países com o objetivo de expandir o compartilhamento de inteligência e a interdição marítima no Caribe e no Pacífico.
Nos dias seguintes, a arquitetura regional do Escudo das Américas começou a se materializar. Em 10 de março, num acordo negociado entre Marco Rubio e o chanceler paraguaio Rubén Ramírez Lezcano, a Câmara dos Deputados do Paraguai aprovou, com 53 votos a favor e oito contra, um acordo de forças americanas (SOFA) que permite a presença de militares e civis dos EUA no país, com imunidade criminal equivalente à de pessoal diplomático. O presidente Lula expressou preocupação com a possibilidade de soldados americanos serem desdobrados na fronteira Paraguai-Brasil — possibilidade negada pelas autoridades paraguaias. Um dia depois, em 11 de março, os Estados Unidos abriram seu primeiro escritório permanente do FBI no Equador, coroando uma cadeia de acordos de segurança assinados em apenas duas semanas entre Washington e Quito — incluindo, em 3 de março, a primeira operação militar antidrogas conjunta em território latino-americano liderada pelo Comando Sul. Analistas observam que a posição estratégica do Equador — com acesso direto ao Pacífico e às Ilhas Galápagos — o torna um ponto privilegiado de projeção de inteligência americana na região.
O Caso Beattie e a Interferência no Brasil
Três dias depois do Escudo das Américas, em 10 de março, Trump enviou Darren Beattie — seu subsecretário interino de Diplomacia Pública e Assuntos Públicos, responsável pela narrativa antiterrorismo americana no mundo — em missão descrita como participação num fórum sobre minerais críticos em São Paulo.
Mas Beattie não tinha nenhuma reunião agendada com autoridades do governo brasileiro, nenhuma agenda bilateral, nenhum engajamento com instituições do Estado. O Ministério das Relações Exteriores brasileiro nunca foi notificado desta suposta missão diplomática — porque não havia nada a notificar. Tratava-se de uma agenda paralela para uma visita na cadeia a Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por conspirar um golpe contra seu sucessor democraticamente eleito.
O Ministério das Relações Exteriores convocou o encarregado de negócios da Embaixada americana para esclarecimentos e revogou formalmente o visto por “omissão e falseamento de informações” sobre o propósito real da visita. Grande parte da imprensa cobriu o caso como se o STF estivesse obstruindo uma missão diplomática.
A aliança Beattie-Bolsonaro não é acidental nem nova. Desde março de 2025, Eduardo Bolsonaro havia se mudado para os EUA com o objetivo declarado de pressionar Washington a impor sanções ao Brasil. Trump anunciou então tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, citando explicitamente o processo contra Jair Bolsonaro como perseguição política e sua liberdade como condição para a remoção das sanções. Eduardo celebrou em entrevista à CNN Brasil: “Se houver terra arrasada, pelo menos estarei vingado.” O STF votou por levá-lo a julgamento por obstrução de justiça.
A visita de Beattie ao Brasil insere-se no apoio de aliados de Washington no Brasil para a implementação da Nova Guerra ao Terror. Nomeado acting undersecretary for public diplomacy and public affairs — um dos dez cargos mais altos do Departamento de Estado —, é o homem responsável pela narrativa antiterrorismo americana no mundo. Ele chega a ser demitido durante o primeiro mandato de Trump por ter participado de uma conferência de supremacistas brancos. Voltou ao governo chamando o ministro do STF Alexandre de Moraes de “arquiteto central do complexo de censura contra Bolsonaro”, elogiando o ataque ao Capitólio de 6 de janeiro e escrevendo publicamente que “homens brancos competentes precisam estar no comando se você quer que as coisas funcionem.”
A Cumplicidade Militar da Argentina
No processo de substituição do que resta de diplomacia pela militarização, em Milei a América encontrou um aliado obediente e estruturalmente indispensável para a arquitetura do Escudo das Américas. O Decreto de Necessidade e Urgência 264/2026, assinado por Milei em 17 de abril e publicado no Boletim Oficial, autorizou a entrada de pessoal e meios das Forças Armadas dos EUA para o exercício “Daga Atlântica”, entre 21 de abril e 12 de junho de 2026, nas instalações da Base Naval Puerto Belgrano, da Guarnição Militar Córdoba e da VII Brigada Aérea em Moreno, Buenos Aires — em paralelo ao desdobramento do porta-aviões de propulsão nuclear USS Nimitz em águas do Atlântico Sul.
Milei havia enviado ao Congresso em 2025 um projeto de lei para autorizar a entrada de tropas estrangeiras — e o projeto jamais foi votado pela Câmara dos Deputados. O decreto contorna esse bloqueio legislativo invocando “necessidade e urgência”, mecanismo constitucional de exceção.
A dimensão tecnológica dessa arquitetura chegou, no entanto, com outra figura do mundo corporativo com raízes sedimentadas nos serviços inteligências dos Estados Unidos e Israel. Em 12 de abril de 2026 — exatamente quando as tropas americanas começavam a se instalar nas bases argentinas — Peter Thiel desembarcou em Buenos Aires acompanhado de família, assessores e segurança pessoal. Em 23 de abril, foi recebido na Casa Rosada por Milei e pelo chanceler Pablo Quirno. Milei descreveu o encontro como uma conversa “maravilhosa” entre “anarcocapitalistas”.
Thiel, ex-sócio de Jeffrey Epstein, é cofundador e presidente da Palantir Technologies, empresa construída em torno da integração de dados, análise de inteligência e contratos governamentais. Desde 2014, a Palantir fornece tecnologia às agências de segurança israelenses e firmou uma “parceria estratégica” com o Ministério da Defesa de Israel para apoiar o “esforço de guerra”, realizando sua reunião de conselho em Tel Aviv “em solidariedade” a Israel. Um relatório da Relatora Especial da ONU Francesca Albanese concluiu existirem “fundamentos razoáveis” para crer que a Palantir forneceu tecnologia de policiamento preditivo e a plataforma de inteligência artificial que alimenta os sistemas “Lavender”, “Gospel” e “Where’s Daddy” — sistemas que geram automaticamente listas de dezenas de milhares de alvos em Gaza.
A Palantir também alimenta o Gaza Civil-Military Coordination Center, o complexo militar americano em Kiryat Gat criado em outubro de 2025 para executar o plano Trump para Gaza. É a mesma empresa que, nos EUA, acumulou contratos com o ICE avaliados em 287 milhões de dólares entre 2011 e 2025, fornecendo o sistema que dá a cada agente de imigração acesso a uma rede de bancos de dados públicos e privados sobre qualquer pessoa.
Como já reportado pelo DCM, a Palantir se infiltra no Brasil através de Luciano Huck e do ministro Barroso. São muitas frentes da guerra ao terror na América Latina contra o chamado “extremismo de esquerda” — e estão muito mais conectadas e integradas entre si do que aparentam.
Sara Vivacqua é jornalista investigativa.
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