5 de junho de 2026

Português: a língua que cresce no Sul, por Celso Pinto de Melo

Uma reflexão sobre desenvolvimento, inserção internacional e os instrumentos — por vezes subestimados — que estruturam o poder no séc. XXI.

Português é falado por 260 a 300 milhões em quatro continentes, com forte presença no Hemisfério Sul e crescimento na África.
Brasil concentra 80% dos falantes, mas participação tende a diminuir com expansão do idioma na África lusófona.
Apesar do alcance, língua carece de estratégia global coordenada; Brasil e África podem fortalecer cooperação no Sul Global.

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Português: a língua que cresce no Sul – e o que isso significa para o Brasil

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Falado em quatro continentes e em rápida expansão na África, o português reúne escala demográfica e influência cultural – mas ainda carece de uma estratégia internacional articulada

por Celso Pinto de Melo [*]

 “A língua é a mais universal das instituições humanas
e talvez a mais poderosa”– Edward Sapir[†]

Uma língua global – e ainda subestimada

Celebrado em 5 de maio, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, reconhecido pela UNESCO, oferece uma oportunidade privilegiada para refletir sobre o lugar singular do idioma no mundo contemporâneo. Com cerca de 260 a 300 milhões de falantes, o português ocupa hoje a quarta posição entre as línguas maternas mais difundidas no mundo [1]. Sua presença em quatro continentes – América, Europa, África e Ásia – faz dele um dos poucos idiomas verdadeiramente transcontinentais, articulando um espaço linguístico comum no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Embora hoje seja uma língua global, o português teve origem em uma base demográfica surpreendentemente modesta. No início das grandes navegações, no século XV, o Reino de Portugal contava com cerca de 1 a 1,5 milhão de habitantes [2]. Impulsionado por uma estratégia marítima e comercial sem precedentes, o idioma expandiu-se rapidamente pelas rotas atlânticas e do Índico, tornando-se já no século XVI uma língua franca em portos da África, da Ásia e da América [3]. Em pouco mais de um século, deixou de ser regional para se tornar intercontinental.

A Fig. 1 situa o português no sistema linguístico global. Em termos absolutos, ocupa uma posição intermediária entre as grandes línguas. Mas esse retrato estático oculta o essencial: trata-se de uma língua cujo dinamismo se desloca progressivamente para fora do eixo tradicional do poder global.

Uma geografia linguística singular

Esse padrão torna-se ainda mais evidente ao se examinar sua distribuição geográfica. Concentrado majoritariamente no Hemisfério Sul – onde já é provavelmente a língua materna mais difundida –, o português afirma-se como um dos principais idiomas do mundo em desenvolvimento. Com cerca de 80% de seus usuários no Brasil e crescimento acelerado na África, seu centro de gravidade demográfico tende a se deslocar ao longo do século XXI.

Como sugere a Fig. 2, o idioma não apenas cresce – ele se redistribui. A participação relativa do Brasil tende a diminuir, enquanto a África ganha peso de forma expressiva. A Europa permanece estável e a Ásia cresce modestamente.

Cabe notar que os valores apresentados correspondem ao número de falantes – e não à população total. No caso brasileiro, a diferença é pequena, mas conceitualmente relevante.

Soft power em construção: cultura, indústria e circulação global

No plano cultural, o português já opera como um vetor de influência cultural com grande alcance, ainda que pouco estruturado institucionalmente. O conceito de soft power [6] descreve a capacidade de influenciar por meio da atração – e é nesse campo que o Brasil desempenha um papel decisivo.

A música brasileira é um dos principais pilares dessa projeção. Desde os anos 1960, a bossa nova abriu caminho para uma inserção global sofisticada, enquanto o samba e o Carnaval consolidaram uma identidade reconhecida. Mais recentemente, o funk – com crescente projeção internacional – e o sertanejo – hegemônico no mercado brasileiro – ampliam a presença do português nas plataformas digitais, inserindo-o nos circuitos globais de distribuição.

No audiovisual, as telenovelas difundiram o idioma por décadas e produções para streaming ampliam hoje esse alcance. Na literatura, autores contemporâneos expandem sua circulação internacional, enquanto um cânone consolidado projeta o idioma como língua de expressão sofisticada.

Na segunda metade do século XXI, entretanto, esse quadro tende a se tornar multipolar. Países africanos de língua portuguesa – como Angola e Moçambique – apresentam dinâmicas culturais próprias, com destaque para a música urbana e uma produção literária crescente. Esses polos emergentes podem deslocar o centro de irradiação do idioma para uma rede mais distribuída.

África: o futuro demográfico do idioma

Essa transformação cultural acompanha uma profunda mudança demográfica. Como mostra a Fig. 2, o crescimento do número de falantes de português ao longo do século está fortemente associado à África.

Fenômeno semelhante ocorre com o francês (Fig. 3), cuja expansão também se ancora na África francófona. As projeções indicam que, na segunda metade do século, poderá tornar-se a língua ocidental mais falada em termos demográficos – ainda que isso possa não ocorrer em termos de influência global.

Uma língua, várias vozes: diferenças e convergências

A expansão global do português não ocorre de forma homogênea. O idioma apresenta variações fonéticas e prosódicas marcantes – e, em menor grau, gramaticais – que refletem suas diferentes trajetórias históricas.

Do ponto de vista rítmico, costuma-se distinguir entre padrões acentuais (stress-timed) e silábicos (syllable-timed). O português europeu aproxima-se do primeiro, com uma forte redução de vogais átonas e maior compressão das sílabas. Já o português brasileiro tende a um ritmo mais silábico, com vogais abertas e mais claramente articuladas.

A palavra “colesterol” ilustra bem essa diferença: no português europeu, pode soar comprimida, com vogais reduzidas (“/ku.lɨʃ.tɾɔl/”), enquanto no brasileiro é pronunciada de forma mais aberta e segmentada (“/ko.les.teˈɾɔw/”).

Esse contraste explica por que o português europeu pode soar próximo às línguas eslavas – não por parentesco, mas por efeitos acústicos. O brasileiro, por sua vez, preserva maior abertura vocálica e incorpora influências indígenas e africanas, resultando em uma sonoridade mais aberta e regular, próxima das variedades africanas contemporâneas.

Janela estratégica: Brasil, África e o Sul Global

Esse cenário abre uma janela estratégica relevante. O português pode funcionar como uma base de articulação entre a América do Sul e a África, conectando regiões marcadas por crescimento populacional, urbanização acelerada e expansão de mercados.

Para o Brasil, isso representa uma oportunidade concreta de reposicionamento internacional. A língua pode facilitar a circulação de estudantes, pesquisadores e do conhecimento científico, além de favorecer os ecossistemas econômicos e tecnológicos.

O paradoxo lusófono

Apesar de seu alcance global, o mundo lusófono carece de uma instituição comparável ao Instituto Cervantes ou à Alliance Française. Essa lacuna reflete uma fragmentação política e a ausência de uma estratégia coordenada.

Uma iniciativa desse tipo – um possível “Instituto Machado de Assis” – poderia reorganizar a presença internacional do idioma, estruturando sistemas educacionais, científicos, culturais e econômicos.

No plano geopolítico, poderia sustentar uma articulação Sul–Sul entre a América do Sul e a África. Trata-se, em síntese, de transformar um patrimônio difuso em infraestrutura ativa de influência.

O que está em jogo

A questão ultrapassa o campo cultural. A língua estrutura sistemas educacionais, condiciona a circulação de conhecimento e influencia redes econômicas e tecnológicas. Em um mundo organizado por fluxos de informação, ela funciona como uma infraestrutura invisível de poder.

Não se trata apenas de comunicação, mas de capacidade de organizar sistemas – de formar quadros, produzir conhecimento e estabelecer padrões de interação.

Nesse contexto, o português possui um potencial singular ao articular regiões do Sul global e ao oferecer uma base comum para a construção de circuitos próprios de produção e circulação de conhecimento.

Um futuro em aberto

O português não é apenas uma herança histórica. É uma possibilidade estratégica.

Se o Brasil souber articular sua presença com a África lusófona – como parceiro cultural e científico –, poderá contribuir para a construção de um espaço linguístico capaz de sustentar novas formas de cooperação no Sul global.

Nesse sentido, o futuro do português dependerá não apenas de quantos o falam, mas de como e para que será utilizado.

Porque, no século XXI, as línguas não apenas descrevem o mundo – elas ajudam a organizá-lo.

E o português – nascido na periferia da Europa, expandido pelos oceanos e agora reinventado na África – pode tornar-se um dos idiomas centrais de um mundo multipolar.

Bibliografia

1.  Eberhard, D.M., G.F. Simons, e C.D. Fennig, Ethnologue: Languages of the World. 26 ed. 2023, Dallas: SIL International.

2.  Mattoso, J., História de Portugal. 2001, Lisboa: Editorial Estampa.

3.  Boxer, C.R., O Império Marítimo Português 1415–1825. 2002, São Paulo: Companhia das Letras.

4.  United Nations, World Population Prospects 2022. 2022. https://population.un.org/wpp/.

5.  Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Dados estatísticos e institucionais. 2023. https://www.cplp.org.

6.  Nye, J.S., Soft Power: The Means to Success in World Politics. 2004, New York: PublicAffairs.


[*] Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE – Pesquisador 1A do CNPq – Membro da Academia Brasileira de Ciências

[†] Edward Sapir (1884–1939) foi um linguista e antropólogo norte-americano, um dos fundadores da linguística moderna e da antropologia linguística, e se destacou por seus estudos sobre a relação entre língua, cultura e pensamento.

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Celso Pinto de Melo

Doutor em Física (UCSB, 1980), mestre em Física (1975) e engenheiro químico (1973) pela UFPE, é Professor Titular aposentado da UFPE e Pesquisador 1-A do CNPq. Atuou como Fulbright Senior Scholar no MIT (1986–1987). Lidera pesquisas em polímeros condutores, transporte em filmes finos e nanocompósitos aplicados à interface com sistemas biológicos e sensores. É autor de mais de 160 artigos e diversas patentes nacionais e internacionais, e orientou mais de 60 alunos de pós-graduação. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Física (2009–2013), vice-presidente e conselheiro da SBPC, além de diretor do CNPq e pró-reitor da UFPE. Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Pernambucana de Ciências. Recebeu a Comenda (2002) e a Grã-Cruz (2009) da Ordem Nacional do Mérito Científico, além da Ordem de Rio Branco (2007), por suas contribuições às ciências físicas no Brasil.

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