Por um Palmeiras de todos pra valer, por Julio Araujo, Marco Granieri, Renan Kalil, Silvio Teixeira e Thiago Maia

O Palmeiras e sua torcida jamais flertaram com o fascismo. Ao contrário de outras rivalidades nacionais ou mundiais, o Palmeiras não é o algoz elitista ou racista do time mais querido pelas classes populares.

Por um Palmeiras de todos pra valer

por Julio Araujo, Marco Granieri, Renan Kalil, Silvio Teixeira e Thiago Maia

02 de dezembro de 2018. O duelo com o Vitória era para ser um jogo de festa, com a comemoração do décimo título brasileiro já garantido na rodada anterior contra o Vasco no Rio. Era um dia para ver a taça de perto e celebrar a conquista. Era jogo para curtir, comemorar, extravasar, abraçar o anônimo ao lado ou gritar da janela.

Infelizmente, porém, um convidado roubou a cena. Recém-eleito presidente da República, Jair Messias Bolsonaro foi o protagonista daquela reunião de palmeirenses. Alegando ser torcedor do clube – apesar de vestir as camisas de quase todos os outros rivais -, o presidente eleito foi recebido com todas as honrarias para a ocasião. O ritual, porém, não se limitou às tratativas protocolares: ele passeou pelo vestiário, entregou medalhas e levantou o troféu com os jogadores na comemoração. Bolsonaro foi recebido como um torcedor-símbolo, como se ele fizesse parte daquela conquista e da própria trajetória do clube.

A cena chocou muitos palmeirenses de todo o mundo. Vários torcedores se sentiram constrangidos, alguns até foram embora do estádio ou desligaram a TV antes do final da festa. Aquele 02 de dezembro era para ser a celebração de uma conquista emocionante, que teve uma sequência incrível sem derrotas após a chegada de Felipão, e merecia um final que coroasse a integração entre time e torcida, valorizando a supremacia alviverde em títulos nacionais. No entanto, a a festa se tornou um momento de triste lembrança e um trauma na retrospectiva daquele título. O tom dado à entrega da taça, com destaque a um personagem polarizador, causou abalo no afeto entre parte da torcida e o clube, além de ter servido para que diversos setores – com alguma dose de razão – procurassem identificar o Palmeiras com o bolsonarismo.

Sabe-se que cartolas e políticos gostam desses momentos para darem as caras e colarem a sua imagem nos vencedores. Sabe-se também que não há um único clube no Brasil que possa dizer que está imune a essas influências. Mas isso não é motivo para omitir-se ou deixar de combater essa subserviência, ainda mais diante do uso indevido de um clube e de sua história. O que ocorreu em Palestra Itália naquela tarde foi algo sem precedentes. Dirigentes e jogadores batiam continência a um político que havia conduzido a sua campanha baseado no ódio, na intolerância e no desrespeito à população negra, aos povos indígenas, às pessoas LGBT, aos imigrantes, ao meio ambiente e aos direitos dos trabalhadores.

O Palmeiras tem no seu DNA a presença imigrante e a união de pessoas de diversas origens e classes sociais para fundar o Palestra. Em 1914, São Paulo tinha uma grande população de italianos, que se uniram para fundar um clube com a sua cara, marcada também pela presença operária. Vítima de perseguição do Estado Novo em 1942, o Palestra deu origem ao Palmeiras para honrar essa história. O clube extrapolou as raízes imigrantes e conquistou o Brasil. Não há um canto desse país em que não exista um palmeirense, descendente ou não de italianos.

O Palmeiras e sua torcida jamais flertaram com o fascismo. Ao contrário de outras rivalidades nacionais ou mundiais, o Palmeiras não é o algoz elitista ou racista do time mais querido pelas classes populares. O Palmeiras nunca se rendeu aos grandes salões, e há fatos marcantes que mostram esse compromisso, como o chamado “jogo vermelho”, em 1945, que arrecadou fundos para a campanha do Partido Comunista naquele ano, e os bailes da Chic Show nos anos 1970, quando a cultura negra se reunia no ginásio do clube e afirmava a sua identidade.

A tentativa de associar o Palmeiras a ideias intolerantes causa tristeza e indignação. Por isso, deve-se louvar a tentativa do Palmeiras de mudar essa imagem com a campanha “Palmeiras é de todos”, iniciada no primeiro minuto de 2020.

A campanha procura ressaltar o respeito às diferenças e mostrar que defende a diversidade e combate o preconceito. Segundo o presidente Maurício Galiotte, o objetivo é externar que o clube deve cumprir um papel para a efetivação desses ideais. Nesse sentido, o clube tem feito postagens nas redes sociais e realizado pequenos eventos para lembrar esse compromisso em datas especiais, destacando o combate à LGBTfobia, o respeito aos povos indígenas e a própria adesão a mobilizações da internet em favor da população negra.

Com a campanha, o clube tenta mostrar que não se resume ao quadrilátero da Pompeia e que pertence a milhões. Afinal, o sotaque palmeirense não é só italianado. Ele se manifesta nas cidades do Amazonas, na vibrante torcida do Nordeste que sempre lota os jogos na região e mesmo em grandes cidades tomadas por outras torcidas, de que são exemplo os consulados – como o do Rio de Janeiro – que têm participação ativa nas cidades e se reúnem em todos os jogos.

Contudo, para o Palmeiras ser de todos pra valer, as medidas devem extrapolar o campo simbólico. O Brasil continua assistindo a violações diárias de direitos, fruto das desigualdades, do racismo estrutural e das violências de gênero e de classe. As palavras são importantes, mas o Palmeiras pode e deve dar sinais mais efetivos de comprometimento às lutas a que pretende somar-se.

Em primeiro lugar, pedir desculpas a boa parte de sua torcida pelas cenas de 02 de dezembro de 2018 sinalizaria um real posicionamento. No momento em que o país assiste a uma escalada autoritária, não basta tuitar. A imponência de dizer o lado em que está, ou ao menos reconhecer o tremendo equívoco daquela premiação, indica o caminho necessário para o clube se reencontrar com sua história e com a integralidade de sua torcida.

Em segundo lugar, o clube deve mostrar a todos os seus funcionários a enunciação de valores que regem o clube, por meio de uma carta de princípios. O alinhamento, ou ao menos o devido respeito a essas orientações, deve fazer parte de uma cartilha básica do clube, a ser observada nas manifestações de todos os seus empregados. Àqueles que já possuem vínculo com o clube ou em caso de manifestações que sejam feitas em ambientes totalmente externos, o Palmeiras deve afirmar publicamente sua posição, rechaçando qualquer pronunciamento que não se coadune com essas diretrizes e ressaltando o efetivo comprometimento com as pautas de diversidade e de combate à discriminação.

Em relação à torcida, o clube deve estabelecer um relacionamento que permita um real engajamento dos mais pobres e a efetiva participação nos rumos da entidade. A garantia de consulta e diálogo com esses setores quanto a decisões importantes, mesmo quando não associados, é um aceno primordial. Nos dias de jogos, o fim do cerco ao estádio e o barateamento do preço dos ingressos são medidas urgentes, sob pena de a campanha inaugurada este ano parecer uma mera jogada de marketing de ocasião. Para ser de todos, o Palmeiras deve facilitar a presença de seus torcedores, tanto no Palestra Itália, com setores populares, como em seu entorno. O afeto entre a torcida e o clube não pode ser mediado apenas pelo dinheiro.

É fundamental, também, que o clube evite qualquer associação com marcas, grupos e pessoas que possuam qualquer tipo de alinhamento com os valores da intolerância e da discriminação. O clube deve ter postura firme quanto a isso, de modo a não ver seu nome associado a aventuras autoritárias ou a uma classe empresarial preocupada apenas com o lucro, ainda que à custa da democracia e da saúde pública.

Por fim, é imprescindível que o clube valorize a sua história e o seu passado democrático. Neste momento, ensinar às presentes e futuras gerações, inclusive aos seus ídolos, o significado da Sociedade Esportiva Palmeiras é um dever de casa básico. Explicar o sofrimento por que tantas gerações passaram para concretizar o sonho daqueles imigrantes e hoje ser um clube verdadeiramente brasileiro deve ser um programa permanente. Com isso, devemos valorizar nossas maiores referências, que levam o Palmeiras não apenas na camisa – sem precisar aposentá-la -, mas no coração, e têm um real compromisso com esses valores.

O nosso Palmeiras é aquele que encantou João Cabral de Melo Neto. Com o ritmo do chumbo, da lesma, da câmera lenta, mas intransigente na defesa da democracia e da igualdade. Essa é a tarefa histórica que se impõe ao Palmeiras e aos grandes palmeirenses para mostrarmos que somos de todos e todas.

Os autores são integrantes do Coletivo Aqui é Palmeiras (AqP), formado por juristas que defendem a democracia e estão espalhados pelo país e pela América do Sul. Email para contato: [email protected].

Publicado originalmente no Blog do Juca.

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