13 de julho de 2026

Para além da reconstrução, que sindicalismo o Brasil precisa reinventar?, por Marcos Verlaine

Se o sindicalismo não disputar o terreno cultural e comunicacional, continuará perdendo espaço entre as novas gerações de trabalhadores.
CPDOC

Sindicalismo brasileiro precisa reinventar-se para organizar trabalho fragmentado e enfrentar capitalismo digital e financeirizado.
Críticas destacam cinco misérias do sindicalismo: burocracia, corporativismo, negócios, despolitização e captura pelo capital.
Dirigente sindical do século 21 deve dominar comunicação digital e tecnologia para disputar cultura e direitos dos trabalhadores.

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Para além da reconstrução, que sindicalismo o Brasil precisa reinventar?

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Resposta ao artigo “Que sindicalismo o Brasil precisa (re)construir?”1, publicado no portal Vermelho, em 9 de julho.

Se Railton Souza recoloca, com razão, a centralidade do sindicalismo classista e da luta política, a crítica de Giovanni Alves revela que a reconstrução do movimento sindical depende também de profunda autocrítica. Mais do que restaurar estruturas do passado, o desafio consiste em reinventar sindicalismo capaz de organizar o trabalho fragmentado, disputar consciências e enfrentar o capitalismo digital, financeirizado e plataformizado.

por Marcos Verlaine

O artigo de Railton Nascimento Souza2 recoloca no centro do debate público verdade frequentemente esquecida: não há democracia robusta sem sindicatos fortes.

Ao recuperar a história do sindicalismo brasileiro, desde as greves operárias do início do século 20 até a resistência à ditadura civil-militar (1964-1985) e a conquista dos direitos sociais inscritos na Constituição de 1988, o autor reafirma o papel histórico das organizações sindicais como expressão coletiva dos trabalhadores, como classe social, e instrumento indispensável de defesa da democracia, da soberania nacional e da justiça social.

O texto de Railton também acerta ao sustentar que as disputas institucionais e eleitorais não são exteriores à luta sindical. Ao contrário.

O Parlamento, o Executivo e o Judiciário influenciam diretamente o alcance da negociação coletiva, proteção ao emprego, liberdade sindical e efetividade dos direitos sociais. Ignorar essa dimensão significaria reduzir o sindicalismo à prática meramente reivindicativa, como se diz no movimento sindical, da luta e demanda meramente economicistas.

Todavia, justamente por reconhecer a importância estratégica do movimento sindical, impõe-se pergunta complementar à formulada por Railton: é suficiente reconstruir o sindicalismo que existia ou será necessário reinventá-lo?

É nesse ponto que a contribuição do professor Giovanni Alves3 se torna incontornável.

Crítica que o MS
precisa fazer a si mesmo

Ao identificar as 5 “misérias” do sindicalismo contemporâneo — burocratização institucional, corporativismo setorial, sindicalismo de negócios, despolitização ideológica e captura da subjetividade pelo capital — Giovanni desloca o debate para dentro das próprias organizações sindicais.

A análise de Alves não responsabiliza apenas o neoliberalismo, a Reforma Trabalhista (2017) ou o avanço da extrema-direita pelo enfraquecimento do movimento sindical.

Essa demonstra que parte dessa crise também resulta das adaptações realizadas pelo próprio sindicalismo às novas formas de acumulação capitalista.

Essa observação não diminui a responsabilidade das ofensivas patronais contra os direitos sociais. Ao contrário. Explica porque essas ofensivas encontraram organizações frequentemente incapazes de responder à altura à essas ofensivas do mercado e do capital.

Reconhecer esse diagnóstico não significa negar a história de lutas do sindicalismo brasileiro. Significa compreender que nenhuma organização permanece forte se deixa de refletir criticamente sobre seus próprios limites e erros.

A reconstrução não pode
ser apenas institucional

O texto de Railton enfatiza corretamente a necessidade de fortalecer o financiamento sindical, proteger a negociação coletiva, recuperar direitos e eleger representantes comprometidos com a pauta dos trabalhadores. Tudo isso é indispensável.

Mas talvez não seja suficiente. O mundo do trabalho mudou numa velocidade superior à capacidade de adaptação das estruturas sindicais. A fábrica, a escola, o banco, deixaram de ser os únicos espaços privilegiados da exploração do trabalho pelo capital.

Hoje o trabalho está disperso em plataformas digitais, cadeias globais de produção, pequenos estabelecimentos, serviços terceirizados, teletrabalho, inteligência artificial, economia sob demanda e falsas formas de empreendedorismo, com a uberização do trabalho.

O trabalhador deixou de possuir identidade ocupacional relativamente estável. E passou a viver trajetórias marcadas pela rotatividade, múltiplos vínculos e insegurança permanente.

Nesse novo cenário, reconstruir apenas a institucionalidade sindical equivale a fortalecer organizações desenhadas para representar um mundo do trabalho que já não existe da mesma forma.

Superar as 5 “misérias” exige
reinventar a prática sindical

A crítica de Giovanni Alves aponta menos para o fim do sindicalismo do que para sua necessária transformação.

Superar a burocratização significa devolver protagonismo às bases por meio da democracia participativa, organização territorial, presença cotidiana nos locais de trabalho e uso inteligente das tecnologias digitais.

Superar o corporativismo exige romper as fronteiras tradicionais das categorias profissionais para construir formas mais amplas de solidariedade entre trabalhadores formais, terceirizados, trabalhadores por plataformas, autônomos economicamente dependentes, servidores públicos e profissionais submetidos às novas formas de precarização.

Enfrentar o sindicalismo de negócios implica recuperar a autonomia política sem abandonar a negociação coletiva, compreendendo que negociar não significa administrar a lógica empresarial, mas disputar melhores condições de trabalho e ampliar direitos.

Combater a despolitização requer recolocar a formação sindical — educação política — no centro da ação cotidiana. Sindicato não deve e tampouco serve apenas para negociar salários. Deve produzir consciência crítica, formar lideranças, interpretar a realidade nacional e preparar os trabalhadores para intervir na vida pública.

Finalmente, enfrentar a captura da subjetividade talvez constitua o maior desafio contemporâneo.

O capital já não controla apenas jornadas e salários. Controla narrativas. Organiza algoritmos. Produz identidades. Estimula o chamado empreendedorismo individual como substituto da solidariedade coletiva.

Se o sindicalismo não disputar esse terreno cultural e comunicacional, continuará perdendo espaço entre as novas gerações de trabalhadores.

O dirigente sindical
do século 21

O artigo de Railton recupera, com inspiração marxista-leninista, o perfil do dirigente sindical como educador político, organizador das massas dispersas e estrategista da luta social.

Essa formulação preserva enorme atualidade. Entretanto, precisa dialogar com exigências inéditas.

O dirigente contemporâneo deve continuar sendo militante comprometido com os interesses dos trabalhadores, mas também precisa dominar a comunicação digital, compreender inteligência artificial, interpretar transformações tecnológicas, dialogar com trabalhadores altamente escolarizados e com os segmentos mais precarizados do mercado de trabalho.

Precisa conhecer economia política — categoria da economia que interpreta e dialoga com os problemas sociais —, mas igualmente algoritmos. Necessita compreender relações de trabalho, mas também plataformas digitais.

A luta sindical passa, cada vez mais, pela disputa de dados, redes digitais, informação e opinião pública. O novo dirigente precisa ser, simultaneamente, organizador, negociador, comunicador e formador político.

Da resistência à construção
de novo projeto histórico

Talvez o maior legado comum entre Souza e Alves esteja precisamente na compreensão de que o sindicalismo não pode limitar-se à defesa corporativa de interesses imediatos. Ambos convergem ao afirmar que o movimento sindical deve manter projeto histórico de transformação social.

A diferença reside na ênfase.

Enquanto Railton destaca a reconstrução política e institucional do sindicalismo classista, Giovanni alerta que essa reconstrução será insuficiente se não enfrentar as deformações produzidas no interior das próprias organizações sindicais.

Ambas as perspectivas, longe de serem incompatíveis, revelam-se complementares.

Reconstruir exige autocrítica. Autocrítica exige renovação. E renovação exige coragem para abandonar práticas que perderam capacidade de organizar os trabalhadores, não meramente como categoria profissional, mas como classe social. É a famosa substituição da “classe em si” para a “classe para si”.

O sindicalismo
que o Brasil precisa

O sindicalismo de que o Brasil necessita não poderá ser mera reprodução daquele que protagonizou as grandes lutas e jornadas do século 20. A transição para o século 21 não representou continuidade histórica, mas ruptura produzida pela reestruturação do capitalismo, pela revolução tecnológica e pela fragmentação do mundo do trabalho.

O que deve ser preservado não são as antigas formas de organização, mas seus fundamentos: solidariedade de classe, democracia, autonomia, organização coletiva e compromisso com a justiça social.

Também não poderá adaptar-se passivamente à lógica do mercado, limitando-se à gestão de interesses imediatos.

O desafio consiste em construir um sindicalismo profundamente democrático, classista sem sectarismo, autônomo sem isolamento, inovador sem perder identidade, capaz de representar todas as formas contemporâneas do trabalho e de disputar não apenas salários ou direitos, mas também cultura, tecnologia, informação, subjetividade e projeto nacional de desenvolvimento.

Em última análise, responder à pergunta que Railton faz em “Que sindicalismo o Brasil precisa (re)construir?” talvez exija reformulá-la.

O Brasil precisa, antes de tudo, reinventar um sindicalismo que continue fiel à essência histórica desse movimento — organizar coletivamente quem vive do trabalho —, mas que seja capaz de responder aos desafios do capitalismo altamente tecnológico, que já não explora apenas a força física do trabalhador, e sim a inteligência dele, as emoções, os dados e a própria forma de perceber o mundo.

Essa é a simbiose ou binômio “reconstrução, com reinvenção” que o presente exige e que o futuro não permitirá adiar.

Marcos Verlaine – Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

_______________

1 Que sindicalismo o Brasil precisa (re)construir? – https://vermelho.org.br/coluna/que-sindicalismo-o-brasil-precisa-reconstruir/ – Acesso em 12.6.26

2 Professor de filosofia, presidente do PCdoB-GO, da FitraeBC (Federação Interestadual dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino do Brasil Central) e coordenador-geral da Contee (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino).

3 Professor doutor aposentado e cientista social, com vasta produção intelectual orientada ao mudo do trabalho, como “O Novo (e Velho) Sindicalismo no Brasil: análise de uma trajetória (1978-1998)”. São Paulo: LTr, 2000. “Trabalho e Subjetividade: o espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório”. São Paulo: Praxis, 2011. E “As Misérias do Trabalho: ensaios de sociologia crítica”. Londrina: Praxis, 2014.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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