Primavera do Povo, por André Naves
Noite de 25 de outubro de 2026. Naquele momento em que o frio na barriga ainda reinava, o Brasil se reconheceu na rua, na emoção, no coração, na Esperança! Flores, luzes… Primavera brasileira!
Pensa comigo…
Os números falam alto. O Presidente Lula recebeu 64.256.232 votos — 51,75% dos válidos.
No primeiro turno, em 4 de outubro, ele havia perdido: 53,8 milhões de votos, 45,16%, contra os quase 47% de Flávio Bolsonaro. Medo. Desespero. Aflição!
Entre um turno e outro, o presidente conquistou 10.376.694 votos. O adversário, 3.721.538. A desvantagem de 2,1 milhão virou vantagem de 4.392.907. A abstenção caiu ao menor patamar de um segundo turno desde 2018: brancos e nulos somaram apenas 3,24%. Nunca, desde a redemocratização, alguém havia virado um placar presidencial entre o primeiro e o segundo turno. Nunca ninguém havia sido eleito quatro vezes presidente da República.
No entanto, nenhum número explica o que aconteceu numa padaria de Pirituba quando a TV anunciou o resultado. Nenhum número explica a senhora de setenta anos que abriu a janela e cantava com os olhos molhados. Alma lavada! Nenhum número explica o motorista que parou o carro, desceu e abraçou um estranho. Nenhum número explica o menino que vestiu a camiseta vermelha pela primeira vez.
A campanha venceu nas ruas, nas redes, nos corações, nas mentes… A campanha venceu porque despertou Pertencimento. Despertou a Esperança!
Pertencer é se sentir autor. É olhar para uma vitória e enxergar nela um pedaço do próprio trabalho. Do próprio esforço! É aquela sensação: “essa vitória também é minha!” Era vibrante! Todo mundo querendo fazer parte. Todo mundo querendo ser um pouco co-autor da vitória.
Nas ruas e nas redes, milhões se tornaram protagonistas — não apenas espectadores. Sem vergonha. Sem pedir licença. A camiseta, o adesivo, o vídeo caseiro, a selfie, o grupo da família que antes era só “bom dia”… No fundo, a campanha deixou de ser sobre só um candidato e passou a ser sobre todo o povo… Todos nós!
Assim que as ruas se encheram. Começou naquela faísca dos alunos da Universidade Federal Fluminense que se espalhou, igual rastilho de pólvora, para todo o Brasil. Era a Esperança ganhando corpo… Virando canto de Esperançar! Virando companhia, caminhada, carreata, gente reunida!
Essa histórica vitória foi construída da diversidade inteira do povo brasileiro!
Foi construída pelas mulheres, que são a maioria do eleitorado brasileiro e que, nesta campanha, foram mais do que maioria: foram corpo, voz e resistência. A mãe que saiu do trabalho e foi votar. A avó que levou a neta pela mão. A chefe de família que criou três filhos sozinha e nunca teve tempo de acreditar em nada além do dia seguinte — e que, desta vez, acreditou. A mulher que atravessou a violência e ainda assim encontrou Esperança em novos dias.
As mulheres sustentaram essa campanha com a mesma força com que sustentam este país!
Foi construída pelos idosos (E aqui eu preciso parar, enxugar a emoção dos meus olhos, e pedir palmas para eles).
Os idosos foram votar. Foram de bengala, de andador, de cadeira de rodas, de braço dado ao filho. Foram debaixo de chuva, em transportes falhos e precarizados, em prédios com degrau e sem rampa, em seções eleitorais onde a acessibilidade não existe… Mas foram! Contra tudo e todos… Foram!
Enfrentaram o preconceito e foram. Sabe aquela ideia insensível de que idoso só serve pra ser conduzido, tutelado… De que sua opinião é ridícula, seu voto é inválido, sua presença é incômoda?
Com elegância e força eles provaram que nada disso é verdade.
Foram, ainda, enfrentando riscos. Saúde frágil, a chuva, a violência, o medo… E ainda assim os idosos foram…
Por quê?
Porque lembram. Viveram o suficiente para ver o Brasil sem esperança. Atravessaram a ditadura, viram a fome voltar, viram pandemias, descaso e mortes, viram torturas e injustiças… Viram a exclusão, olhos nos olhos…
Gritaram “eu ainda estou aqui”!
Foi construída pelos jovens.
Os jovens articularam, estimularam, levantaram a chama. Foram eles que ocuparam as redes nesse dialeto tão charmoso deles. Foram eles que ensinaram pro avô como funcionava o aplicativo, que gravaram o vídeo, que colaram o adesivo, que organizaram o grupo, que levaram a campanha nas costas e no celular.
Os jovens foram a primeira faísca. Desde Niterói para todo o Brasil.
Cresceram vendo o mundo em crise, o emprego precarizado, o futuro só prometido, a mentira… Mas escolheram a Esperança. Não a esperança vazia de quem não sabe o tamanho do problema, mas a Esperança de quem conhece, e ainda assim toma a decisão de resolver. Foi ela que saiu da indignação pra organização e ação. Que trocou o comodismo pela construção.
Enxergue a Beleza da cena: ontem, na mesma fila, estavam a menina de dezesseis anos e a senhora de oitenta. A primeira votando pela primeira vez. A segunda, talvez, uma das últimas. As duas, juntas, votando pela mesma coisa — um Brasil onde ninguém seja deixado para trás.
Essa é a verdadeira diversidade do povo brasileiro. É gente de carne e osso, de idades, cores, credos, corpos e histórias diferentes, fazendo a mesma escolha. É a trabalhadora da indústria e o estudante da escola pública, a benzedeira do interior e a pesquisadora da universidade, o ribeirinho e o quilombola, a pessoa com deficiência, o homem que empurrou a cadeira de rodas da mãe…
Esse é o ponto que o outro lado é incapaz de entender. Apostaram no medo. O medo a curto prazo paralisa, cala, faz baixar a cabeça. Mas não constrói nada. O medo não convoca ninguém para o dia seguinte. O medo não vira mutirão, não vira campanha, não vira voto. É impossível construir uma vitória sustentável baseada no medo.
A Esperança venceu o medo!
Paulo Freire ensinava que esperança não é esperar, é esperançar. Esperançar é verbo: é levantar, é ir atrás, é construir. Foi isso que o Brasil fez. Não esperou que o futuro chegasse. “Esperançou” e foi construir — de bengala, de celular, de mãos dadas…
E o povo brasileiro deu um exemplo importantíssimo para todo o planeta. Nos dias de hoje a extrema-direita, o fascismo, avançam pelo mundo com seus planos de ódio, sua indústria de mentira, seu desprezo pela dignidade. E o Brasil — este país tantas vezes visto como eterno vira-lata, mostrou que não cabe no quintal de ninguém…
Não somos melhores que ninguém. Mas o dado concreto é que provamos que a mentira pode ser derrotada, que o negacionismo pode ser vencido, que o medo pode ser superado. O Brasil se tornou uma barreira sanitária contra o avanço do fascismo. Se tornou o campo onde a luz voltou a nascer.
Mostramos o valor da Esperança! Mostramos que só plantando rosas é possível enxergar a Primavera.
Plantar é só o começo, ainda precisa crescer e florescer. Nada está garantido. A vitória precisa ser arada diariamente, com trabalho e disciplina. É que se a vitória é um pouco minha, o sucesso do Brasil é minha responsabilidade. Quem se sentiu parte da vitória, também deve ser responsável pelo desenvolvimento do país.
O pertencimento cria dever.
Somos um povo ordeiro, decente, honesto e trabalhador. Ordem não é silêncio diante da exclusão. Decência não é baixar a cabeça diante da injustiça. Honestidade não é docilidade com o inaceitável. E trabalho não é apenas a força que move a economia — é a inteligência que inventa saídas.
A Esperança venceu o medo. Que essa vitória — fundada na emoção, no pertencimento e na Esperança — não se perca nos gabinetes. Que ela continue sendo do povo. Das mulheres que a sustentaram. Dos idosos que a protagonizaram. Dos jovens que a acenderam.
E a vitória só é histórica quando, depois dela, ninguém fica para trás: A primavera começou. Agora é cuidar dela!
André Naves — Defensor Público Regional de Direitos Humanos em SP. Especialista em Inclusão Social, Direitos Humanos e Economia Política. Membro dos Grupos de Trabalho da DPU: Pessoas Idosas, Pessoas com Deficiência e Pessoas em Situação de Rua. Comendador Cultural. Escritor. Professor. www.andrenaves.com | @andrenaves.def
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