Os parasitas da democracia, por Tania Maria de Oliveira

Os desafios de cura que temos pela frente são gigantescos e diferentes de tudo o que já enfrentamos.

Os parasitas da democracia

por Tania Maria de Oliveira

Os organismos que se alimentam de outros e lhe causam danos são conhecidos nas ciências biológicas como parasitas. O hospedeiro é o espécime que é afetado ou parasitado.

Metaforicamente, usamos o termo científico para designar indivíduos ou coletivos que agem de igual forma nas relações sociais.  A escolha do nome do filme sul-coreano agraciado com o Oscar não é, evidentemente, casual. O roteiro, que mostra uma sociedade fraturada, faz explícita alegoria de luta de classes, assim como em outras obras do diretor, com fundo evidentemente anticapitalista, mostrando a relação entre os extremamente ricos e os miseravelmente pobres, de forma quase caricata, em que a base da pirâmide do extrato social é um porão. Aposta no papel redentor da violência como único resultado presumível, após o crescimento das tensões.

Os parasitas de Bong Joo-Ho não são desambiguados, migram de perspectiva durante o filme mostrando uma retroalimentação.

O processo de democracia vivenciado por vários países se firmou em décadas de estabilidade política, desenvolvimento econômico e produção de bem-estar social. Foi feito com a união entre democracia e liberalismo. No entanto, o que se tem hoje em grandes nações, entre as quais o Brasil, é um liberalismo antidemocrático, autoritário e com viés neofascista.

No campo dos discursos dos dirigentes do governo brasileiro, a resposta para as crises, seja econômica, política ou de gestão, encontra bodes expiatórios para buscar justificativas. Em seus sucessivos ataques verbais e ameaças às Ong,s ambientalistas, Jair Bolsonaro costuma incluir fiscais do IBAMA, do trabalho e da Funai. O titular da pasta da educação, Abraham Weintraub, chamou, em setembro passado, professores de universidades federais de “zebras gordas” e, mais recentemente, temos a fala do ministro da economia Paulo Guedes, que chamou os servidores públicos de parasitas.

Embora servidores públicos sejam constantemente enxovalhados pelo governo, estudo divulgado pelo Instituto de pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em dezembro de 2019, denominado Atlas do Estado Brasileiro, traz dados sobre a estrutura e a remuneração no serviço púbico federal, estadual e municipal do Executivo, Legislativo e Judiciário e demonstra que a expansão do setor público em três décadas (1986-2017) é similar à do mercado formal do setor privado, desdizendo o enunciado comum de inchaço da máquina. A eficiência do serviço público, exigência de índole constitucional, por outro lado, requer boas condições de prestação das atividades estatais, estímulo à contínua qualificação e correta estrutura oferecida pelo Estado.

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Existem mecanismos formais de verificação da devida prestação do serviço público. Estigmatizar o servidor, proferindo publicamente frases de impacto demonstra uma fissura na democracia, mas o problema é bem mais profundo que isso.

Em outra ponta o ministro da economia Paulo Guedes, reeditando o discurso de um personagem grotesco da TV, profere seu ódio a pobres, defendendo a alta do dólar para que empregadas domésticas não viagem à Disney.

As retóricas, que se assemelham a piadas de péssimo gosto, são, na verdade, demonstrativos do comportamento autoritário do governo de Jair Bolsonaro, sem qualquer compromisso com as instituições democráticas. Como um parasita, ele as utiliza apenas para sustentar seus propósitos e ações.

Tuanny, minha sobrinha e bióloga preferida, me ensinou que o efeito de um parasita no hospedeiro depende de vários fatores. Pode não lhe afetar as funções vitais como pode causar a sua morte ou uma grave doença. O parasita pode se reproduzir e disseminar os seus descendentes, que infestam outros hospedeiros e perpetuam a espécie.

Os parasitas da democracia brasileira a estão tornando doente. O diagnóstico é evidente. O enfraquecimento das instituições do Estado Democrático de Direito, os projetos de inspiração fascista sobre os órgãos colegiados, que desconstituem a pluralidade para fazer calar o senso crítico restante, a destruição da educação, os ataques à imprensa e os discursos higienistas e de ódio aos direitos humanos, que parecem testar a capacidade do nosso sistema imunológico, são cotidianos.

Os desafios de cura que temos pela frente são gigantescos e diferentes de tudo o que já enfrentamos. Não há um antibiótico capaz de dar conta disso em poucas doses. Não serão as próximas eleições ou as seguintes a elas. São etapas a longo prazo, nas quais eleições são apenas uma pequena parcela da luta.

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Tania Maria de Oliveira – integrante da ABJD – Associação Brasileira de Juristas pela Democracia

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1 comentário

  1. Há pessoas que nascem cheias de direitos.
    Há pessoas que nascem só com obrigações.
    As pessoas que nascem cheias de direitos nem abrem mãos de seus direitos e nem das pessoas cheias de obrigações, das quais imediatamente se apossam.
    Essas pessoas cheias de direitos só não perdoam que pessoas que só tenham obrigações queiram se eximir delas : das obrigações e das pessoas cheias de direito.
    Assim, esse senso doentio de “igualdade” , para as pessoas cheias de direitos, vai de simples retórica a um assunto sem lógica, já que deus fez as coisas desse modo, piramidal, onde cada um tem as suas obrigações e o topo tem todos os direitos remanescentes.
    Da mesma forma que os seres humanos, há entre os demais seres aqueles que só têm direitos ( de ataque, usufruto, alimentação, predação) e os que têm somente obrigações, especialmente o de alimentar o outro com a própria vida, assim acreditam e se inspiram os humanos “direitos” – talvez por isso acreditem-se como pessoas de direita e únicas com direito à uma vida digna.
    Harmonia não é uma escolha e equilíbrio é uma ideia doentia e contrária aos desígnios do “criador”.
    Vamos então “raciocinar” segundo essa lógica analisando o filme Parasitas.
    Vejamos que aquela família porca, que não sabia nem porque existia e como ratos se escondiam num porão, não tinha outro objetivo que não parasitar alguém com posses para garantir a própria sobrevivência.
    Alguém rico e bem nascido, com espaço pra viver, trabalho digno, estabilidade econômica e aceitação social, não vai se reproduzir sem controle e nem se sujeitar a viver de qualquer jeito como aquela família, é a lógica.
    Tampouco vai se ocupar de atividades comezinhas como as de limpeza, manutenção, ensino, cuidados. São parasitas, aqueles miseráveis pobretões que em troca de comida e sobrevivência deverão cuidar do hospedeiro – o rico – sem lesa-lo e aos seus direitos.
    Os ricos se vêem cobertos de razão no trato com os pobres que deles dependem e, assim como aquela mulher que mantinha o marido preso no sótão da patroa alimentando-o de restos poderia ser vista como uma praga por essa patroa, aquele motorista que cheirava mal para o patrão só era tolerado por sua utilidade e nada mais, sendo ambos, para os patrões, como parasitas.
    O rico não tem a visão social além de seu meio porque não precisa.
    Só o pobre precisa saber porque é pobre
    MAS, enquanto o rico não conhece a pobreza ele não compreende a necessidade;
    E quando o pobre conhece a riqueza ele se transforma, sendo capaz de optar ou pela equidade – a justiça social,
    ou pelo poder arrogante da posse predatória, perpetuando essa divisão perversa.
    Não há como promover a paz e a concórdia numa sociedade dividida.
    Não há como impor um governo numa sociedade pacífica e feliz sem dividi-la.

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