
Quem diria: PT e PSDB incorporam a “maldição populista”
por Roberto Bitencourt da Silva
O “populismo” é um conceito sociológico, político e econômico demasiadamente controverso. Inúmeras e diversificadas abordagens teóricas, no curso de décadas, têm procurado identificar características e oferecer um sentido para esse termo linguístico, de largo uso nos meios jornalísticos, políticos e acadêmicos. Uma tarefa inglória e, não raro, improdutiva.
O conceito de “populismo” tem se prestado muito mais como um recurso desqualificatório do que um instrumento propriamente de análise. Para o que nos importa, em particular, serve como uma via para iluminar determinadas contradições políticas da encarniçada polarização PT/PSDB. Contudo, cada vez mais destituída de sentido.
Por conta da projeção alcançada pelos estudos da sociologia uspiana, nos anos 1960-70, o “populismo” foi uma palavra que “pegou” no jargão intelectual e político do país. Tomava por foco críticas dirigidas ao trabalhismo e ao comunismo do pré-1964, entre outros, ao estatismo, ao nacionalismo e ao anti-imperialismo destas correntes políticas.
O PT, em seu nascedouro e anos a fio, folgadamente mobilizava a categoria “populismo” visando demarcar, para si, um pretenso caráter politicamente “inovador” e “autêntico” no campo das esquerdas brasileiras. O comunismo do velho PCB e o trabalhismo brizolista e janguista postos na lata do lixo histórico.
Todavia, o mundo dá voltas. E não poucas. Para além do evidente fato de ser difícil hoje classificar ao PT como um partido de esquerda – devido ao seu neoliberalismo soft, a cada dia mais hard –, determinados traços do partido e do seu governo guardam não poucas semelhanças com uma versão clássica do “populismo”. Refiro-me, em particular, à interpretação dada pelo sociólogo argentino Jorge Graciarena, na longínqua década de 1960
Segundo Graciarena, o “populismo” tenderia a denotar um fenômeno político assentado em uma ideologia imprecisa, operando decisivamente com apelos emocionais entre líder “carismático” e “massas”. Em sua perspectiva, a adesão dos simpatizantes teria como base uma identificação emotiva – semirracional e mística –, sem apreço às ideias e à existência de um programa nitidamente delineado.
Nesse sentido, não é difícil afirmar que o PT submete, cada vez mais, qualquer princípio de esquerda à mera aspiração pelo poder político. Conta com frações importantes de adeptos que sempre buscam argumentos para defender ao partido e aos líderes (Dilma/Lula), à revelia de qualquer preceito político minimamente compatível com uma cosmovisão de esquerda.
A “mistificação populista” entre os adeptos petistas já ultrapassou, há tempos, a fronteira do razoável, ao esposar práticas e iniciativas de governo tipicamente neoliberais. O que FHC fazia era repudiado. Se for o PT tudo bem, é justificável. Um “populismo” 3.0 vitaminado.
Outro partido nascido na São Paulo dos escritórios e das instalações das corporações multinacionais é o PSDB. Metido a besta e portando certa capa intelectualizada teve e tem no “populismo” um anátema. Um conceito mobilizado pela retórica tucana, durante anos, que busca(va) caracterizar múltiplos males da sociedade brasileira: o “corporativismo sindical”, o “nacionalismo”, o “estatismo” e o “atraso econômico”.
O próprio Fernando Henrique Cardoso foi um dos teóricos representativos da teoria uspiana do populismo. Não gratuitamente, em seu discurso de posse, em 1995, alegava que seu governo tinha em vista “acabar com a era Vargas”. Privatizações e entreguismo despudorado foram a tônica de seus dois governos.
No entanto, de um anátema o “populismo” tem sido praticado compulsivamente pelo tucanato. Ao menos é o que a perspectiva de Ernesto Laclau nos permite avaliar. Para o cientista político, o “populismo” não possui ideias, conteúdos ou valores fixos. Trata-se, sobretudo, de uma “lógica política”, uma maneira de articular descontentamentos e demandas sociais contra as instituições estabelecidas, em circunstâncias de crise da capacidade do bloco de poder em acomodar ou responder insatisfações.
Dessa forma, pode o “populismo” ter uma faceta tanto de direita, quanto de esquerda. O “populismo” traduziria a formação de elementos antagônicos que simplificam e polarizam a vida política, permitindo mobilizar as pessoas, em torno da oposição a algo que se considera a causa dos males sociais. Uma superfície em que se pode caminhar e identificar problemas.
Considerando que visíveis “elementos antagônicos”, à direita, são um alegado “bolivarianismo” e uma presumida exclusividade da “corrupção” do PT, o “populismo” de natureza fascista tem se destacado bastante nas hostes tucanas. A vidraça vinga-se, de maneira irascível, da pedra.
Por outro lado, aos olhos da mídia hegemônica, especialmente das redações do jornalismo econômico, hoje o “populismo” encontra-se, principalmente, no nacionalismo de esquerda da Venezuela, da Bolívia, do Equador e, mais timidamente, da Argentina.
É a lógica econômica não subserviente às “forças do mercado” e a adoção de instrumentos políticos que dilatam a participação das classes populares o que, realmente, aí incomoda. Uma suposta “irracionalidade” política e economicamente antiliberal, nos moldes do conceito de “populismo econômico” preconizado por Bresser Pereira e outros economistas, na década de 1990. No Brasil dos nossos dias, não há partidos capazes de suscitar esse “fantasma” para a mídia.
No presente momento político brasileiro, o que mais preocupa com as aludidas e diferentes versões “populistas” de petistas e tucanos é, com base em reflexões do cientista político Valter Duarte, uma eventual, acachapante e tardia vitória plutocrática, oligárquica da São Paulo de 1932 sobre as conquistas nacionais derivadas da Revolução de 1930. Sobretudo, o pouco que nos resta, como a legislação trabalhista.
Roberto Bitencourt da Silva – doutor em História (UFF), professor da FAETERJ-Rio/FAETEC e da SME-Rio.
Publicado no Diário Liberdade.
Maria Silva
13 de agosto de 2015 11:57 amQuem é esse rapaz?
Não vou entrar no merito do texto por que não tenho espaço e não vale a pena tanto esforço. Mas quero registrar que não se fazem mais doutores como antigamente. Saudade de um Weffort … Esse rapaz mais parece um estudante raivoso e desorientado.
Baronato
13 de agosto de 2015 2:22 pmPois é.
Como escreveu Ângela de Castro Gomes: falar de populismo é sempre um risco…
Mas não mencionar Weffort numa discussão sobre esse conceito é estranho.
Inclusive para escapar dessa determinação fácil e esquemática do “carisma”. Mas se o autor prefere pegar referências daqui e dalí para aplicar no que se quer criticar, fazer o quê?
Caio Mauro
13 de agosto de 2015 3:03 pmPois é
“Saudades de um Weffort”…
Pois é, o mundo mudou, e as múmias de punhos de renda só servem para inspirar o passadismo melancólico de outras múmias prepotentes.
henry H
13 de agosto de 2015 12:27 pmPopulista…
… para qualquer politico, politiqueiro, politiqueirinho aqui na nossa Terra papagalis é sempre só o adversário!… demagogo também!…
bfcosta
13 de agosto de 2015 12:32 pm“O PT, em seu nascedouro e
“O PT, em seu nascedouro e anos a fio, folgadamente mobilizava a categoria “populismo” visando demarcar, para si, um pretenso caráter politicamente “inovador” e “autêntico” no campo das esquerdas brasileiras. O comunismo do velho PCB e o trabalhismo brizolista e janguista postos na lata do lixo histórico.”
Antes de assumirem o poder em nível federal era assim mesmo. Depois que assumiram o poder, tentaram resgatar alguns elementos do trabalhismo getulista, mais notadamente o oficialismo e culto à personalidade do líder, sem porém abraçar um projeto nacionalista de desenvolvimento que vislumbrasse a solução de defeitos congênitos da formação brasileira, como por exemplo a concentração de propriedades rurais, a desnacionalização da economia, etc. Nesse sentido, o que temos hoje é um trabalhismo amputado, que pouco tem a oferecer em termos de perspectivas futuras, mas se sustenta na medida em que o outro lado se mostra selvagem demais para o cidadão médio.
João de Paiva
13 de agosto de 2015 12:57 pmComecei a ler, fui me
Comecei a ler, fui me decepcionando. O profesor e doutor que assina este artigo usa a manjada técnica “uma no cravo, outra na ferradura”, com a pretensão de se mostrar crítico em relação a tudo e a todos atores da cena política brasileira. Mas o professor se esquece de que esse recurso, usado à exaustão por muitos dos que tentam posar de “críticos neutros”, encontra-se desgastado e não empresta credibilidade alguma aos que dele lançam mão hoje em dia. Na primeira parte do artigo, o professor faz duras críticas ao “populismo petista”. No 7º e 8º parágrafos o professor pensa que descobriu a roda, ao tentar demonstrar certa irracionalidade e emocionalidade dos que reconhecem o valor e defendem os líderes do PT. Balela! Desde quando Dilma é uma liderança petista? Dilma esteve no PDT até o ano 2000 e muitos dos líderes fundadores do partido a respeitam, mas não a idolatram ou simpatizam com ela; Dilma é respeitada e tolerada por causa de Lula. Lula, sim é o fundador e o grande líder do PT.
Se dependesse do carisma pessoal, Dilma Jamais seria eleita (muito menos reeleita) presidente da república. Dilma nunca havia disputado eleição. Ora, isso desmonta toda a pretensa argumentação do professor, acerca do “populismo petista”. O PT, com todos os defeitos que possui, é um partido popular, ideológico. Os que votaram em Dilma não o fizeram devido ao carisma pessoal, simpatia, oratória ou outro atributo “populista” que se possa associar à atual presidente. O voto que elegeu e reelegeu Dilma foi no partido, no programa do partido, na ideologia do partido. Dilma jamais se elegeria se fosse candidata por qualquer outra legenda. O professor deve observar o futuro político de Marta Suplicy. Marta, após mais de 3 décadas, desfiliou-se do PT, fazendo críticas oportunistas. Ela só teve projeção política devido ao partido e ao ex-marido Eduardo Suplicy; Marta não teve dignidade de abrir mão do sobrenome Suplicy, mesmo depois da traição e da separação do casal. Em 2010, Marta se elegeu senadora, pelo PT. O professor acredita que Marta é uma grande líder ou uma liderança do “populismo petista”? Espere, viva, observe e verá! O professor acredita que Marta possui capital político próprio para retornar à prefeitura de São Paulo? Antecipo a resposta: não.
Eu abri meu comentário apontando o uso da manjada técnica “uma no cravo, outra na ferradura” porque a partir do 9º parágrafo o professor passa a criticar o “populismo tucano”. Embora o professor erre menos nas críticas ao PSDB e seus líderes, ele não deixa de cometer algumas injustiças e omissões. Dois dos principais líderes e fundadores do partido não são sequer mencionados: André Franco Montoro e Mário Covas. Nunca fui simpatizante ou eleitor do PSDB, mas considero uma injustiça omitir duas lideranças históricas do partido e sintetizar a agremiação política apenas na figura de Fernando Henrique Cardoso. Aliás, FHC é fraco, não é lider.
Depois o Professor faz críticas pertinentes aos meios de comunicação comerciais, tanto em relação ao enfoque dado por eles aos partidos da esquerda brasileira, como em relação à abordagem dada pela “mídia comercial” aos governos de esquerda latino-americanos.
Por fim o professor alerta para o risco da “são-paulização” do Brasil, se a plutocracia paulista retomar o poder no Planalto. O último parágrafo é uma boa síntese, mas não redime o autor dos diversos erros de análise contidos no artigo.
Clever Mendes de Oliveira
13 de agosto de 2015 4:33 pmÓtima crítica ao texto do professor Roberto Bitencourt da Silva
João de Paiva (quinta-feira, 13/08/2015 às 09:57),
Concordo com o que você disse e vou tentar acrescentar mais algumas considerações sobre este texto.
Primeiro desconfio de qualquer um que utilize o termo populismo. Se for acadêmico o termo só é usado para criticar, mas talvez exista algum teórico que utilize o termo para elogiar o populista. De todo modo já existe certa predisposição na sociedade contra aquele que é acusado de populista e assim quando se usa o termo está fazendo uso desta predisposição para atingir quem está sendo acusado. Um político fazer isso é correto politicamente, isto é, se não existe lei que o impeça de fazer acusações assim e essas acusações dão retorno eleitoral, só o político tapado é que não faz uso dessas acusações. Agora um acadêmico que aja assim para mim revela apenas fragilidade de argumentação.
O texto saltando o título inicia de modo primoroso, pois a primeira frase é, pode-se dizer, factual: “O “populismo” é um conceito sociológico, político e econômico demasiadamente controverso”. A partir daí, o professor incorre nos mesmíssimos estereótipos que se viam nas antigas críticas ao populismo. Fez-me lembrar o Clóvis Rossi que em uma crônica definiu o populismo como cafonice e dizia que as casas na Venezuela eram cafonas para acusar o governo de Chaves de populista.
A mídia usa o termo utilizando a predisposição que já existe na sociedade para desacreditar os adversários da mídia. Já o acadêmico elabora mais o seu argumento para o termo servir como acusação. Assim ele molda o conceito de populismo e molda aquele que ele vai acusar de populismo de forma a que haja a perfeita subsunção. É quase um estelionato acadêmico.
Considero que um termo mais apropriado para acusar um político deveria ser o de demagogo. E como há muito tempo eu fazia essa crítica aos que usavam o termo populismo como forma de acusar algum político (Eu era crítico do PT de antigamente justamente pelos textos de Welffort), eu passei a dizer que o demagogo é o populista sem carisma (Eu utilizo muito o termo demagogo para Fernando Henrique Cardoso) e populista, quando se trata de um político que promete aquilo que o povo quer ouvir, seria o político demagogo que tinha carisma.
Dá para falar mais sobre esse assunto, mas deixo para depois
Clever Mendes de Oliveira
BH, 13/08/2015
NICKNAME
13 de agosto de 2015 3:23 pmuma (tentativa): Frente Democrática (mesmo com imperfeições)
se li bem(vi,ouvi) nesses dias Carlos Araújo,2 títulos e Brasilianas,defendeu uma união nacional contra o pior.O texto acima e alguns comentaristas vão atrás pq (talvez) seja assinado pelo Blog/Equipe.Postei José A. Giannotti,tb o citei,assim como disse q é uma honra ter-se uma adversária como Marina Silva.Um ou outro me chamou de tucano infiltrado,outros (não sei,é hipótese)podem achar marinóide.Defendi o q grosseiramente,herança de movimento estudantil e cartilhas,conciliação de classe e reformismo (Carlos NelsonCoutinho, v. youtube) fala disso, pensador e cutucador.Um reles Nickname se diz algo parecido no máximo recebe 0 (zero) estrelinhas…
NICKNAME
13 de agosto de 2015 3:25 pmMarina Silva, FHC, setores espalhados e fora de partidos
1 ) – É idílio propor e se pensar em Frente de Esquerda (que não se unem sequer dentro de um minúsculo ou maior partido tido como tais).
2 ) – Uma Frente Democrática pode englobar setores prograssistas. (continua…)
NICKNAME
13 de agosto de 2015 3:26 pm– E, afinal, o conceito de “classe” é muito discutível
3 ) – E, afinal, o conceito de “classe” é muito discutível pra quem sai das cartilhas. discutível entre os próprios (estudiosos) marxistas. Bobagens criticar o que chamam de conciliação de classes e os tempos e realidades mudam: são de reformas de pensamentos, respeitando os clássicos, que precisamos. Mas não na blogosfera, não nas leituras e artigos de comentaristas inteligentes. Há muito tempo, por segunda mão, um marxista russo já falava que há textos de Marx falando em “Proletariado em Conjunto”, abrangendo empregados de escritórios, profissionais liberais, “pequena-burguesia”.