Se depender do Trump, a campeã do mundo vai ser a Coréia do Sul, por Armando Coelho Neto

Foto AC 24 Horas – modificada

Se depender do Trump, a campeã do mundo vai ser a Coréia do Sul

por Armando Rodrigues Coelho Neto

Não importa o placar de hoje entre Brasil e México. Este é um texto que talvez nem venha a ser lido, pois tanto um resultado positivo quanto negativo distanciará o leitor de desta peça. Copa do Mundo 2018 está unida ao meu entusiasmo zero e tem retrogosto de amargura. Sou um ser absolutamente coletivo, que mesmo ateu graças a Deus, se emociona até com procissão. Carnaval, futebol, manifestações políticas me atraem e tudo isso vira incômodo ao falar de Copa do Mundo. Há alguns anos, minha sobrinha Ana Lu me contou seu desencanto ao descobrir que Coelho da Páscoa não existe. “Eu não acredito mais, tio, mas é muito triste não acreditar. Faço tudo como quem acredita por que é bonito estar junto das outras crianças que acreditam”.

Copa do mundo já foi Copa do mundo para mim, até se transformar, por incontáveis motivos, no coelhinho da Páscoa de minha sobrinha. Já nessa fase, as vitórias dos jogos, sendo ou não campeão, já traziam o azedume das trapaças conhecidas como as que envolvem a Fifa, Conmebol, Concacaf e empresas de marketing. Também me vem à mente a trambicagem da Rede Globo, que consegue comprar exclusividade na base da propina. Do mesmo modo, ainda que involuntariamente, me ocorre a lembrança de delegados da moralista Polícia Federal, fazendo convescote na Granja Comari, enquanto rolava inquérito contra Ricardo Teixeira na PF.

Não custa lembrar que onde rola propina sempre cabe um corrupto a mais, sobretudo se o novo corrupto pode aumentar os lucros. Também não me foge da ideia a associação entre futebol e política. Os militares capachos do Tio Sam deram literalmente uma Copa para Argentina e há sim, outras versões, conspiratórias ou não sobre o direcionamento da taça. O treinador João Saldanha, por exemplo, foi demitido da seleção às vésperas da Copa de 1970, por não aceitar interferência do regime militar em sua escalação. “Ele (o ditador Médici) escala o ministério, eu convoco a seleção”. João Havelange, então presidente da CBD, admitiu tempos depois que despedira Saldanha por imposição de Médici. 

Médici, aliás, tinha razões de sobra para não gostar de Saldanha. Ao que consta, durante o sorteio dos grupos da Copa de 1970, aquele técnico teria montado um dossiê noticiando mais de 3.000 presos políticos, centenas de mortos e torturados e entregou a autoridades internacionais. Saldanha era muito popular e num caso de vitória da seleção, o regime estaria enchendo a bola de uma “esquerdista”.

Não duvido, pois, que na onda do inexplicável (ou talvez até explicável) que a taça possa vir para o Brasil, nesses tempos de golpe. Sequer posso aquilatar que benefício esse ópio possa trazer aos golpistas. Pesquisas mostravam até pouco desinteresse do brasileiro pela Copa. O interesse mais visível estava, até então, nos donos de bares, restaurantes  e vendedores de camisetas e vuvuzelas. Mas, as vitórias têm lubrificado o crescimento da euforia.

Quem lida politicamente com paixões populares sabe bem disso. No último jogo da seleção contra a Sérvia, ouvi de um manobrista: “agora sim vai dar pra trabalhar. Quem ia conseguir trabalhar se o Brasil perdesse. Com o país do jeito que está, a gente bem que o Brasil podia ganhar”. Obvio que isso não é amostragem científica, mas é o sentimento presumível do que rola por aí. Na Rua da Consolação, um grupo de funcionárias de telemarketing comemorava a eliminação da Alemanha. Feliz, uma delas perguntou: “Será que agora sem a Alemanha a gente ganha a Copa?”

Numa construção civil, tive a oportunidade de examinar um bolão de trabalhadores humildes. O vencedor vai ganhar apenas R$ 250,00. Dei uma olha nos palpites e só encontrei otimismo e esperança. Os resultados mais pessimistas eram dois empates. A piãozada não trabalha com a ideia de derrota. Posso presumir, pois, que as engenharias sociais trabalhem com esse imaginário. Ao mesmo tempo, prato cheio para quem manipula o povo por meio de novelas, telejornais distorcidos, mobilizações antipatrióticas travestidas de nacionalistas nada disso passa despercebido.

Perdido nesses prolegômenos, minha atenção foi atraída por uma matéria sobre um zagueiro da equipe do México, Rafael Márquez, que não pode usar patrocínio. Segundo o jornal, o atleta está na lista de pessoas sancionadas pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos por supostas ligações com organização de tráfico de drogas. Ele está proibido até de beber a mesma marca de água dos companheiros de equipe e tem que treinar com uniforme diferente. As empresas patrocinadoras, em especial as americanas, querem ficar longe da imagem do jogador, diz o The New York Times.

O episódio de Márquez é mais um ato de hipocrisia que une o falso moralismo dos organizadores e seus larápios patrocinadores. E, por falar em moralismo e hipocrisia, em plena Copa do Mundo, um moleque de recados do Tio Sam, o vice Mike Pence, vem ao Brasil, estranhamente preocupado com refugiados venezuelanos no Brasil. É intrigante demais para quem está engaiolando crianças separadas dos pais na fronteira do México. É uma bola na trave, mas se depender do Donald Trump, a grande campeã de 2018 vai ser a Coréia do Sul…

Armando Rodrigues Coelho Neto – jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo

 

4 Comentários

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Maria Luisa

- 2018-07-02 14:55:04

Futebol é uma distração muito bem utilizada

Eu sigo torcendo pelo Uruguai, que destroçou o coração do Cristiano Ronaldo :) que se junta ao Messi num porre pelo que podia ser. Mas no fundo é uma tristeza ver a seleção brasileira sempre utilizada na manipulação das mentes e corações dos brasileiros.

alexis

- 2018-07-02 12:43:22

A mesma entrega do jogo..

Apenas mudou a doença ou desculpa criada para preservar o craque do momento

O Gordómeno vomitou de noite (segundo eles) e o Neymar quebrou a coluna no meio e ressucitou no dia seguinte, inteirinho.

Nesta copa, como Alemanha sabia que não podia ganhar novamente, entregou as pontas rapidinho, numa clara forma de protesto, como o 7x1 da copa anterior, da parte do Brasil.

alexis

- 2018-07-02 12:39:10

Favorecendo o Brasil quando há interesse político?

Brasil foi impedido de ganhar durante o período do PT, principalmente na copa local de 2014, onde o jogo foi entregue para Alemanha. Hoje, o mesmo sistema global que turbinou FHC com a copa de 2002, volta a apostar as suas fichas no Brasil "temeroso" e coxinha.

No quadro abaixo se pode observar o nível diferente entre os oito times de cima e o grupo dos oito times chinfrim onde está o Brasil. O sorteio dos times parece que foi feito com o sistema “imparcial” do STF.

Ricardo Ronaldo Pinto

- 2018-07-02 11:59:34

Fale mais please

Gostei demais, mas queria que citasse 98 e 2014.

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