26 de outubro de 2026

Queda do Abstencionismo, por Fernando Nogueira da Costa

A questão central é distinguir a abstenção como comportamento individual da abstenção como fenômeno político e social.
Paul Klee

Nas eleições presidenciais de 2026, a abstenção foi de 21,08% no primeiro turno e caiu para 19,22% no segundo turno.
A abstenção afetou Lula devido à menor participação de eleitores de baixa renda e variações regionais no comparecimento.
Defensoria Pública investiga falhas no transporte e mudanças de locais que dificultaram o voto em áreas vulneráveis no país.

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Queda do Abstencionismo, por Fernando Nogueira da Costa

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O verbete “Abstencionismo”, escrito por Gianfranco Pasquino para o Dicionário de Política (11ª ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998), organizado por Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e pelo próprio Pasquino, oferece uma interpretação particularmente relevante para as eleições presidenciais brasileiras de 2026.

A questão central é distinguir a abstenção como comportamento individual da abstenção como fenômeno político e social. Quando milhões de cidadãos deixam de votar, isso pode alterar a representatividade dos resultados, afetar desigualmente os candidatos e revelar obstáculos à participação democrática.

No primeiro turno de 2026, aproximadamente 33,4 milhões de brasileiros não compareceram às urnas, correspondendo a 21,08% do eleitorado. Havia evidências de a ausência de eleitores de baixa renda ter prejudicado Lula, mas existia controvérsia sobre a dimensão desse efeito. No segundo turno, a abstenção caiu para 19,22% ou 30,5 milhões de eleitores.

Ela predominou nos pequenos eleitorados dos estados do Norte e Centro-Oeste, exceto o Estado do Rio com 21,6% de abstenção ou 2,78 milhões de eleitores. Embora a taxa de abstenção no Estado de São Paulo tenha sido menor (19,8%), 6,76 milhões não compareceram. Em Minas Gerais, atingiu 20,3% ou 3,33 milhões eleitores. Na Bahia, a taxa foi de 16,7% com 1,89 milhões ausentes. Estes quatro estados citados com maiores eleitorados somaram a metade da abstenção total.

Pasquino define o abstencionismo eleitoral como a não participação no ato de votar. A taxa é calculada pela proporção dos eleitores habilitados sem comparecer às urnas.

O conceito deve ser diferenciado de dois outros comportamentos:

  • Voto em branco: o eleitor comparece, mas não escolhe um candidato.
  • Voto nulo: o eleitor comparece, mas registra um voto inválido.
  • Abstenção: o eleitor não comparece à votação.

O segundo turno das eleições contou com menos votos brancos (1,4 milhão diante de 2,3 milhões) e nulos (2,7 milhões diante de 3,6 milhões). Menos gente (4,1 milhões diante de 5,9 milhões) se omitiu.

Abstencionismo não significa necessariamente apatia. A ausência eleitoral pode decorrer de motivações diferentes. É possível distinguir quatro situações:

ModalidadeCaracterísticaSignificado político
Abstenção involuntáriaImpedimentos materiais, físicos ou administrativosExclusão prática da participação
Abstenção por apatiaDesinteresse ou distanciamento da políticaBaixa integração ao processo político
Abstenção por protestoRecusa consciente de participarContestação dos candidatos ou do sistema
Abstenção por alienaçãoSentimento de impotência diante das instituiçõesDescrença na eficácia do voto

Essa classificação é uma sistematização didática das motivações discutidas no campo da participação política, não uma reprodução literal de quatro categorias formalmente estabelecidas por Pasquino. Uma pessoa pode deixar de votar porque está doente, porque não dispõe de transporte, porque considera os candidatos equivalentes ou porque acredita que seu voto não modificará sua vida.

Embora o resultado estatístico seja idêntico, as causas sociais e as consequências políticas podem ser diferentes.

Quando parcela expressiva da população deixa de participar sistematicamente das eleições, pode ocorrer um distanciamento crescente entre representantes e representados. O problema não é apenas quantitativo.

A democracia pressupõe igualdade política formal, mas essa igualdade fica comprometida quando as condições materiais de participação são profundamente desiguais. Uma pessoa com automóvel, renda elevada e disponibilidade de tempo enfrenta obstáculos diferentes daqueles de um trabalhador informal, uma mãe responsável pelos filhos ou um idoso com dificuldades de locomoção. Nesse sentido, a abstenção pode refletir desigualdades sociais preexistentes.

Há risco de massas de eleitores afastados da participação política tornarem-se vulneráveis a apelos demagógicos de lideranças com promessa de restaurar uma participação supostamente autêntica. Essa observação, formulada originalmente em outro contexto histórico, continua relevante para investigar movimentos populistas contemporâneos.

O primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 apresentou os seguintes resultados:

IndicadorPrimeiro turno de 2026
Eleitores aptosAproximadamente 158,7 milhões
Eleitores ausentes33,4 milhões
Taxa de abstenção21,08%
Flávio Bolsonaro47,03% dos votos válidos
Lula45,16% dos votos válidos
Diferença entre os candidatosCerca de 2,22 milhões de votos

A comparação com 2022 revela uma particularidade.

Indicador20222026
Abstenção no primeiro turno20,95%21,08%
Número de ausentes32,77 milhões33,47 milhões
Diferença—+698 mil aproximadamente

A taxa nacional cresceu apenas 0,13 ponto percentual.

Portanto, não houve uma explosão da abstenção em relação à eleição anterior. A questão mais importante é outra: quem deixou de votar e onde essas pessoas estavam?

A hipótese de prejuízo eleitoral a Lula está associada à composição social do eleitorado ausente. Uma análise publicada pela Folha de S.Paulo em 14 de outubro identificou uma inversão na distribuição da abstenção segundo a renda. No primeiro turno de 2026: entre os 20% mais pobres, a abstenção foi de aproximadamente 21,3%; entre os 20% mais ricos, ficou em 20,3%. A diferença é relativamente pequena — um ponto percentual —, mas relevante para investigar a distribuição social da participação.

A mesma análise identificou maior preferência por Lula nas faixas de renda mais baixas. A ausência de eleitores com menor escolaridade, no primeiro turno, teria contribuído para o desempenho inferior de Lula no primeiro turno. O mecanismo é compreensível.

Se um candidato possui maior apoio entre os eleitores pobres, mas esses eleitores comparecem proporcionalmente menos às urnas, sua votação efetiva pode ficar abaixo de seu potencial eleitoral. Entretanto, é necessário fazer uma distinção estatística.

Não é possível concluir: todos os eleitores pobres ausentes votariam em Lula. A preferência eleitoral é uma probabilidade, não uma característica determinada automaticamente pela renda. Além disso, a diferença entre as taxas de abstenção dos grupos não permite calcular diretamente quantos votos Lula perdeu.

Outro aspecto relevante é a distribuição regional. Uma análise dos resultados eleitorais indica, entre 2022 e 2026, a abstenção ter diminuído no Norte e no Nordeste, aumentado no Sudeste, Sul e Centro-Oeste, e crescido especialmente em determinadas capitais e grandes centros urbanos.

No primeiro turno, no Nordeste, o comparecimento aumentou em números absolutos, enquanto o Sudeste registrou redução. Esse resultado introduz uma ressalva importante. Embora a abstenção dos mais pobres possa ter prejudicado Lula, a evolução regional não sustenta a explicação simplista de ele ter perdeu votos apenas porque os nordestinos deixaram de comparecer.

No segundo turno, as menores taxas de abstenção foram em: Piauí (17,19%), 464.865 eleitores; Santa Catarina (16,96%), 972.384; Bahia (16,71%) 1.890.844; Rio Grande do Norte (16,06%), 427.044; Sergipe (15,71%), 273.434; Paraíba (15,54%), 504.874; Pernambuco (15,18%), 1.096.760; Ceará (13,89%) 971.678. Lula ganhou em todos esses estados, exceto Santa Catarina.

Lula venceu com 69,37% dos votos do Nordeste e 50,01% dos votos do Norte. Além do Norte e Nordeste, ganhou em Minas Gerais com 50,43% dos votos totais. No Sudeste, alcançou 47,24%, no Centro-Oeste 39,99% e no Sul 37,42%.

Nas capitais, destacaram-se as vitórias em Campo Grande (76,66%), Belém (74,63%), Salvador (73,24%), Boa Vista (69,1%), Teresina (68%), São Luís (62%), Recife (61,27%), Fortaleza (60%), Porto Alegre (55,84%), São Paulo (55,5%), Rio de Janeiro (51,54%). Perdeu de pouco em Belo Horizonte (49,2%) e Florianópolis (48,34%), e de muito em Curitiba (37,7%), terra do lawfare.

A contagem final das urnas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) definiu a disputa presidencial de 2026 com os seguintes números: Lula (PT): 51,79% (64.256.232 votos) — Eleito; Flávio Bolsonaro (PL): 48,21% (59.826.041 votos); Votos Nulos: 2.723.305 votos; Votos Brancos: 1.430.496 votos; Abstenções: 30.509.005 votos. Lula ganhou com quase 4,5 milhões de votos. As abstenções se reduziram em cerca de 3 milhões.

Portanto, existem interpretações divergentes. A hipótese mais consistente é o resultado ter refletido uma combinação de mudanças de preferência eleitoral, composição social do comparecimento e diferenças territoriais.

Nem toda ausência eleitoral corresponde a uma decisão política livre. Uma pessoa pode desejar votar e, ainda assim, enfrentar dificuldades relevantes.

Em outubro de 2026, a Defensoria Pública da União iniciou apurações sobre possíveis falhas na oferta de transporte público gratuito e mudanças de locais de votação que teriam dificultado o acesso às urnas. Foram relatados problemas em áreas rurais, bairros periféricos e comunidades vulneráveis de diferentes estados. A DPU encaminhou milhares de ofícios solicitando informações e providências.

Trata-se de investigação sobre possíveis falhas, não de comprovação de uma estratégia deliberada de exclusão eleitoral. Entretanto, o problema institucional é relevante independentemente da intenção.

Se o cidadão tem o direito de votar, mas não dispõe de condições razoáveis para chegar à seção eleitoral, existe uma distância entre o direito formal e seu exercício efetivo. Isso aproxima a discussão do abstencionismo de um problema mais amplo: a diferença entre cidadania jurídica e cidadania efetiva.

O abstencionismo também pode decorrer da percepção de as eleições não produzirem mudanças significativas na vida cotidiana. Essa percepção pode ser alimentada por experiências como precariedade dos serviços públicos, endividamento, insegurança e frustração com promessas políticas.

Contudo, não é possível deduzir automaticamente esses fatores explicarem a ausência de determinado eleitor. A investigação precisa distinguir três fenômenos: 1. desinteresse: o cidadão acompanha pouco a política e não percebe razões suficientes para participar; desencanto: acompanha a política, mas não confia nos candidatos ou instituições; impedimento: gostaria de participar, mas enfrenta obstáculos concretos.

Essas situações exigem respostas públicas diferentes. A desinformação pode agravar o problema, mas a ausência de transporte, a dificuldade de locomoção ou a mudança de seção eleitoral não se resolvem apenas com campanhas de esclarecimento.

A disputa entre os candidatos tornou a participação eleitoral particularmente relevante. O efeito da abstenção não pode ser atribuído antecipadamente a apenas um deles. O resultado dependerá de quais eleitores comparecerem, de suas preferências e de eventuais mudanças de voto entre os turnos.

Enfim, a ausência eleitoral não constitui um fenômeno homogêneo. Ela pode expressar indiferença, protesto, alienação ou impedimentos materiais.

Do ponto de vista eleitoral, importa saber se a distribuição dos ausentes favoreceu proporcionalmente algum candidato. Do ponto de vista democrático, o problema é mais abrangente: por qual razão tantos cidadãos deixam de participar da escolha de seus representantes, inclusive em um país onde o voto é obrigatório para a maior parte dos adultos? Essa segunda pergunta é especialmente importante porque o abstencionismo pode revelar desigualdades no exercício efetivo da cidadania.

Em resposta, a democracia não se realiza plenamente apenas quando todos possuem formalmente o direito de votar, mas quando todos dispõem de condições efetivas para exercer esse direito. É necessária uma abordagem sistêmica da democracia: a participação eleitoral resulta da interação entre instituições, condições materiais, confiança política, informação e experiências individuais.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]. 

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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