Por que a sociedade não deve aceitar a militarização das escolas?, por Michel Aires de Souza Dias

A educação militar é justamente o contrário do esclarecimento e da autonomia intelectual. O objetivo dessa forma de educação é o adestramento e o discurso ideológico, que deve ser assimilado pela coação e coerção institucionalizada.

Foto: Carolina Antunes/PR

Por que a sociedade não deve aceitar a militarização das escolas?

por Michel Aires de Souza Dias

A educação é a apropriação subjetiva da cultura. Ela  deve possibilitar não somente a assimilação do saber acumulado pela humanidade, mas deve desenvolver o esclarecimento sobre as questões urgentes de nossa época. Nesse sentido, ela é a conscientização das condições históricas, sociais, política, econômica que determinam a nossa existência. Ela  nos permite autorreflexão crítica, pois podemos compreender a nós mesmos, a nossa própria experiência social e avaliar o nosso próprio destino no mundo. Para o filósofo iluminista Immanuel Kant, o esclarecimento é a saída do homem de sua própria menoridade. Ele entende a menoridade como a incapacidade do ser humano de se servir de seu próprio entendimento sem a orientação de outrem. A menoridade é parte da fragilidade humana.  A palavra latina que expressa a saída da menoridade é Separe Aude (Ouse saber), isto é, tenha a coragem de fazer uso do seu próprio entendimento. 

A educação militar é justamente o contrário do esclarecimento e da autonomia intelectual. O objetivo dessa forma de educação é o adestramento e o discurso ideológico, que deve ser assimilado pela  coação e coerção institucionalizada. Segundo Ricci (2019), o  cotidiano do aluno é profundamente alterado e o aprendizado é substituído pela repressão e por normas rígidas de comportamento. O regime disciplinar é arbitrário e a disciplina dos alunos é mantida pela lógica da punição. O despreparo educacional dos militares substitui o debate de ideias pela repressão. Se instala o medo para o cumprimento e a aceitação das regras e deveres em detrimento do processo formativo. Ao invés da reflexão crítica, da autonomia intelectual e do esclarecimento, se valoriza uma formação técnica, onde o indivíduo é talhado para fazer coisas, cultuando a eficiência, a disciplina, a organização e o controle.

A educação severa, disciplinar e autoritária, que submete as crianças ao castigo e à dor, valorizando a coragem, é contrária a experiências humanas afetivas, que são o fundamento da civilização. Ela produz a frieza e cria as condições objetivas para a barbárie. Esse tipo de educação já existiu e contribuiu para o desenvolvimento do nazismo na Alemanha, que levou 6 milhões de judeus ao holocausto. Em razão disso, é necessário que todo cidadão compreenda as condições históricas e culturais que levaram a humanidade a Auschwitz,  para que o passado de violência e barbárie não se repita.

Foi em um ambiente militarizado que a Alemanha moderna se formou, unificada em 1871 por Bismark, que criou o império do 2° Reich. Segundo a professora e pesquisadora Isabel Loureiro (2005) da USP,  a sociedade alemã se formou num ambiente dominado pela tradição militar de comando e obediência, que glorificava a força. O Exército era uma instituição privilegiada e seus membros gozavam de benefícios que possibilitava a um subtenente o direito de exigir que um civil lhe cedesse o lugar na calçada. Nessa nova Alemanha unificada, os indivíduos eram disciplinados e treinados para obedecer a ordens sem questioná-las. Segundo a professora,  “os estudiosos da época são unânimes em apontar  no alemão médio traços de submissão e servilismo em relação aos de cima, compensados pela agressividade com os de baixo. É com essa matéria-prima psíquica que será moldado mais tarde a massa amorfa dos ‘pequenos nazistas’” (LOUREIRO, 2005, p. 25).

O surgimento do Estado alemão foi uma época de nacionalismo e patriotismo, e a consolidação da escola pública tinha por objetivo fortalecer esses sentimentos. Como aponta o historiador Eric Hobsbawn: “O progresso das escolas e das universidades dava a dimensão do nacionalismo, na mesma medida em que as escolas e especialmente as universidades se tornavam seus defensores mais conscientes” (HOBSBAWM, 1998, p. 154). A educação rígida e severa, que valorizava a coragem, juntamente com um nacionalismo exacerbado, eram os fundamentos do processo pedagógico daquela época. Esse fato pode ser exemplificado pelos rituais das confrarias universitárias: “O estudante candidato a confraria precisava passar pela prova do duelo, demonstração de honra e coragem, em que cada concorrente sofria um corte no rosto, cujo resultado visto como uma distinção de classe, era uma cicatriz ostensiva e permanente” (LOUREIRO, 2005, p. 25)

Nas primeiras décadas do século XX, a Alemanha já tinha todas as condições sociais objetivas para o surgimento do Nazismo. O filósofo Theodor Adorno estudou naqueles anos da jovem República de Weimar e foi um grande crítico da educação de sua época. Ele criticou o ensino rígido, disciplinar e todos os ritos de passagem, trotes e provas de coragem que infligiam dor física nos indivíduos. Como ele mesmo avaliou: “A brutalidade de hábitos tais como os trotes de qualquer ordem, ou quaisquer outros costumes arraigados desse tipo, é precursora imediata da violência nazista” (ADORNO, 1995, p. 128).

Para o pensador frankfurtiano, todas as crianças que são submetidas a uma educação severa e autoritária têm grande probabilidade de se tornarem adultos frios e indiferentes ao sofrimento humano. A educação rígida e disciplinar cria indivíduos sádicos. A ideia de virilidade como a capacidade de ser forte e suportar a dor também cria indivíduos sadomasoquistas. Como o próprio Adorno (1995) afirma, o objetivo de “ser duro” de uma tal educação significa indiferença contra a dor. Quem é severo consigo mesmo adquire o direito de ser severo com os outros, vingando-se da dor cujas manifestações precisou ocultar ou reprimir.

Outro fato importante que Adorno observou na escola de sua época era que toda criança tinha fascinação por tudo que se referia a armas e soldados: “Todas as crianças revelam afinal uma forte tendência a se identificar com ‘coisas de soldado’, como se diz bem hoje em dia; lembro apenas o prazer com que os meninos se fantasiam de cowboys, e a satisfação com que correm ‘armados’ por aí” (ADORNO, 1995, p. 102). Na jovem democracia alemã, a profissão de soldado era a mais desejada e valorizada, enquanto a profissão de  professor era a mais desvalorizada. Para Adorno (1995), isso se devia porque o professor exerce sua autoridade sobre crianças, diferentemente da profissão de soldado, que exerce sua autoridade sobre adultos. Outro motivo da rejeição da autoridade do professor, era que havia um grande ressentimento a tudo que faça referência ao que é intelectual: “Movidos por rancor, os analfabetos consideram como sendo inferiores todas as pessoas estudadas que se apresentam dotadas de alguma autoridade” (ADORNO, 1995, p. 102). Todo esse desprezo  posteriormente foi canalizado pelo regime nazista contra os intelectuais, que foram perseguidos e mortos. O próprio Adorno e outros membros do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt tiveram que fugir para os EUA. Os 60.000 mil livros do acervo da biblioteca foram confiscados. A perseguição a intelectuais e a queima de livros se tornaram comuns no regime nazista.

Adorno também refletiu sobre a extrema valorização da competição na educação de sua época. A competição era prestigiada em todo sistema educacional alemão. O aluno aprendia o latim não por causa da vontade de aprender, mas pela vontade de ser melhor que o colega. A competição valoriza a lei do mais forte, transformando os homens em inimigos uns dos outros. Os indivíduos se tornam frios e naturalizam as desigualdades. Para o pensador alemão, “a competição é um princípio no fundo contrário a uma educação humana” (ADORNO, 1995, p. 161). O espírito da competição também colaborou para a barbárie nazista.

 O objetivo da educação militarizada não é construir a autonomia intelectual do aluno, mas treiná-lo para a submissão. No Brasil do governo Bolsonaro, os debates sobre a militarização da escola ganharam força. Ao colocar em pauta os debates sobre a escola sem partido, ao acusar a escola de disseminar ideologias, ao acusar os professores de fazer doutrinação política, as condenar o ensino sobre gênero e ao atacar o currículo, o objetivo é disseminar a ideia de se criar escolas militarizadas. O fim último é a perspectiva  conservadora, que transmita um quadro valores que legitima os interesses da classe burguesa.  O importante é que a escola não tenha debate de ideias, mas que crie sujeitos submissos, sem pensamento autônomo, que obedeçam e apenas trabalhem para a manutenção do sistema de exploração econômica de classe.

Referências

ADORNO, Theodor Wiesengrund. Educação e Emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções: 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1998.

LOUREIRO, Isabel Maria. A revolução alemã (1918-1923). São Paulo Editora UNESP, 2005.

RICCI, Rudá. A militarização das escolas públicas. IN: CASSIO, Fernando (Org). Educação contra a barbárie. São Paulo: Boi Tempo, 2019. p.107-114.


Michel Aires de Souza Dias – Doutorando em educação pela Universidade de São Paulo. E-mail:[email protected]

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