Por que no Brasil o neoliberalismo fracassa tão rápido, por Jorge Alexandre Neves

O Brasil tem especificidades muito marcantes, mesmo quando comparado a outros países da América Latina.

Por que no Brasil o neoliberalismo fracassa tão rápido

por Jorge Alexandre Neves

Há alguns meses, o povo chileno começou uma revolta contra mais de quatro décadas de neoliberalismo. Na Colômbia, as políticas neoliberais também têm prevalecido por décadas. Quando comparamos com o Brasil, vemos que, por aqui, o neoliberalismo não tem contado com a mesma longevidade. Afinal, a primeira tentativa de implantação do neoliberalismo em terras tupiniquins (governo Collor) durou pouco mais de dois anos, a segunda (governos FHC) teve oito anos de vida e, finalmente, a experiência atual cai numa profunda crise, ao entrar no seu quinto ano. Por que, no Brasil, o neoliberalismo fracassa tão rápido?

Os economistas neoliberais precisam estudar um pouco mais de história, bem como deveriam ter consciência de que proposições gerais nas ciências humanas e sociais têm que ser consideradas em vistas das possibilidades de interações com situações conjunturais ou estruturais dos diferentes países, sociedades, culturas e momentos. O Brasil tem especificidades muito marcantes, mesmo quando comparado a outros países da América Latina.

Alguns cientistas sociais tendem a acreditar que nossa grande especificidade é que o povo brasileiro teria uma afeição atípica ao estatismo. Há pouco mais de dois anos, escrevi um artigo (1) mostrando boas evidências empíricas de que isso não é uma especificidade do Brasil, mas uma característica de populações de países que não alcançaram elevados níveis de desenvolvimento socioeconômico.

Por outro lado, nossa carga tributária é, sim, um importante e forte indicador de que o Brasil tem um grau elevado de participação do Estado na renda nacional, especialmente quando comparado com outros países com o mesmo nível de desenvolvimento. Nossa carga tributária, em torno de 35% do PIB, é equivalente à média da OCDE, e só encontra semelhança em um único país da América Latina, a Argentina.

Na verdade, a história do Brasil mostra que suas elites, sim, são fortemente conectadas ao Estado. Sobre a elite estamental e suas ligações com o Estado, já escrevi aqui no GGN (2). A elite empresarial, por sua vez, também é fortemente vinculada ao Estado e dependente deste, o que, inclusive, torna a luta política mais agressiva. É verdade que esse é um fenômeno meio que universal. Como bem mostrou o senador Bernie Sanders em um de seus discursos recentes, as elites econômicas dos EUA sempre buscaram benefícios estatais para si, enquanto defendem o individualismo para as pessoas em geral. Todavia, o caso brasileiro é mais significativo.

Lembro-me de uma entrevista que assisti há muitos anos com o falecido empresário Antônio Ermírio de Moraes, na qual ele descrevia que o grande empresariado brasileiro – em particular, do setor industrial – tinha resultado de uma indução do Estado. Fundamentalmente, o Estado produziu o capitalismo, no Brasil. Embora nessa mesma entrevista Antônio Ermírio tenha defendido que já era hora de o Brasil partir para experiências mais liberais, com seus empresários tendo que tomar iniciativas de forma autônoma e assumir mais riscos, o fato é que até hoje observa-se aqui a existência de uma elite empresarial com elevada aversão ao risco e profunda dependência dos investimentos públicos.

Muitos esperavam que a forte queda nas taxas de juros resultassem numa rápida elevação dos investimentos privados e um aumento significativo da oferta de crédito e de redução do spread bancário (3). Nada disso tem acontecido. E, mais uma vez, os atores econômicos já começam a revisar suas previsões de crescimento do PIB para baixo de 2% (4). O Brasil não retomará o crescimento econômico se o Estado não agir no sentido de elevar o consumo das famílias. Da mesma forma, o setor privado não irá investir se o consumo das famílias não crescer e se o investimento público não se elevar (5). Por enquanto, essas duas coisas não parecem estar sendo planejadas de forma sistemática. Todavia, o ultimato que o presidente da República deu ao seu ministro da economia talvez faça as coisas mudarem mais rapidamente. Aguardemos…

Jorge Alexandre Barbosa Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997.  Pesquisador PQ do CNPq. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin. Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

1. https://www.hojeemdia.com.br/opini%C3%A3o/colunas/jorge-alexandre-1.457816/o-estatismo-do-brasileiro-1.584960.

2. https://jornalggn.com.br/saude/profissionalismo-estamental/.

3. Mostrando certo nível de desespero, o Banco Central volta a considerar a redução dos compulsórios bancários, na esperança de transformar liquidez em maior oferta de crédito por parte dos bancos privados. https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/economia/2020/02/20/internas_economia,829291/banco-central-anuncia-medida-para-liberar-r-49-bilhoes-no-mercado.shtml.

4. https://exame.abril.com.br/economia/bnp-paribas-corta-projecao-para-pib-do-brasil-a-15-em-2020/.

5. Não pude controlar a gargalhada quando, em um programa de TV há algumas semanas, o economista Armando Castelar, com visível irritação, buscou explicar o fracasso da retomada econômica brasileira com uma frase impagável: “a economia brasileira estava viciada em dinheiro público”. Não, caro economista, a economia brasileira não está viciada em dinheiro público, ela é historicamente dependente dos investimentos públicos. A afirmação de Castelar é ainda mais risível por revelar que, como não conseguem explicar o fracasso das políticas econômicas que seguem o seu receituário, economistas neoliberais apelam para saídas mágicas totalmente incompatíveis com a abordagem teórica que seguem. Só gargalhando!

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