15 de junho de 2026

Recuperação de áreas degradadas, por Heraldo Campos

Pode-se dizer que os processos erosivos podem ser abordados de duas maneiras: a erosão natural ou geológica.
Fac-símile da capa do estudo “Controle da Erosão: bases conceituais e técnicas. Diretrizes para o planejamento urbano e regional. Orientações para o controle de boçorocas urbanas”, elaborado pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) & Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e publicado no ano de 1989.

1. Recente encerramento da COP30 em Belém do Pará destaca a importância da recuperação de áreas degradadas por processos erosivos.

2. Processos erosivos podem ser naturais ou acelerados, influenciados por fatores como traçado viário inadequado e expansão urbana descontrolada.

3. Medidas corretivas para controle da erosão incluem proteção vegetal, valetas revestidas e estruturas de captação de águas superficiais.

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Recuperação de áreas degradadas

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por Heraldo Campos

Nesses tempos de mudanças climáticas e com o recente encerramento da COP30, realizada em Belém do Pará nesse mês de novembro de 2025, uma pergunta que poderia ser deixada no ar, entre outras, seria: quais são os procedimentos para recuperação de áreas degradadas por processos erosivos lineares do tipo das voçorocas e de ravinas que ocorrem em nosso país e em outras partes do mundo?

Lembremos que “A erosão é o processo de desagregação e remoção de partículas do solo ou de fragmentos e partículas de rocha, pela ação combinada da gravidade com a água, vento, gelo e/ou organismos”. [1]

De um modo geral, pode-se dizer que os processos erosivos podem ser abordados de duas maneiras: a erosão natural ou geológica que se desenvolve em condições de equilíbrio com a formação do solo e a erosão acelerada ou antrópica cuja intensidade, sendo superior à formação do solo, não permite a sua recuperação natural.

Assim, dentre as principais causas do desencadeamento e evolução dos processos erosivos nas áreas urbanas, podem ser destacados o traçado inadequado do sistema viário, muitas vezes agravado pela falta de  pavimentação, guias e sarjetas; a deficiência do sistema de drenagem de águas pluviais e servidas (tanto na forma de captação e dissipação) e a expansão urbana descontrolada, com implantação de loteamentos e conjuntos habitacionais em locais não apropriados, sob o ponto de vista geotécnico e agravado pela deficiência de infraestrutura. 

No caso do processo erosivo do solo ser deflagrado pelas chuvas, por exemplo, esse processo compreende basicamente os mecanismos do impacto das águas das chuvas, que provoca a desagregação das partículas, a remoção e transporte pelo escoamento superficial e a deposição dos sedimentos produzidos, formando depósitos de assoreamento.

Dependendo da forma em que se dá o escoamento superficial ao longo de uma vertente ou encosta, podem ser desenvolvidos dois tipos de erosão [2] como a erosão laminar ou em lençol, causada pelo escoamento difuso das águas de chuva, resultando na remoção progressiva e relativamente uniforme dos horizontes superficiais do solo e a erosão linear, causada por concentrações das linhas de fluxo das águas de escoamento superficial, resultando em pequenas incisões na superfície do terreno, em formas de sulcos, que podem evoluir por aprofundamento para ravinas. 

Caso a erosão se desenvolva não somente por influência das águas superficiais, mas também pela influência dos fluxos de águas subsuperficiais, em que se incluem o lençol freático, configura-se o processo mais conhecido por boçoroca ou voçoroca [3]. Desse modo, uma boçoroca pode ser um cenário de diversos fenômenos como a erosão superficial, a erosão interna, os solapamentos,  os desabamentos e  os escorregamentos, que se conjugam no sentido de dotar esta forma de erosão de elevado poder destrutivo.

Nesse cenário, comumente, observam-se as ravinas e as boçorocas de grande porte associadas a estradas e entre as medidas corretivas mais recomendadas para o controle da erosão em estradas destacam-se a proteção vegetal, executada ao longo da plataforma, nos cortes e aterros e  áreas adjacentes, sujeitas a processos erosivos; as valetas/canaletas revestidas ou gramadas, executadas em todos os locais de  concentração de água; os bueiros, construidos com tubos de concreto, alvenaria, aço, etc., em travessias de  pequenas drenagens; o abaulamento transversal da pista de rolamento, que impede o empoçamento ou escoamento das águas de chuva ao longo da pista; as sangras laterais, construídas acompanhando as curvas de nível do terreno e os dissipadores de energia, construídos em locais sujeitos a fluxo d’água.

Pelo exposto, na elaboração de um projeto [1] para a recuperação de uma área degradada por um boçorocamento, as alternativas de obras devem contemplar, pricipalmente, o disciplinamento das águas superficiais e das águas subterrâneas, o retaludamento/aterramento da boçoroca e a implantação e conservação das obras.

As principais estruturas utilizadas para o disciplinamento das águas superficiais são as estruturas de captação e condução das águas superficiais e as estruturas de combate e dissipação de energia hidráulica. No caso das águas subterrâneas, o tratamento convencional para a ação das águas subterrâneas é feito com a aplicação de drenos enterrados, com filtro, visando impedir a remoção de partículas do solo.

O retaludamento e aterro da boçoroca são obras complementares, cuja finalidade é estabilizar os taludes contra a erosão promovida pelas águas de chuva e possíveis escorregamentos. A conservação das obras pede inspeções periódicas para verificação das condições das estruturas hidráulicas e monitoramento específico para avaliar o funcionamento de drenos e filtros.

“O mundo é um livro, e quem fica sentado em casa lê somente uma página.” Santo Agostinho.

Fontes consultadas no apoio para elaboração do presente texto:

[1] ABGE (Associação Brasileira de Geologia de Engenharia). 1998. Geologia de Engenharia. São Paulo, ABGE, 586p.

[2] ABGE (Associação Brasileira de Geologia de Engenharia) & IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas). 1995. Geologia Aplicada ao Meio Ambiente. São Paulo, ABGE & IPT, Série Meio Ambiente, 247p.

[3] DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica & IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas). 1989. Controle da Erosão: bases conceituais e técnicas. Diretrizes para o   planejamento urbano e regional. Orientações para o controle de boçorocas urbanas. São Paulo. DAEE & IPT.

Heraldo Campos é geólogo (Instituto de Geociências e Ciências Exatas da UNESP, 1976), mestre em Geologia Geral e de Aplicação e doutor em Ciências (Instituto de Geociências da USP, 1987 e 1993) e pós-doutor em hidrogeologia (Universidad Politécnica de Cataluña e Escola de Engenharia de São Carlos da USP, 2000 e 2010).

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