
Quadra de Vices
por Fábio de Oliveira Ribeiro
João Goulart substituiu Janio Quadros, mas a posse dele foi contestada. Após um grande movimentação política (a rede da legalidade) Jango assumiu a presidência, sob um parlamentarismo de ocasião comandado por Tancredo Neves. Algum tempo depois os poderes presidenciais foram restaurados, mas João Goulart acabou sendo deposto sem qualquer resistência.
José Sarney tomou posse na presidência em virtude da morte de Tancredo Neves num contexto em que o homem mais poderoso do país era Ulysses Guimarães. Governante frágil capaz de reconhecer a própria fragilidade, Sarney abusou da distribuição de favores (especialmente das concessões de rádio e TV) para consolidar maioria no Senado e na Câmara dos Depurados. Ele fez algo realmente inédito: ele deu um calote na dívida brasileira. De plano em plano econômico, o governo Sarney se arrastou até um final sombrio que permitiu a criação de um salvador da pátria.
A salvação nacional à moda Fernando Collor durou pouco. Submetido a um Impedimento motivado, Collor cedeu o lugar a Itamar Franco. Desgraçadamente, Itamar será sempre mais lembrado por causa de uma vagina fotografada ao lado dele no Carnaval do que pela paternidade do Plano Real. Com ajuda da imprensa, FHC se apropriou do plano econômico que não concebeu e entrará para a história como aquele que privou Itamar Franco da sua maior glória: a estabilização da moeda. Findo seu governo, Itamar foi rosetar na Itália ocupando o belo palacete em que funciona a Embaixada do Brasil.
Michel Temer chegou ao poder através de um golpe de estado que ele mesmo arquitetou e liderou com ajuda de Eduardo Cunha. Ao assumir a presidência Temer acreditou que havia se tornado o homem mais poderoso do país. Ledo engano. As condições para o livre exercício do poder estavam interditadas por três fenômenos irresistíveis: a Lava Jato, para onde quase todos seus ministros foram tragados; a capacidade de mobilização dos sindicatos, que organizaram uma bem sucedida greve geral e preparam outra e; a gravidade da crise econômica que o próprio Michel Temer ajudou a aprofundar ao fomentar o caos político que o levaria à presidência.
Apesar de seus defeitos, José Sarney e Itamar Franco foram suficiente competentes para seguir governando até uma eleição regular. Eles realizaram governos de transição relativamente estáveis. Tudo indica que, como João Goulart, Michel Temer cairá antes de cumprir integralmente o mandato tampão. Jango, contudo, não foi o verdadeiro artífice da ruína do país que abreviou seu mandato. Portanto, dos quatro vices Temer será o único que entrará no esgoto sem ter sequer entrado para a história do Brasil de maneira positiva.
Maria Luisa
24 de maio de 2017 12:12 pmDeus nos acuda!
Fabio, lendo seu artigo, me ocorreu mais um vice que assumuria em condições excepcionais: Café Filho que assume a presidência da Republica no dia 24 de Agosto de 1954, assim que confirmado a morte de Getulio Vargas. Interessante é que assim como Dilma, Getulio nunca confiou em Café Filho. Tinha ele boas razões, como viu-se depois.
Mas o que fica dessa quadra de vices. Ou quina. Eh que votar para o presidente no Brasil – eita mais uma jaboticaba! – é tão importate quanto a escolha do vice….
stan neto
24 de maio de 2017 1:05 pmMuito bem observado, Maria
Muito bem observado, Maria Luisa.
Fábio de Oliveira Ribeiro
24 de maio de 2017 1:28 pmBem lembrado. Não citei o
Bem lembrado. Não citei o vice de Getúlio porque a história dele está muito distante da realidade que vivemos hoje. Naquela época o consenso em torno da CLT era indiscutível. E continuou sendo até o advento da posse do usurpador Michel Temer.
Paulo F.
24 de maio de 2017 3:06 pmFaltou um
O que foi sem nunca ter sido. Pedro Aleixo.
Vetado pela Junta Provisória após o falecimento de Costa e Silva.
Jorge Milan
24 de maio de 2017 12:42 pmUm presidente Colonialista
Temer já entrou para a histório como o presidente golpista, mais ainda, o presidente mais restrógado da história do Brasil. Entreguista e vagabundo, de uma cultura colonialista e subserviente.
Gil Teixeira
24 de maio de 2017 1:21 pmA diferença
é que Jango foi eleito, naquela época vice também era candidato, na minha opinião deveria ser assim. Ou então acaba logo com o cargo.
Tristão
24 de maio de 2017 1:28 pmObs.
Fábio, Jango não era vice direto de Jânio como os demais. Naquela época se elegia separadamente o presidente e o vice. Então deu-se a caqueira do vice ser o oposto do presidente, o que desaguou no golpe militar.
Mas o artigo comprova que a instituição de vice, ou de suplente, é uma aberração para a nossa cultura. O vice, ou suplente, pode conspirar contra chefe pra tomar seu lugar no caso mais recente, mas também pode ser de capacidade infinitamente inferior ao eleito como no caso do Sarney. Aliás ele foi um vice imposto, mudou de partido pra poder enfrentar o Maluf.
O melhor seria eleger-se entre os mais votados: um Presidente para ser o chefe do Estado, e um Vice para ser o chefe do Governo, e não necessariamente da mesma chapa. O presidente com poder de destituir o vice, e o vice com poder de fiscalizar e policiar o presidente, e até propor seu impeachement. Não se criaria estes traumas que vivenciamos periodicamente.
Mas a pior falha da atual Constituição é a super proteção de deputados e senadores, e deu-lhes o direito de auto beneficiar-se. Essa capacidade, aliada ao grande volume de benesses que se dedicaram, provocou o surgimento desta oligarquia reinante. De nada adianta reformas eleitorais ou políticas se não lapidar-se estes poderes exagerados.
Fábio de Oliveira Ribeiro
24 de maio de 2017 3:30 pmVocê tem razão. Jango não foi
Você tem razão. Jango não foi eleito na mesma chapa que Janio. As diferenças evidentes entre ambos ajudaram a precipitar a crise de 1962 e o golpe de 1964.
Não fiz referencia a este fato porque nós acostumamos ao voto vinculado (presidente/vice presidente).
Creio que a única forma de estabilizar o presidencialismo brasileiro seria estender a vinculação aos votos do eleitor para senador e deputado. Assim, o presidente eleito sempre poderia contar com uma boa bancada, limitando bastante a possiblidade/necessidade de compra de votos parlamentares, distribuição de favores e negociatas espúrias.