Passa boi, passa boiada. Vaca no brejo, vaca atolada, por Antonio Hélio Junqueira

No centro de gravidade dessa coisa toda, a Amazônia brasileira desponta absoluta. Sobre ela e contra ela seguem pesando em velocidade e intensidade crescentes queimadas e invasões, extermínios de populações indígenas, devastações e grilagens a toda prova.

Passa boi, passa boiada. Vaca no brejo, vaca atolada.

por Antonio Hélio Junqueira[1]

Nosso insubstituível mestre Antonio Candido, em inspirado artigo publicado já lá em 1995, nos advertiu muito bem sobre o quanto as palavras são instáveis[2]. Seus sentidos flutuam ao sabor das pulsões sociais, assumindo conotações ora de direita, ora de esquerda, ora de vanguarda, ora decididamente puxadas para o mais puro reacionarismo. Impossível por rédeas nelas. Tarefa ingrata tentar controlar sua vocação para a migração permanente entre significações. Só não podemos, nunca, chama-las de volúveis, pois que os mutantes sentidos de que se emprenham não nascem de um dia para o outro, nem tampouco se descartam assim, sem mais nem menos. Os sentidos, na verdade, são camadas que se acumulam e se sobrepõem muito lentamente, no cozimento em banho-maria das corriqueiras cotidianidades. São assim como as cabeleiras de musgos que aos poucos vão se acumulando sobre a superfície das pedras imersas nas águas passadiças da vida ordinária. Mudam tanto, às vezes, que já não mais reconhecemos seu propósito original. Se quisermos voltar atrás para compreender os sentidos adormecidos, entorpecidos ou distorcidos das palavras, precisamos recorrer a uma operação da ordem da arqueologia verbal ou sígnica, restituindo-lhe ancestralidades e pertinências em contextos sócio-históricos passados ou contemporaneamente emudecidos. Os filólogos vivem de fazer isso! Mas qualquer um de nós mortais também somos capazes de exercícios nessa área.

O que vale para as palavras, se aplica também para as expressões, como, por exemplo, a queridinha da hora: “passar a boiada”.

Para um país de dimensões continentais como o nosso, no qual o colonizador desde o início preferiu se agarrar ferrenhamente às costas do litoral feito caranguejos, conforme já denunciara Frei Vicente de Salvador, pelos meados dos 1600, a conquista do interior só foi possível por força e graça de muita boiada e de muito boiadeiro. A história do abastecimento e comida que viabilizou o Brasil é uma história de tropelias de bois (e é claro, dos burros correspondentes, também!). Boiada correndo em disparada para cá e pra lá, o tempo todo. Da gauchada pra São Paulo. Do planalto pras Geraes. Do litoral pra caatingada. Uma romaria sem-fim de boi!

Se a gente parar um pouco pra pensar vai ver que nossa vida está lotada de memória de vacas, de touros, de bois e de boiadas. Crescemos ouvindo estórias pra boi dormir, vendo vaca ir pro brejo e virar vaca atolada. Conhecemos muita gente com cara de boi sonso e brincamos de vaca amarela. Alguns de nós, inclusive, já acabamos bois de piranha, ou bezerros desmamados. Outros, descobrimos nossas vacas sagradas. Enfim, certo é que o universo bovino faz parte da própria construção do nosso ser caipira, tropical, colonizado e subalterno.

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Apesar de tudo isso, pouquíssimos de nós sabemos como lidar com bois e com boiadas. Mas intuímos que “passar a boiada” tem sentido logístico e operacional, necessário ao manejo do gado por terras e caminhos difíceis e até mesmo inóspitos. No atual contexto, contudo, a expressão “passar a boiada” adquiriu conotação semiótica bastante ampla e interessante. Sua polissemia, como já bastante denunciada por autoridades e lideranças do mundo inteiro, implica certos afrouxamentos morais, fechamentos das vistas ou decididas liberalidades legais e institucionais alinhadas ao desmonte dos sistemas públicos de proteção social, em sentido amplo, que incluem não apenas o trabalho e a previdência, mas também a saúde integral do binômio e da relação homem-natureza.

No centro de gravidade dessa coisa toda, a Amazônia brasileira desponta absoluta. Sobre ela e contra ela seguem pesando em velocidade e intensidade crescentes queimadas e invasões, extermínios de populações indígenas, devastações e grilagens a toda prova. Ou até prova em contrário, que é o que deveremos assistir a partir da agora. Sim, pois que de fato ocupações territoriais de décadas deverão entrar em processo de regularização fundiária baseada em vistoria e prova a distância, via sensoriamento remoto, com o uso de imagens de satélite.

Trata-se de mais um sofrido capítulo da novela anti-Amazônica deflagrada nesse triste País. Somando-se à escalada cotidiana das destemperanças contra a floresta, hoje, ambientalistas, lideranças nacionais e internacionais e representantes do Ministério Público Federal criticam veemente o novo decreto em elaboração pelo governo federal, que visa à concessão de titularidades na região. Ao todo, deverão ser analisadas as situações de 97,4 mil propriedades, com tamanho de até quatro módulos fiscais (que equivalem a aproximadamente 280 hectares). Na somatória, estamos falando de quase 6,4 milhões de hectares. Ou seja, terra que não acaba mais!

O assunto ora em pauta representa uma reinvestida governamental na área, que vem à margem da anterior Medida Provisória 910, conhecida como a MP da Grilagem e que tinha em mira imóveis de até 15 módulos fiscais. Ela não vingou. Caducou em maio passado, sob aguerrida resistência ambiental dirigida ao Congresso Nacional.

As dificuldades de uma política de regularização fundiária da Amazônia, tem, de fato, proporções de “enchentes amazônicas”, com o perdão da redundância, o que faço para não dizer de “explosões atlânticas”[3] e com isso melindrar o ministro anti-geográfico das Comunicações. Para tanto, é necessário contar com fortes e vigorosos serviços e ferramentas de integração de base de dados; infraestrutura não apenas do Incra, mas também de outros órgãos públicos; disponibilidade de recursos técnicos e humanos e muito boa vontade de fazer tudo direito. Qualquer titularidade só deverá ser concedida se respeitada condições como: presença do proprietário na área ao menos desde 2008; confirmação de que a terra requerida não está sobreposta a territórios indígenas ou quilombolas, unidades de conservação ambiental, assentamentos, áreas militares e que não se encontram já embargadas por disputas judiciais em conflitos agrários. De onde, meu Deus, vai sair capacidade, competência e decisão para dar conta de tudo isso?!

A observação à distância, por sensoriamento remoto, é, per se, um convite à fraude. Como comprovar a presença temporal do demandante na área reivindicada? Pessoal pode ser colocado de um dia para o outro, como laranjas (não o pé da fruta, mas a pessoa preposta, bem entendido), sem a verificação presencial da antiguidade das construções ou outros sinais da evidência da ocupação, para falar o mínimo. Além disso, a justificativa para a medida apresentada pelo governo de que a titularidade inibiria novas queimadas na região é frágil e não sobrevive a um decidido escrutínio. Há muito tempo que entidades ambientalistas e técnicos apontam os próprios donos de terra representam boa parte dos promotores das queimadas e devastações na região. Incêndio e derrubada se combatem com a fiscalização, a repressão e a penalização dos crimes. O resto não passa de conversa para boi dormir.

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A questão Amazônica tornou-se o calcanhar de Aquiles para a imagem brasileira no cenário internacional e quanto a isso, não resta mais a menor dúvida. Estão abalados e logo estarão decididamente comprometidos investimentos internacionais em infraestrutura e projetos de desenvolvimento, exportações do agronegócio e acordos multilaterais de comércio e cooperação.

Evidentemente que no atual estágio em que chegaram as coisas, no contexto de novas e inacreditáveis demissões no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), débeis projetos de monitoramento dos desmates, conforme recém-anunciado, já não vão fazer qualquer diferença. É necessário muito mais do que isso. Será preciso orquestrar um plano de desenvolvimento regional para a Amazônia, a ser construído com a escuta e participação da pluralidade de vozes do tecido social brasileiro e a atenta observância das demandas técnicas do ambientalismo global. Não à toa, no último dia 14, 17 ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central se uniram para pressionar o governo, entregando-lhe uma carta aberta em prol da urgente e decidida adoção de medidas de redução das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera, desenvolvimento e aplicação de tecnologias amigáveis ao meio ambiente, inclusão das populações tradicionais e redução da desigualdade regional, em moldes sustentáveis[4].

Retornando ao começo dessa nossa conversa, Antonio Candido ao tratar da instabilidade das palavras, estava se reportando particularmente ao vocábulo “nacionalismo”. Para ele, em sua imensidão sígnica que atravessa a História, essa palavra deveria, para o nosso tempo, representar em particular uma estratégia de defesa de nossa própria sobrevivência, calcada na valorização dos nossos interesses e componentes, na sua pluralidade e multiculturalidade, e capaz de nos parir uma identidade multiétnica, inclusiva, equânime e justa.

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Se o slogan “ a Amazônia é nossa” pode comportar ranços autoritários, possessivos e potencialmente perigosos (já que o senso comum quase sempre admite que podemos fazer o que quisermos com o que é nosso), talvez seja oportuno seguirmos a sugestão da Organização Não Governamental internacional Green Peace e passarmos a propagar e defender a ideia de que “a Amazônia é sua, é nossa, é de todos nós”! E olha que o “nós”, a que me refiro, comporta uma boiada de gente! Vejam bem: eu disse boiada, posto que a flutuação de sentidos para o seu sinônimo, o vocábulo também coletivo “gado”, por complexa que se tornou, vou deixar para um próximo texto.

[1] Doutor em Ciências da Comunicação (ECA/USP), com pós-doutorado e mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM/SP). Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP). Pós-graduado em Desenvolvimento Rural e Abastecimento Alimentar Urbano (FAO/PNUD/CEPAL/IPARDES) e em Organização Popular do Abastecimento Alimentar Urbano (FEA/USP). Pesquisador e consultor de empresas em Inteligência de Mercado, Estudos do Consumo, Tendências de Mercado e Marketing. Sócio-proprietário da Junqueira e Peetz Consultoria e Inteligência de Mercado.

[2] CANDIDO, Antonio. Uma palavra instável. Folha de São Paulo, 27 de agosto de 1995.

[3] Para delícia poética completa, ler a letra e ouvir a canção “Rosa dos Ventos” de Chico Buarque, na gravação definitiva e ao vivo de Maria Bethânia, no disco homônimo, de 1971.

[4] JUNQUEIRA, Antonio Hélio. Bye, bye, Brasil. Bye, bye, Amazônia também! 14/07/2020. https://jornalggn.com.br/artigos/bye-bye-brasil-bye-bye-amazonia-tambem-por-antonio-helio-junqueira/

 

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2 comentários

  1. O PECADO MORA NOS DETALHES. “… talvez seja oportuno seguirmos a sugestão da Organização Não Governamental internacional Green Peace e passarmos a propagar e defender a ideia de que “a Amazônia é sua, é nossa, é de todos nós”! E olha que o “nós”, a que me refiro, comporta uma boiada de gente! Vejam bem: eu disse boiada, posto que a flutuação de sentidos para o seu sinônimo, o vocábulo também coletivo “gado”,…” Green Peace? Quem é Green Peace? Para que devo dar ouvidos ao Green Peace? Quais são os interesses do GreenPeace se sua Sede em algum País Industrializado? Os interesses da NORUEGA E SUAS INDÚSTRIAS que destrói e mata BRASILEIROS em Barcarena / PA, no meio da AMAZÔNIA? Ou que faz Negociatas Corruptas e Lesadoras da ECONOMIA E EMPREGOS BRASILEIROS com o canalha JOSÉ SERRA? José Serra, Marina Silva, Aécio Neves, e toda ELITE ESQUERDOPATA, justamente aquela que dá apoio aos Interesses Internacionais na Amazônia, que dá milhões e milhões de reais à estas ONG’s Internacionais, que cede milhares e milhares de Kms2 do Território Nacional ao Controle destes Organismo Internacionais?! Mas sabemos, toda esta gente, todas estas Lideranças, toda esta Elite Esquerdopata totalmente AntiCapitalista, Ambientalista, Socialista, que só promovem o Interesse Nacional. Para que precisamos nos preocupar com interesses tão dignos, não é mesmo? Vejam as matérias sobre José Serra e sua Filha e Laboratórios Noruegueses? Mas sabemos, José Serra, ‘o Menino da UNE’, não é Esquerda. Vamos usar este mesmo slogan de Green Peace sobre todas as Guianas. Não é Francesa, não é Holandesa é de TODOS Nós? Ou sobre os Paraísos Ambientais da Polínésia? Não é Francesa, é de TODOS Nós?!! Mas somente a FRANÇA foi lá naquele Paraíso Ambiental testar umas dúzias de Bombas Atômicas? E no Paraíso Ambiental do Atol de Biquini? Somente os NorteAmericanos podem testar Bombas Atômicas? Mas não são de TODOS Nós? Bomba Atômica num Paraíso da BioDiversidade? Isto pode Green Peace? Ah, Bão !!!! Enquanto isto a Imprensa Brasileira quando trata da Amazônia Brasileira mostra os Bois ao invés do Cidadão Brasileiro. Podem ver nas fotos dos últimos 5 anos? Onde estão os 30 Milhões de Brasileiros no Amazonas, Pará, Roraima, Amapá, Rondônia, Maranhão,…? Na maciça maioria, as fotos são para um ataque direto à AgroPecuaria Brasileira ou das Vegetação Amazônica. Mas entendemos, o que interessa estes 30 milhões de Cidadãos Brasileiros, não é mesmo?! Pobre país rico. O AntiCapitalismo Socialista salvará Brasil como vimos com Serra, Pallocci, Dirceu, Picolé, Aécio, FHC,…Mas de muito fácil explicação.

  2. Dr. Hélio, parabéns por mais um texto lúcido e que serve para que todos aqueles gados de manobra
    e desprovidos de pré-conceitos alardeados por robôs escusos possam ter noção do que se passa em nosso país. Sabemos que a Amazônia não é um imenso Jardim Botânico ou Zoológico e que milhões de brasileiros lá vivem e precisam tirar seu sustento. Mas não é destruindo a floresta que se vai gerar renda para esses brasileiros. Talvez gere para alguns poucos num dado momento, mas o ribeirinho, o povo da floresta se beneficiará? Embora seja um projeto que defina 4 módulos fiscais da Amazônia (400 ha) o que impede que um latifundiário compre ou se utilize de laranjas para formarem mega fazendas? Fazendas essas que talvez nem sejam de brasileiros e que empregam e pagam pouco. Além disso, para o agro-negócio do país como um todo será vantajoso? Cientistas que não são “esquerdopatas” ou de “ONGs Internacionais” projetam que a redução da cobertura nativa da amazônia represente um impacto muito negativo no regime de chuvas em todo país, principalmente no cerrado, região sudeste e sul. Essa regiões são dependentes dos chamados rios voadores que partem do nordeste brasileiro, incorporam a umidade da floresta amazônica, se chocam nos Andes e seguem para o resto do Brasil. É essa condição que permite que se tenham as safras que o agronegócio alcança. Seriam mantidas essa produtividade sem chuvas? Todos nós, não importa de que corrente político-partidária tenhamos, precisamos compreender que a floresta vale muito mais em pé. Índios protegidos e políticas públicas conscientes podem nos garantir isso. Quanto a renda do povo que lá vive, o incentivo a empreendimentos comunitários que explorem as vocações de cada localidade podem fazer parte dessa solução.

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