Os protagonistas da polarização não são os melhores atores da cena política, por Maria Inês Nassif

Roberto Stuckert Filho/PR

da Carta Maior

Os protagonistas da polarização não são os melhores atores da cena política

PT e PSDB estão envelhecidos, mas ainda são os dutos de comunicação das bases oposicionistas e governistas com o poder institucional.

Maria Inês Nassif

O sistema político brasileiro vive grandes impasses. A sociedade radicalizou posições políticas e esticou a corda da disputa ideológica na sua base social no limite, sem encontrar dutos institucionais para transformar essa luta em poder político de forma equilibrada. Os veículos definidos pela democracia brasileira como os apropriados para transformar hegemonias sociais em poder político estão esgarçados. A conversa entre instituições e luta política está muito difícil.

O que acontece hoje é que a polarização da sociedade encontra, no oposicionismo, apenas a direita conservadora, e partidos que não dispõem de quadros de qualidade na política institucional. A oposição hoje grita muito e bate muita panela, mas não consegue sair da camisa-de-força que submete todos os que não concordam com o governo de esquerda ao discurso conservador, e ao ônus de assumir uma agenda eivada do moralismo próprio e tradicional da direita – família, pátria e religião. Presa nesses estereótipos, nem o próprio conservadorismo consegue formular um projeto próprio de poder. O projeto é o discurso moral; o objetivo é o poder imediato, sem obediência a regras como o voto e o mandato legítimo. Além do discurso, reina o nada. O livre mercado acaba resolvendo tudo na cabeça desse setor social porque não existe nada a se propor para o futuro, a não ser a liberdade de fazer negócios.

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No governismo, a esquerda assiste estupefata a perda de espaço para a direita e não consegue encontrar na vida institucional um organismo político com vocação para a hegemonia como era o PT do passado. O PT vive profundo desgaste, mas é risível imaginar que qualquer outra força política nesse campo ideológico tenha condições de assumir o papel central e a direção dessas forças políticas.

Desde 2005, quando estourou o chamado Escândalo do Mensalão, o PT acreditou que resolveria a disputa política apenas no voto, contando com a popularidade de um grande líder político, Luiz Inácio Lula da Silva, e a simpatia automática de beneficiados com os programas sociais dos governos petistas. Nunca entendeu o desgaste cumulativo a que estava submetido por uma campanha sistemática para torná-lo sinônimo de corrupção e incompetência.

A reação do partido a denúncias, algumas incorretas, outras corretas, não foi eficiente: às denúncias incorretas, não foi capaz de contrapor respostas que fossem ouvidas por um eleitorado que ascendia à classe média e por jovens que cresceram já numa realidade de maiores oportunidade; às denúncias corretas, não deu respostas claras que indicassem correções na condução do partido. Em ambos os casos, não foi ajudado por uma situação real de hegemonia da mídia conservadora, mas o fato é que não construiu nada que se contrapusesse a essa realidade.

Acrescente-se a isso uma crescente queda na qualidade de seus quadros, em parte por erros na condução do partido, em parte por ceder a regras eleitorais que o tornaram refém de financiamento privado vindo de fora, o que abriu muito espaço político para quadros não qualificados e reduziu o poder interno de grupos mais qualificados.

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Os protagonistas partidários da polarização social, mais por necessidade de partidos para disputar eleição do que propriamente pela qualidade delas, continuam o PT e o PSDB. E o que acontece hoje com as duas agremiações políticas, por razões diferentes, acaba tendo muitas semelhanças.

O PSDB, já constituído como partido de quadros e sem dinâmica interna para formar novos, aderiu à lógica da cooptação dos partidos tradicionais e incorporou atores vindos de outras legendas com vocação conservadora. O surfe na onda ideológica do neoliberalismo no governo FHC, no que foi o mais organizado momento de confluência das forças conservadoras – uma avalanche ideológica capaz de sustentar um amplo programa de privatizações, redução de Estado e restrição de direito sociais –, levou os antigos líderes para o conservadorismo quando o partido já não era capaz de formar quadros novos que resistissem a essa guinada.

Simultaneamente, o PT, desde as duas últimas eleições presidenciais antes de sua vitória, em 2002, com Lula, veio abrindo mão de sua vocação como partido de massas e encontrou conforto na burocracia partidária quando passou a ser atacada impiedosamente por adversários. Ao deixar amornar a vida interna do partido, e perder quadros primeiramente para o governo, e depois em escândalos justos e injustos, perdeu também a sua capacidade de formação de quadros.

Em condições em que o protagonismo desses dois partidos vencidos pela realidade se mantém, enquanto a base social de ambos se descola, prevalece a dificuldade de pensar o futuro. E o futuro está batendo à porta.

Créditos da foto: Roberto Stuckert Filho/PR
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8 comentários

  1. Lúcida a Maria Inês.
    O PT que

    Lúcida a Maria Inês.

    O PT que aí está (no que se refere ao projeto de poder) não serve mais. O PSDB já não servia de há muito (vide a crise hídrica e a falta de proposições)

  2. Primoroso!…

    Parabéns!…

     

    Acrescento apenas que um dos fatores de deformação do PT, a partir da consolidação do PED, foi o fim dos Núcleos de Base. Estes eram nos anos 80 e início dos anos 90 a alma, o espirito e a pulsação do Partido. O PT foi construído e consolidado a partir deles, bem como das Comunidades Eclesiais de Base.

    A reformulação do PED, o retorno da exigência da nucleação para os quadros dirigentes e lideranças do PT são fortes e decisivos remédios para sua regeneração e a volta as origens, no campo organizativo e no funcionamento partidário.

  3. Discurso conservador no

    Discurso conservador no Brasil com pátria, religião e família? Não, Maria Inês, só religião e família. Os conservadores brasileiros atuais não têm nenhum respeito pela pátria. Rezam pela pátria americana. No poder, a primeira coisa que  farão será entregar a Petrobrás e as reservas petrolíferas ao mercado. Em seguida irão aderir a ALCA. E assim chegaremos ao grande destino de nos tornarmos um novo México.

     

  4. Diagnóstico Ruim

    Creio que a cena política está ruim não apenas pelo protagonistas, mas pela análise política. A articulista repete os mesmos erros em não saber separar dualismos básicos como esquerda x direita, conservadores x progressistas, etc. 

    “A oposição (…) não consegue sair da camisa-de-força que submete todos os que não concordam com o governo de esquerda ao discurso conservador, e ao ônus de assumir uma agenda eivada do moralismo próprio e tradicional da direita – família, pátria e religião”.

    O meu diagnóstico é que o principal objetivo do PT é manter-se no poder. Abriu mão de impor uma agenda reformista que tanto pregou enquanto oposição, mesmo tendo ampla maioria no congresso (adestrada pela popularidade de Lula), por não querer correr riscos eleitorais. O ridículo recuo sobre a questão do aborto na eleição de 2010 e o estelionato eleitoral de 2014 são evidências claras. Poderia enumerar os critérios para os tribunais Superiores, especialmente o STF, onde o renomado progressista Facchin foi indicado num momento de incertezas correndo algum risco de ficar de fora, enquanto nomes tecnocratas como Carmen Lucia, Lewandowski, e até mesmo Dias Toffoli, este com notório-saber jurídico questionável, foram aprovados sem nenhuma dificuldade.

    Embora o país tenha melhorado em vários aspectos no governo Lula com destaque para o aspectos econômico – que administrou com maestria o favorável cenário mundial – observamos notáveis pioras em índices importantes e que deveriam ser prioridades de um partido de esquerda: Educação (doze anos de governo e não vimos nenhuma atitude, apenas o Plano Nacional de Educação, que das 20 metas APENAS UMA refere-se a qualidade de ensino, e o restante apenas afagos sindicais; Na saúde a ‘grande’ ação foi o Mais Médicos. Não preciso dizer mais nada. Agora na segurança pública… basta ler o Mapa da Violência – aliás, basta morar no Brasil e também não direi mais nada.

    Resumindo: gostaria de perguntar qual foi a agenda de esquerda que a articulista destacaria em 12 anos de governo e e quais os resultados ?

  5. O Projjeto é derrubar!

    “…mas é risível imaginar que qualquer outra força política nesse campo ideológico tenha condições de assumir o papel central e a direção dessas forças políticas.”

    Nao é risível nada. Enquanto analistas ficam à procura de “ideias força”, “ideologias”, “projetos nacionais” e “lideranças” carismáticas ou não a demagogia do “centrão baleia” e a máquina de propaganda da imprensa tocam os rumos do que podem cada vez mais.

    Repito: analistas que ficam à procura de “ideias força”, “ideologias”, “projetos nacionais” e “lideranças” carismáticas ou não vão ver a banda passar esperando Godot, simplemente porque a fagmentação é social, e não só partidária como os cientistas políticos obsessivamente pontificam.

    O que está por trás é, isso sim, um fenômeno muito mais robusto – que tenho dúvidas se pode ser chamado de ideologia mas que por falta de nome melhor assim chamo – é a crença generalizada de que o Estado é por definição corrupto enquanto o mercado e por definição virtuoso. Não é mera coincidência que são esses supostos “liberais” que “lideram” as manifestações e panelaços e promovem a campanha de desinformação e ódio que assistimos atualmente. É essa a oposição real que deseja ardentemente retornar ao poder. Mesmo sem ter coragem de explicitar suas “propostas”. Cínicos que são usam o disscurso moralista como fachada; puro jogo de cena… E os partidos de esquerda não denunciam isso…

    O “projeto”, portanto, é derrubar; depois fazem qualquer coisa enquanto a turba se regozija com o sacrifício do bode expiatório…

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