Quem promoveu a concentração bancária no Brasil, por Andre Motta Araujo

A concentração bancária é parte desse processo de congelamento do sistema econômico em uma estabilidade de cemitério, onde CRESCIMENTO É PERIGOSO.

Quem promoveu a concentração bancária no Brasil

por Andre Motta Araujo

Em 1994 o Governo FHC entregou o comando da política econômica a um grupo de “economistas de mercado” chamado o “Grupo do Real” que, desde então, passados 25 anos, controla sem interrupção o coração da economia, o Banco Central. Um dos objetivos desse grupo sempre foi a CONCENTRAÇÃO BANCÁRIA, em nome do afastamento do risco sistêmico, considerando que bancos fortes seria melhor para o Brasil, sem pensar no lado negativo, tornar o sistema bancário um conjunto de cada vez menos bancos. Hoje economistas neoliberais “fingem” que o fenômeno foi espontâneo e atribuem a esse fator a impossibilidade de reduzir os juros na ponta do tomador de crédito. A formação desse cartel deve ser colocada INTEGRALMENTE na conta da política neoliberal que, desde então, comanda o Banco Central porque não era essa a arquitetura do sistema bancário brasileiro até então.

Manter esse grupo no controle do BANCO CENTRAL foi o maior erro dos governos do PT e responsável pela recessão e seus efeitos políticos no impeachment da Presidente Dilma, a torre de comando da economia no Banco Central provocou a recessão e a mantém pela obtusa política monetária que opera exclusivamente com o objetivo de manter a inflação na meta, sem qualquer objetivo de crescimento e emprego.

A concentração bancária é parte desse processo de congelamento do sistema econômico em uma estabilidade de cemitério, onde CRESCIMENTO É PERIGOSO.

OS BANCOS ESTADUAIS E O PROER

O eixo do processo de concentração bancária que se inicia no Governo FHC foi o Programa PROER, de novembro de 1995, que a PRETEXTO  de higienizar o sistema bancário, LIQUIDOU com os bancos estaduais, alguns tradicionais e de grande porte, usando como pretexto irregularidades formais que em grandes países JAMAIS JUSTIFICARIAM O FECHAMENTO DE BANCOS.

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Na Europa e EUA grandes bancos tem ciclos de problemas de liquidez e créditos ruins, o que só em circunstâncias excepcionais justificam a destruição do ativo representado por uma grande rede de agências, sistemas operacionais em funcionamento, nome, capacidade de emprestar que um banco tradicional constrói atravessando décadas ou até séculos.

O PROER custou ao País cerca de 2,5% do PIB, a preços de 2019 seriam R$175 bilhões, MAS porque gastar e liquidar os bancos? Podiam ser gastos os mesmos valores e manter os bancos abertos e operando, alguns sob intervenção ou gerência do Banco do Brasil, trocando o grupo de controle, como se fez nos EUA em várias de suas recorrentes crises bancárias.

O caso do BANESPA é emblemático, pela sua dimensão e importância jamais deveria ter sido vendido a grupo estrangeiro, hoje um dos três do cartel de bancos, da mesma forma o BAMERINDUS, banco de interior com grande capilaridade de agências em pequenas cidades, empurrado para o HSBC que depois o revendeu ao BRADESCO, aumentando ainda mais a concentração. Ninguém ganhou com esse processo, nem os clientes, nem o País, nem a produção, só o cartel de bancos que tem os MAIORES LUCROS BANCÁRIOS DO MUNDO, sobre ativos, sobre patrimônio líquido, sobre carteira de crédito MESMO EM PLENA RECESSÃO, o Santander, um dos cinco maiores bancos do mundo e maior banco da Europa, se incluído seu controlado Royal Bank of Scotland, tem no Brasil 27% de seus lucros mundiais, embora tenha no Brasil apenas 8% de seus ativos, o que mostra uma completa disfuncionalidade do sistema bancário brasileiro,  grande gerador de lucros só para si, sem servir ao País, sem estimular a produção, um sistema tão ruim que gerou 63 milhões de inadimplentes, a maior taxa do mundo em relação a população.

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UMA POLÍTICA COM PREMISSAS ERRADAS

A política de concentração viu apenas um aspecto, a diminuição do risco sistêmico e não viu outro lado, fundamental, A CONCENTRAÇÃO DIMINUI A CONCORRÊNCIA E PERMITE A CARTELIZAÇÃO, um efeito que trabalha CONTRA O CLIENTE. Hoje, o processo resultou no MAIOR SPREAD BANCÁRIO DO MUNDO. O custo de empréstimos no Brasil não tem paralelo e trava a economia, o SPREAD MÉDIO NA EUROPA é de 1,5% sobre a taxa básica, aqui é no mínimo de 20% e pode chegar a 300% no caso de cheque especial e cartão de crédito.

A concentração não afeta apenas os custos do crédito, afeta a própria oferta de crédito. Com poucos bancos diminui a CONCORRÊNCIA na oferta de crédito, as empresas não recebem mais a visita de gerentes oferecendo linhas, como era comum antes de 1994, hoje as empresas precisam se ajoelhar nas antessalas dos bancos, os bancos não precisam mais de gerentes ativos, o cliente vem até o banco como pedinte, a concorrência é um faz de conta.

UM DESASTRE NEOLIBERAL

A concentração bancária no Brasil partiu de um projeto neoliberal com cores antinacionais. O Ministro da Fazenda da época achava que bancos estrangeiros no Brasil seriam ótimos para aumentar a concorrência, se enganou redondamente. Os bancos que vieram, Santander e HSBC, praticam exatamente as mesmas taxas de juros que seus concorrentes nacionais, não ajudaram em nada a oferta de crédito barato no País, a ideia foi pura IDELOGIA basbaque, tola, antinacional, mais um engano neoliberal, o sistema bancário brasileiro é uma DAS CAUSAS DA ESTAGNAÇÃO DO CRESCIMENTO.

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O redesenho do sistema bancário brasileiro, que antes de 1994 tinha 600 bancos, com nomes históricos como Província do Rio Grande do Sul, Comércio e Indústria de Minas Gerais, Indústria e Comércio de Santa Catarina, Banco de São Paulo, Banco da Bahia,  grandes bancos estaduais como Estado de Minas Gerais, Estado do Rio de Janeiro, antigo BEG, por sua vez sucessor do Banco da Prefeitura do Distrito Federal S.A., Banco do Estado do Paraná S.A.

No caso dos bancos estaduais o processo de liquidação foi IDEOLÓGICO, os neoliberais têm horror a bancos públicos, que existem em larga escala na Europa, especialmente na Alemanha. Nos EUA ao lado do sistema comercial privado há bancos enormes sob a forma pública de CREDIT UNIONS, alguns com ativos de mais de 60 bilhões de dólares, como os da Marinha dos EUA, que fazem todas as operações de crédito.

O Brasil, pelo seu tamanho, comporta bancos privados e públicos. A economia precisa dos dois modelos. Foi um absurdo promover a concentração bancária por ação de Governo e hoje pagamos um alto preço por essa política ERRADA, produzida por ‘economistas de mercado”, mais um dos mega erros da ideologia neoliberal para um pais em desenvolvimento, hoje o Brasil tem o SISTEMA BANCÁRIO MAIS CONCENTRADO DO MUNDO e toda a produção travada por falta de crédito.

AMA

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18 comentários

  1. Imagina só se o PT, PT, PT coloca no comando da economia e do BC economistas que não fossem aceitos pelo mercado… Não passaria nem do primeiro ano!

    É engraçado, o Partido dos Trabalhadores jamais teve sequer 1/6 do Parlamento; viveu a vida toda sob patrulhamento ideológico da mídia e dos demais partidos de dereita; a qualquer movimento, logo o “mercado” ficava “nervoso”, falava-se em “stalinismo”, “intervencionismo”, “União Soviética”, “Cuba”…Mas as pessoas fazem força pra esquecer, falam dos “erros”, disso, daquilo, sem perceber, inclusive, como chegamos aos estado atual, nessa cruzada moralista e antissocial: foram décadas de pregação diária, diuturna; não adianta, nao acrescenta, é perda de tempo olvidar isso.

    Seria bom se chegassem HONESTAMENTE a um ponto final, ou PT, PT, PT, conciliou demais ou é “radical”. Os dois, não dá. Ora um, ora outro, muito menos.

    • O mercado aceita a realidade em qualquer lugar, há um grande grupo de economistas sérios e
      ecleticos no Brasil de hoje como havia no Brasil de 2003, economistas sólidos que não operaram
      com IDEOLOGIA neoliberal e sim com manejo da realidade, o mercado não tem como não aceitar.
      é o Estado que deve se impor ao mercado e não o contrario. O exemplo classico é Delfim Neto,
      que é um economista transversal, das circunstancias, estatista e mercadista ao mesmo tempo.

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  2. AMA,AMA,AMA eu sempre quis saber quem era o responsável por esta situação degradante “jurística”(de juros) no Brasil,valeu,agora,mesmo lendo não ficou muito claro pra mim ,talvez faltou mais informações ou terei.q ler de novo,tenho uma dúvida (de várias)vc disse Q SE GASTOU PRA VENDER,como assim?É isso mesmo,não entendí!
    Obs:Por favor se possível faça uma série histórica sobre bancos e juros no Brasil pois eles são insaciáveis querem cobrar e lucrar por tudo e nós brasileiros do povão merecemos saber direito quem são eles e pq fazem isso td !!VIVA O BRASIL !!!!

  3. Permita-me:
    “Manter esse grupo no controle do BANCO CENTRAL foi o maior erro dos governos do PT…”

    Não um erro, uma condição!

  4. Hoje estes 2 ou três bancos, isto não é um sistema, investem em massiva propaganda no empreendedorismo como solução para o desemprego e o desaparecimento dos empregos qualificados da extinta industria nacional. Com estas taxas de juros trata-se apenas de ideologia, só ideologia. E muita gente vai pedalar muito pra fazer entrega em nome desta ideologia.

  5. André, acredito que poderia ter mencionado como a “governança política” atrapalhava, e muito, o desempenho dos bancos estaduais.

    • Sim, houve erros de gestão em alguns periodos mas o BANESPA cresceu e se tornou um dos 200 maiores bancos do mundo em 1990 (lista da revista britanica The Banker), sua sede é um ícone de S.Paulo aé hoje, o clube dos funcionarios um dos melhores do Brasil, entre 1950 e 1990 foi o principal banco financiador da pequena e média empresa no Estado de S.Paulo, financiava a juros muito baixos
      a guia de pagamento de ICMS, o que benefiava a arrecadação do Estado, deveria e poderia ser saneado e MANTIDO como banco publico e não ser vendido a um banco estrangeiro.

  6. Privatarias de FHC. Erro gigantesco que condenou o Brasil há 3 décadas. E estamos novamente com o mesmo discurso? Com os mesmos projetos? XP’s e Insper’s da vida oferecendo privatizações ao sistema internacional como nossa “nova saída”. É a completa surrealidade !!! O senso do cidadão comum demonstrado nas palavras de um Especialista, de uma pessoa que vive dentro do sistema, que conhece todas as instâncias da história e do poder. Estão todas aqui neste Veículo, nas suas matérias. Mas onde está a Oposição, a revolta, a contrariedade, o caminho óbvio e acertado num Nacionalismo globalizado com as cadeias internacionais? Nossa parte dentro de um Comércio Internacional? Quando trataremos Nossa Bipolaridade? Quando extinguiremos Nosso AntiCapitalismo de Estado? O sr. escreve e descreve todo caminho real, testado, palpável. E na matéria ao lado, todo ranço anticapitalista ilusório de doutrinação ideológica castrista dos anos 50. Chega a ser inacreditável. Gudin replicado por décadas e décadas. E buscaremos o sucesso e laranjas em abacateiro. Garantem. Katia Abreu, ‘Rainha da Motoserra’, mas a última a afundar juntamente com Dilma e PT, enquanto milhares de ratos vermelhos já haviam abandonado o barco, afirmava que a concentração de Grandes Grupos monopolizaria o Mercado, inviabilizando o AgroNegócio. Capitalista como o Capitalismo de ser. Agora vemos grandes Frigoríficos, querendo manter o preço das carnes em alta artificial. O que dizia Katia Abreu há anos atrás? O Articulista mostra os erros óbvios e crimes de lesa-pátria que já foram praticados. E estamos novamente querendo cometer os mesmos crimes?!!! Numa Indústria da Miséria, da Pobreza, do Analfabetismo, da Burocratização, da Criminalização que parece que Nos mantém em coma permanente. É conversa entre surdos. É a Pátria da Surrealidade. Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação.

  7. Concordo com a análise.
    Apenas uma dúvida que sempre tive.
    Se os lucros são tão altos, por que os bancos estrangeiros (além do Santander) não entram no mercado nacional?

  8. Os donos de bancos de hoje sao o equivalente aos donos de escravos na época do Império. O poder sem limite desses dois tem impedido o Brasil de passar da condição de um país grande para um grande país.

  9. Há muito tempo falei aqui, que veríamos o nosso AA se tornar um grande comunista.
    Pois bem, fui profético. :-)))

    Brincadeira Andre. Continuo lendo-o e admirando-o, mesmo sendo do outro lado, né.

  10. Alguns anos atrás, o jornalista Aloysio Biondi, já falecido, autor do livro “Brasil Privatizado – Um Balanço do Desmonte do Estado”, foi entrevistado numa rádio de Salvador (BA) e falou sobre esse assunto, analisando a privatização do BANEB (Banco do Estado da Bahia), que terminou nas mãos do Bradesco.
    De uma forma resumida, segundo Biondi, antes de ser “torrado nos cobres”, o banco estadual teve resolvido todos os seus contenciosos, inclusive trabalhistas, arcando com um “prejuízo” no seu balanço, para em seguida ser entregue ao comprador por um valor que foi descontado no seu imposto de renda, de tal forma que todo o patrimônio adquirido, incluindo bases físicas, carteira de clientes, etc., saíram de graça para o Bradesco.
    O governador de então era Paulo Souto, do PFL, correligionário de Antônio Carlos Magalhães.
    Repercussão desse escândalo? Zero. Simples assim!

  11. Caro André,
    Permita-me discordar em alguns pontos. Quem promoveu a concentração bancaria no Brasil foi o próprio BACEN. Na aurora da promulgação da Constituição Federal, ele publicou a famigerada Resolução 1524, em 21.09.1988, permitindo fusões e incorporações de empresas integrantes de diversos segmentos da economia. Cientes de que o artigo 192 da Constituição Federal exigiria lei complementar para tratar da regulamentação do Sistema Financeiro, o Conselho Monetário Nacional, sob o lobby da FEBRABAN, antecipando-se à promulgação da Constituição, 14 dias antes publicou a malfadada Resolução 1.524, eliminando qualquer restrição à formação dos grandes conglomerados. O refinado Presidente sociólogo simplesmente tratou de aprofundar a concentração via PROER e PROES. Legitimou a maldade dando parecer favorável ao BANCEN no Conflito positivo de competência entre o Banco Central do Brasil e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica – Parecer GM 020 (http://www.agu.gov.br/page/atos/detalhe/idato/8413), dando o seguinte despacho: “Conclusão pela competência privativa do Banco Central do Brasil para analisar e aprovar os atos de concentração de instituições integrantes do sistema financeiro nacional, bem como para regular as condições de concorrência entre instituições financeiras e aplicar-lhes as penalidades cabíveis”. Tal ato era privativo do CADE e foi ilegalmente fundamentado numa lei de legalidade duvidosa (Lei 4.595/64). A manutenção do grupo a que você se refere, a mim parece que não foi um erro do PT. Foi uma estratégia para que o Lula pudesse tomar posse, que ao que parece, estava condicionado ao cumprimento do contratos (ou seja, cumprir as determinações da FEBRABAN). O livro “18 Dias”. Do Matias Spektor relata, de forma velada, esta condição. No mais, concordo integralmente com você. A miserável política neoliberal consagrada nas 10 regras do Consenso de Washington é uma desgraça para o Brasil.

    • Spektor contou uma estoria parcial sobre a aceitação de Lula por Washington e Wall Street. Omitiu
      partes importantes que antecederam as eleições de 2002, quando Bush já tinha tido contatos com o PT através de Otto Reich, então Subsecretario de Estado, em SP, as reuniões foram na minha casa,
      Spektor sabia disso e omitiu, mas os relatorios estão no Wikileaks, copiados no State Dept.

    • Caríssimos Aparecido e André,

      A concentração bancária no Brasil, em verdade, começou com a lei 4.595, de 31 de dezembro de 1964, que regulou todo o sistema financeiro e criou o conselho monetário nacional.
      Essa lei foi amplamente utilizada por DELFIM NETO para promover a aglutinação de vários pequenos bancos regionais em bancos maiores e somente no final da década de 80 e depois com o proer foi concretizada.
      Isso também foi aplicado pelo COLLOR quando acabou com Banco Nacional de Crédito Cooperativo que praticamente terminou com as cooperativas de crédito rurais e urbanas. Em vários países europeus há milhares de cooperativas de crédito e vários bancos cooperativos a exemplo do Rabobank(https://pt.wikipedia.org/wiki/Rabobank) nos países baixos e do Credit Agricole na França. Também nos EUA e Canadá boa parte do financiamento agrícola é realizado pelas cooperativas de crédito e seus bancos.
      Essa é uma ótima opção para o BRASILLLLLLLLLL, sem dúvida, só falta o BACEN deixar porque é ele quem dá a autorização para funcionamento das cooperativas de crédito e seus bancos.

  12. Entrei no Banespa em 1985, durante uma grave crise econômica, com saques em mercados e tentativas de invasão do Palácio dos Bandeirantes. Montoro mandou aumentar o número de vagas no concurso público. Eram 3200 vagas para 216.000 inscritos. Ele passou para 7 mil vagas. Eu entrei. Hoje vejo bancos tendo bilhões de lucros num trimestre e mandando gente embora, tudo em nome do mercado.

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