Pela primeira vez, a história real dos oprimidos tem condições de ser transmitida, por Rogério Maestri

História geral da África está sendo disponibilizado livre na Internet por uma associação entre a Unesco, MEC e a Universidade de São Carlos

Pela primeira vez, a história real dos oprimidos tem condições de ser transmitida, por Rogério Maestri

Estava lendo o primeiro volume traduzido para o português da História geral da África que está sendo disponibilizado livre na Internet por uma associação entre a Unesco, MEC e a Universidade de São Carlos, é uma obra preciosa para quem tem raízes africanas ou mesmo para qualquer brasileiro que herdou culturalmente parte da africanidade, porém não é isso que quero falar, vou falar de algo que os historiadores dão muita ênfase sobre a transmissão da história e é a grande dificuldade dos autores de história da África.

Há sempre na história dois vieses que são constantes em todas as descrições que é a qualidade das informações e essa história na imensa maioria do passado ter quase sempre escrita ou registrada pelos vencedores ou as classes dominantes. Por mais que a tradição marxista procurou e ainda procura descrever pelo lado dos dominados a narrativa sempre em qualquer caso sempre possui um viés intencional ou subjetivo do narrador, porém parece que entramos noutra fase da descrição da história e acho interessante que os historiadores se apercebam do fato.

Há muito tempo há a história narrada pelos documentários, entretanto esses mesmos são editados e muitas vezes até falsificados não de mal intento, mas sim para efeitos estéticos. Dois trechos da segunda grande guerra são clássicos do assunto, a foto dos “Mariners” norte-americanos erguendo a bandeira de seu país em Iwo Jima é o primeiro exemplo, houve a ação e inclusive ela foi registrada, porém como a bandeira era muito pequena e não dava uma prioridade ao país, mas sim aos combatentes, após o ato, algum tempo depois arranjaram uma bandeira maior e fizeram um simulacro da ação. Da mesma forma a bandeira vermelha bandeira soviética sobre o Reichstag não foi produto de uma nova foto, foi só retocada e manipulada colocando umas nuvens de fumaça ao fundo para dar mais realidade. Porém muitos no ocidente falam da icônica foto da bandeira vermelha e esquecem da foto montada de Iwo Jima.

Essas fotos mostram que documentários filmográficos com imagens de situações reais podem ser manipulados, entretanto entramos numa nova era, a da filmagem pelo povo. Achamos hoje em dia que a violência policial aumentou. Talvez proporcionalmente a população tenha aumentado ou não, mas a certeza que há nos dias de hoje é que a imagem dos celulares está ficando uma verdadeira arma da verdade dos oprimidos contra os opressores.

Porém o que isso tem a haver com a História geral da África, tudo, pois um dos problemas principais dos historiadores africanos é a documentação escrita sobre fatos mais recentes (nos últimos séculos) sobre a história da África, porém estes historiadores até mais ou menos o início do século XX se utilizam de fontes escritas por europeus ou outras etnias e de tradição oral ou tradição viva e para que essas tradições sejam consideradas reais há um complexo estudo para sua validação, porém no capítulo 8 do volume primeiro, A. Hampaté Bâ, escreve em sábias palavras dois parágrafos importantes:

Para alguns estudiosos, o problema todo se resume em saber se é possível conceder à oralidade a mesma confiança que se concede à escrita quando se trata do testemunho de fatos passados. No meu entender, não é esta a maneira correta de se colocar o problema. O testemunho, seja escrito ou oral, no fim não é mais que testemunho humano, e vale o que vale o homem.

Não faz a oralidade nascer a escrita, tanto no decorrer dos séculos como no próprio indivíduo? Os primeiros arquivos ou bibliotecas do mundo foram o cérebro dos homens. Antes de colocar seus pensamentos no papel, o escritor ou o estudioso mantém um diálogo secreto consigo mesmo. Antes de escrever um relato, o homem recorda os fatos tal como lhe foram narrados ou, no caso de experiência própria, tal como ele mesmo os narra.

Ou seja, a subjetividade e o “diálogo secreto consigo mesmo” dos historiadores é encoberto pela “experiência própria, tal como ele mesmo os narra.”, na realidade ele está sendo bonzinho com seus colegas, pois a narrativa dos fatos pode ser mal compreendida, como ele fala, ou simplesmente distorcida, como há em muitas obras.

Porém nos dias de hoje, fora de foco, sem enquadramento otimizado, são registrados por milhares de pessoas fatos que reproduzem o olho do narrador, sem filtro e sem edição, isto é o que se chama a história real, em resumo, o povo pode contar sua história sem precisar de narrativas ou vieses.

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