Bye, bye, Brasil. Bye, bye, Amazônia também!, por Antonio Hélio Junqueira

Hoje, o susto é de bem maior tamanho. Além de já termos abandonado a Transamazônica à sua própria sorte, podemos dizer também “bye, bye” ao Brasil, cuja imagem se esfacela no cenário internacional e “bye, bye” à própria Amazônia

Bye, bye, Brasil. Bye, bye, Amazônia também!

por Antonio Hélio Junqueira[1]

Em 1979, nos estertores dos já então longuíssimos anos do Estado ditatorial, Cacá Diegues brindou o cinema brasileiro com uma das mais importantes produções fílmicas nacionais de todos os tempos: “Bye, Bye, Brasil”. A narrativa da película envolve a intrépida trupe mambembe e aciganada da caravana Rolidei, em sua travessia transamazônica, levando entretenimento e arte aos sem-televisão. Cheio de graça, irreverência e originalidade, o filme marcava posição de distanciamento do engajado, militante e crítico Cinema Novo para mergulhar de vez na aventura do “sabe-se lá onde esse País ainda vai dar”.  Ao final, hoje sabemos que não deu mesmo em coisa lá muito grande e boa, mas, pelo menos naquela época (e lá se vão quatro décadas!), a gente ainda tinha a Amazônia como símbolo intocável do verde-louro da bandeira de nossa terra papagalis, acreditava que ela era nossa e que o máximo de estrago que seria possível fazer com ela seria sangrá-la de fora a fora com uma Transamazônica que ninguém sabia direito para que propósito de fato serviria e que raios pretendia integrar para não entregar.

Hoje, o susto é de bem maior tamanho. Além de já termos abandonado a Transamazônica à sua própria sorte, podemos dizer também “bye, bye” ao Brasil, cuja imagem se esfacela no cenário internacional e “bye, bye” à própria Amazônia, pois ao que tudo indica, se providências urgentes não forem tomadas, não sobrará árvore sobre terra nessa tristíssima floresta tropical.

A ciência assegura que os atos falhos não são simples erros de fala ou de expressão. Representam, na realidade, traições do inconsciente, através das quais os desejos mais profundos são revelados, livres dos cerceamentos dos interditos e das repressões morais.  Quando o recém-nomeado ministro das Comunicações, Fábio Faria, afirmou que a Amazônia era uma “Mata Atlântica atrás de Mata Atlântica…87% de Mata Atlântica”, muitos incautos enxergaram aí apenas resultados da falta de boas doses de aula de geografia básica na infância. Mas, para quem enxerga direito por linhas tortas e consegue ler nas entrelinhas, a ameaça real é a de que o destino da Amazônia acabará sendo 87% idêntico ao da Mata Atlântica, que hoje, depauperada, detém apenas 12,5% de seu território original.  Trata-se de matemática tenebrosa e de vaticínio sinistro, porém não tão improvável assim.

Na última segunda-feira, 13 de julho, ao anunciar uma das maiores taxas de desmatamento da Amazônia dos últimos cinco anos, a pesquisadora responsável por tais estatísticas, Lubia Vinhas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) acabou sumariamente exonerada pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes. Os dados divulgados mostravam alta de 65% no desmatamento comparado entre agosto de 2018 e junho de 2019. Pelo 14º mês consecutivo, comprovaram-se valores superiores aos mesmos meses de um ano antes.

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Nem de longe o que vem acontecendo na área ambiental no Brasil deve-se ao arrefecimento da qualidade ou dedicação em serviço do pessoal locado nos órgãos públicos de controle e fiscalização. Refletem, antes, o deliberado enfraquecimento desses mesmos órgãos, em sucessivas demissões de técnicos de competência internacionalmente reconhecida, de esvaziamento de equipes e instituições e do desdém que nem mesmo se procura esconder.

Não se trata de um dado de pouca importância. Muito pelo contrário, o mundo todo está de olho em cima e de cara virada para o Brasil por causa dos maus-tratos domésticos à floresta e ao meio ambiente em geral. Não se trata, também, de apenas uma questão reputacional, ainda que o peso dela seja incomensurável. Haverá, como já está de fato ocorrendo, sanções e perdas econômicas de porte volumosos para o País. Sofrerão as exportações do agronegócio, assim como sumirão investimentos em infraestrutura e retrocederão negociações mercantis cozidas no fogo lento de muitas rodadas anteriores, como é o caso do acordo bilateral União Europeia-Mercosul. Redes de supermercados europeus já ameaçam abandonar a aquisição de alimentos produzidos no Brasil em áreas desmatadas, tratadas ao arrepio das leis ambientais ou mesmo do velho, simples e bom senso.

No âmbito político interno, cerca de quatro dezenas de empresas e organizações já se manifestaram oficialmente ao governo, somando-se aos reclamos de outras 34 instituições financeiras internacionais, na busca de medidas efetivas e transparentes para a interrupção do desmatamento galopante da Amazônia. O caso adquire sua tonalidade mais marcante quando é um dos principais líderes setoriais que vem a público reconhecer que, ao menos para uma boa parcela do agro brasileiro, os “pés estão sujos de ilegalidade de desmatamento, invasões e grilagens de terras, incêndios criminosos”[2].

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O maior equívoco que pode acontecer nesse momento é o governo seguir acreditando que campanhas publicitárias dirigidas ao estrangeiro poderão, per se, reverter a imagem denegrida desses nossos tristes trópicos. Vídeos já foram produzidos em inglês para mostrar, em redes digitais e no mapa, as procedências da carne, do café, da soja, do suco de laranja e do açúcar do Brasil. Outros virão abordando, por exemplo, a incendiária condição da regularização fundiária. Mas tudo isso é muito pouco, um quase nada! Tal tipo de abordagem derrapa no mesmo desvio míope que, visando reduzir a veemente crítica internacional a um mero pretenso interesse de desacreditação da concorrência, se cega para o olhar crítico que vislumbra a chegada de tragédia, derrocada, choro e ranger de dentes.

É preciso que o governo se conscientize de vez que discursos e práticas ambientalistas não podem mais ser pensadas como simples militâncias esquerdistas, diletantismos festivos ou azucrinações do ativismo organizado. São, muito pelo contrário, demandas globais do irrestrito comprometimento socioeconômico cooperativo entre as nações e das estratégias geopolíticas globais. Tais premissas se concretizam em importantes coalizações que, na data de hoje, 14 de julho, se explicitam em carta conjunta e pública em defesa de uma retomada “verde” para a economia brasileira, assinada por 17 ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central do Brasil. O documento, intitulado “Convergência pelo Brasil” é uma iniciativa dos Institutos “Clima e Sociedade” e “O Mundo que Queremos” e visa orquestrar propostas rumo a uma economia de baixo carbono, sustentável e ambientalmente vigilante e comprometida, a partir da superação da atual crise pandêmica[3]. Enceta duras críticas e cobra decisivas medidas de combate ao desmatamento não apenas da Amazônia, mas também do Cerrado e segue propondo expandir investimentos sustentáveis, bem como impulsionar a pesquisa e o desenvolvimento de novas tecnologias ambientalmente amigáveis.

Não se pode simplesmente mandar “passar a boiada” dos desmatamentos, das queimadas ilegais, grilagens e invasões. É preciso antes lembrar de instalar os “mata-burros” nos caminhos daqueles que acreditam que “não existe pecado do lado de baixo do Equador”.

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[1] Doutor em Ciências da Comunicação (ECA/USP), com pós-doutorado e mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM/SP). Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP). Pós-graduado em Desenvolvimento Rural e Abastecimento Alimentar Urbano (FAO/PNUD/CEPAL/IPARDES) e em Organização Popular do Abastecimento Alimentar Urbano (FEA/USP). Pesquisador e consultor de empresas em Inteligência de Mercado, Estudos do Consumo, Tendências de Mercado e Marketing. Sócio-proprietário da Junqueira e Peetz Consultoria e Inteligência de Mercado.

[2] RODRIGUES, Roberto. Ilegalidades. Nossos pés estão sujos de desmatamento, invasões e grilagens de terras. O Estado de São Paulo, p. B9. 12 de julho de 2020.

[3] Assinam o documento os ex-ministros da Fazenda: Luiz Carlos Bresser-Pereira (1987), Maílson da Nóbrega (1987-1990), Zélia Cardoso de Mello (1990-1991), Marcílio Marques Moreira (1991-1992), Gustavo Krause (1992), Fernando Henrique Cardoso (1993-1994, que também foi presidente do Brasil entre 1995 e 2002), Rubens Ricupero (1994), Pedro Malan (1995-2003, também presidiu o BC entre 1993 e 1994), Joaquim Levy (2015), Nelson Barbosa (2015-2016), além de Henrique Meirelles (2016-2018, que também presidiu o BC entre 2003 e 2011) e Eduardo Guardia (2018). Entre os ex-presidentes do Banco Central que assinaram a carta estão Gustavo Loyola (1992-1993 e 1995-1997), Pérsio Arida (1995), Armínio Fraga (1999-2003), Alexandre Tombini (2011-2016) e Ilan Goldfajn (2016-2019).

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