Para entender de uma vez o que é Fascismo, por Cristiano das Neves Bodart

Conceituar fascismo não é uma tarefa fácil, mas diversas características são fáceis de serem observadas quando o observador as conhece

do Blog Café com Sociologia

Para entender de uma vez o que é Fascismo

por Cristiano das Neves Bodart

A final, o que é Fascismo?

Cristiano Bodart é doutor em Sociologia (USP) e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Apresentamos neste texto o que vem a ser “fascismo”; termo amplamente utilizado. A proposta é apresentar (esclarecer) suas características mais marcantes. Para isso, nos reportamos também à sua experiência mais conhecida: a italiana.

Características

De forma bem objetiva, o fascismo é um regime totalitário onde o Estado é absoluto e seu líder idolatrado, de mão pesada aos “costumes nefastos” e aos inimigos. Nele há uma supervalorização do nacionalismo, sendo o imigrante visto, quase sempre, como intruso e indesejável, sobretudo se sua origem for pobre. Este é acusado de roubar o lugar dos cidadãos naturais.

Há nesse regime uma ênfase ao militarismo, ao culto às armas, uma obsessão com a segurança nacional e a valorização e exaltação do heroísmo; quase sempre representado na figura de seu líder.

Diferente de regimes autoritários, onde os cidadãos devem ser apáticos, nos regimes totalitários, como no fascismo, a população é instigada a dar demonstração de amor ao país e exaltação ao líder, revelando de forma clara seu apoio; por isso é muito comum as demonstrações públicas em datas comemorativas.

É também marca do fascismo o preconceito e o racismo. Como destacou Carone (2002), “a discriminação enquanto comportamento político fascista estaria muito mais na dependência da psicologia do discriminador do que das características dos alvos da discriminação” (p.196).

Observar-se no Fascismo um desprezo aos direitos humanos e um apreço pelo uso da violência contra tudo o que é compreendido como “desordem social”. Historicamente, regimes com características fascistas manifestam desprezo por intelectuais e artistas, se opondo a qualquer tipo de educação que questione os interesses do governo e/ou Estado.

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De acordo com Carone (2002), em governos de caráter fascistas, observa-se um planejamento cínico por parte dos líderes pela racionalização da violência como mecanismo de defesa.

Outras características marcantes do fascismo são o desejo de controlar e censurar a mídia e as opiniões divergentes, o totalitarismo e o uso de preceitos morais e religiosos como forma de manipulação; como no caso do Fascismo Italiano de Mussolini.

No fascismo o líder se coloca como contrarrevolucionário, defensor dos “bons costumes perdidos”, sendo oposição ao governo, acusando-o de diversos males. Trata-se de um regime reacionário caracterizado como “extrema-direita”.

Citando a experiência italiana, Rollemberg (2017, p.368) atesta que o fascismo foi marcado pela oposição “aos projetos tradicionais da esquerda, tais como as liberdades individuais, os direitos humanos, o devido processo legal e a paz internacional”.

A propaganda marcada por mentiras é uma característica do fascismo. “Um discurso calculado racionalmente para provocar efeitos irracionais são próprias da propaganda fascista em qualquer parte do mundo” CARONE, 2002, p. 2004). O objetivo desse tipo de governo é manipular as massas em prol de seus mais perversos objetivos.

História

Para tornar mais claro o conceito de Fascismo, apresentamos um breve cenário de desenvolvimento do Fascismo na Itália.

A implantação do Fascismo na Itália, em 1922, deu-se partir da oposição consciente de parlamentares ao governo, levando o país à crise política a fim de legitimar a necessidade de uma intervenção mais rigorosa, uma ditadura. O discurso do “país afundado em crise e em corrupção” foi usado para que a população aceitasse um líder antidemocrático. Dito isto, à luz da História o Fascismo surge de parlamentares que não ajudavam no desenvolvimento do país, antes marcando oposição e atuando na lógica “quanto pior melhor” para, posteriormente, se apresentarem como a solução de todos os problemas nacionais (MOURA, 2002).

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Quando o fascismo chegou ao poder não havia uma doutrina definida, apenas elementos pontuais e fragmentados que o constituía. Apenas quando se consolida no poder, o fascismo se fortalece e suas ações tornam-se mais claras, perversas e regulamentadas em leis nacionais ou simplesmente por meio de atos ditatoriais. O líder fascista se apresenta como oposição ao marxismo e/ou ao liberalismo em nome de um nacionalismo exacerbado. “Ela se inscrevia, ao mesmo tempo, em uma tradição nacional, contestadora da ordem social estabelecida” (ROLLEMBERG, 2017).

À gusa de conclusão

Conceituar fascismo não é uma tarefa fácil, mas diversas características são fáceis de serem observadas quando o observador as conhece. Comumente, pessoas acabam apoiando a implantação de governos fascistas sem se dar conta. Quando percebem, é tarde. Assim nos mostra a História.

Referências

CARONE, Iray. Fascismo on the air estudos frankfurtianos sobre o agitador fascista. Lua Nova. nº55-56, 2002.

MOURA, G. de Almeida. O fascismo italiano e o Estado Novo Brasileiro. Rio de Janeiro: Ed. Ridengo Castigat Mores. 2002.

ROLLEMBERG, Denise.Revoluções de direita na Europa do entre-guerras: o fascismo e o nazismo. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 30, no 61, p. 355-378, maio-agosto, 2017.

Como citar este texto:

BODART, Cristiano das Neves. Para entender de uma vez o que é fascismo. Blog Café com Sociologia. 2018.

Texto publicado originalmente em  9 de outubro de 2018

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1 comentário

  1. A caracterização acima feita está mais próxima e um regime autoritário do que de fascismo.

    O fascismo não é reacionário ou contrarrevolucionário. Ele carrega o paradoxo de ser uma revolução conservadora (alás, como vemos no Brasil).

    Quando alunos perguntaram ao intelectual João Bernardo, na década de 90, para conceituar o fascismo em uma frase, ele pensou e respondeu: O fascismo é a revolta na ordem.

    É preciso distinguir movimentos fascistas de regimes fascistas. Os regimes fascistas, possuem, de acordo com o modelo do João Bernardo, um eixo endógeno e um eixo exógeno. O exógeno tem sido composto pelas Forças Aramadas e/ou a Igreja. O endógeno são os movimentos sociais e políticos fascistas.

    Um fascista francês resumia bem o fascismo numa frase: O fascismo é o partido da nação em cólera.

    Para baixar o livro Labirintos do Fascismo, do João Bernardo na sua terceira edição, revisada e ampliada: https://ia803109.us.archive.org/3/items/jb-ldf-nedoedr/BERNARDO%2C%20Jo%C3%A3o.%20Labirintos%20do%20fascismo.%203%C2%AA%20edi%C3%A7%C3%A3o.pdf

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