24 de agosto de 2026

Primeira semana de campanha: algumas pérolas, por Lauro Mattei

Na primeira semana de campanha de presidenciáveis muito se falou. E os candidatos conservadores e de direita estão de parabéns!
Reprodução Youtube

Campanha presidencial 2026 começou em 16/08; candidatos de direita lideram com propostas e falas polêmicas.
Renan Santos defende poder das regiões Norte/Nordeste e plano de desfavelização com moradias verticais.
Flávio Bolsonaro propõe combate duro ao crime, castração química e construção de presídios de segurança máxima.

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Algumas pérolas dos presidenciáveis de 2026 na primeira semana de campanha

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por Lauro Mattei

Oficialmente a campanha presidencial de 2026 começou em 16.08.2026. Após uma semana a população brasileira teve conhecimento de algumas pérolas e blefes políticos proferidos por alguns dos principais candidatos. Nestas notas vamos sistematizar algumas dessas falas, destacando-se que os candidatos conservadores e do espectro político de direita estão ganhando de lavada.

Comecemos pelo novato nesse percurso – Renan Santos (Missão) – uma vez que é a primeira vez que se apresenta na disputa de um cargo político. No lançamento de sua candidatura afirmou que a verdadeira fonte de poder no país está concentrada nas regiões Norte e Nordeste porque elas ocupam 59% das vagas no Senado Federal e 42% na Câmara Federal. Para ele, as elites da Faria Lima ficam assistindo e nem percebem que não é o mercado que “manda na economia brasileira”. Por isso, entende que o Brasil atual é uma nação derrotada, sem esperança e sem futuro.

Ao final de uma semana de campanha desabafou: eu estive em reuniões com os maiores empresário do país e eles sabem que meu projeto e minhas propostas são as melhores para o país. Mas não sei porque diabos essa elite empresarial não tem a coragem de me apoiar e dizer “é ele que tem o melhor projeto de país”. Não adianta essa elite falar isso e ficar na moita porque não adianta gostar de mim e ficar no sigilo. Para esse candidato, quem é elite tem que correr o risco para liderar esse processo.

Chama atenção o figurino do rapaz. Quando vai encontrar a “elite empresarial da Faria Lima” ele vai todo engomadinho em termos da última moda. Todavia, quando vai à favela de Paraisópolis, além de ir com colete à prova de bala, vai também cercado de capangas armados, o que revela a visão que tem desses locais. Foi exatamente ali que ele apresentou sua brilhante proposta: irá criar o plano nacional de desfavelização que consiste na construção vertical de moradias e na entrega de títulos de propriedade.

O outro candidato Romeu Zema (Novo) – embora ex-governador de Minas Gerais por dois mandatos seguidos – transpira uma ingenuidade política, além de uma ignorância total sobre o país que ele quer governar. Embora destaque que possui um plano implacável para o país sintetizado em 81 páginas com propostas em 21 áreas específicas, sua ênfase se assenta no mantra da austeridade fiscal. Para tanto, reduzir gastos com programas sociais, retomar as privatizações (na fala dele privatizar tudo) e fazer reformas estruturais (nova reforma da previdência) são suas metas centrais.

Nesta direção, chegam a ser cômicas algumas falas desse candidato quando busca justificar determinadas propostas. Por exemplo, quando apresenta o programa “sócios do Brasil”, uma ação do governo federal destinando R$ 1.000,00 para cada bebê que nasce para ser aplicado em um fundo de ações, o qual só poderá se resgatado quando a criança fizer 18 anos. Ou seja, caso essa criança tenha origem na pobreza, sua infância e adolescência serão penalizadas, uma vez que sob o guarda-chuva da austeridade fiscal os programas de transferências de renda serão fortemente reduzidos.

Além de falas controversas em diversas áreas específicas (a única na área de habitação é impedir a instalação de barracas nas ruas para evitar aumento de moradores de rua; descumprir decisões judiciais que determinam a exclusão de perfis nas plataformas digitais, etc.) ele se destaca na defesa de uma nova reforma da previdência sob a argumentação de que a expectativa de vida nos tempos de nossos avós era muito menor que atualmente. Para tanto, a única solução possível segundo ele é ampliar ainda mais o tempo de contribuição dos trabalhadores para fazer frente ao aumento da expectativa de vida dos brasileiros.

Já o veterano candidato que está em disputas eleitorais desde 1989 – Ronaldo Caiado (PSD) – se define como “direita raiz”, entendendo que ele é a única alternativa viável à polarização nacional. Todavia, se diz defensor da austeridade fiscal com ajuste fiscal mais rígido (não deixando claro o que seria essa rigidez); de uma política de segurança também mais rígida; e de regras mais duras nos gastos sociais, inclusive acusando o governo atual de estar usando politicamente o SUS.

Mas chama atenção sua mudança recente após uma semana de campanha eleitoral, uma vez que até antes do início oficial da campanha ele qualificava a proposta que prevê a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais e o fim da escala 6 x 1 de eleitoreira, demagógica e populista. Subitamente seus conhecimentos sobre o assunto mudaram e agora ele se agregou aos defensores de tal proposta. Quanto oportunismo não!!! Mas isso faz parte de sua estratégia de se colocar perante a população do país como o candidato da fracassada “terceira via”.

Finalmente, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) – que já está em campanha há tempos – sem dúvida alguma é o mais prolixo em falar bobagens as quais revelam seu total desconhecimento da realidade brasileira. Recentemente fez uma grande descoberta: “o crime é ruim para o país”. Para isso apresentou seu plano intitulado de “Brasil sem medo: acabar com a cocaína made in Brazil”, cujo mote é: traficantes que resistirem vão virar pó. Por isso pretende “tirar o medo do cidadão e colocar o medo nos bandidos”. Por fim, afirmou que quem não entrar na linha vai ser desligado da sociedade. Essas falas condizem com falas anteriores do clã bolsonarista que disseminou no país o bordão de que bandido bom é bandido morto.

Além disso, mostrando-se a favor de tudo o que é bom, afirmou também que vai ser mão pesada porque seguirá o “padrão Bukele (em referência ao presidente de El Salvador Nayib Bukele que implantou um regime de exceção no país). Para tanto, vai combater as facções criminosas (sic) e tratará os marginais como deverão ser tratados. Nesta lógica, em quatro anos irá construir mais 5 presídios de segurança máxima com ampliação de 500 mil vagas. Nessa passagem transparece o total desconhecimento do candidato sobre o que está falando: o país possui atualmente 5 presídios de segurança máxima que totalizam 1.040 vagas, correspondendo a uma média de 208 vagas por presídio.

Quanto ao plano de governo, afirma que tem uma equipe de 100 pessoas (sic) que estão trabalhando sob a coordenação do economista Adolfo Sachsida. Segundo ele, tal plano deverá conter 200 medidas as quais serão apresentadas à população após as eleições, ou seja, primeiro você vota no sujeito e depois você saberá o que ele irá fazer para governar o país durante os próximos quatro anos. Alguns analistas que tiveram acesso a algumas dessas medidas afirmaram que tal projeto será desastroso para o país.

Em falas recentes o candidato também destacou duas ações centrais de seu governo: “irá promover a castração química de estupradores e abusadores de mulheres e crianças”, além de dar um recado aos narcoterroristas: “vocês terão até dezembro para dar o pé do Brasil”. Segundo ele, a partir de então irá fazer uma guerra no país contra os criminosos. Neste caso fica a dúvida: como a ficha corrida do candidato é extensa, tal medida, se adotada por outro candidato, poderá abatê-lo em cheio.

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Lauro Mattei – Professor Titular dos cursos de Economia e Administração da UFSC

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