Sempre pertinente, especialmente numa sociedade dramaticamente contraditória, por Arnaldo Cardoso

E neste 1º de dezembro, vale registrar a abertura do evento “Iniciativa Paulo Freire” na prestigiosa Columbia University, de Nova York, com densa e extensa programação que se estenderá por cinco dias

Sempre pertinente, especialmente numa sociedade dramaticamente contraditória

por Arnaldo Cardoso

Se argumentar sobre a relevância da obra de Paulo Freire no centenário de seu nascimento é tarefa fácil pois, há uma legião de respeitados autores em todo o mundo que ao longo dos anos o consagraram como um dos mais importantes e fecundos pensadores do campo da educação, inspirador de novas pesquisas. Adorna tudo isso as contínuas homenagens a Freire, como o busto de bronze instalado recentemente na biblioteca da Faculdade de Educação, na Universidade de Cambridge, como símbolo de tolerância e diálogo.

E neste 1º de dezembro, vale registrar a abertura do evento “Iniciativa Paulo Freire” na prestigiosa Columbia University, de Nova York, com densa e extensa programação que se estenderá por cinco dias, reunindo especialistas de diferentes nacionalidades, em educação e políticas públicas em temas relacionados à obra de Paulo Freire e sua influência em diferentes contextos. A Conferência de abertura terá como tema “Como Paulo Freire influenciou a educação no Brasil e no mundo, e por que ele foi um pensador revolucionário?”.

Se como dito, argumentar acerca de sua relevância é tarefa fácil, não deixa de ser doloroso, especialmente para brasileiros e brasileiras, reconhecer sua dramática atualidade e pertinência, uma vez que a educação no Brasil ainda sofre com as amarras de um passado colonial, patriarcal, opressor, com tanto a ser feito, e diante de novos levantes do reacionarismo e da cultura do ódio, que se empenham para impedir que a educação se afirme como prática de liberdade.

E é justamente do livro “Educação como prática da liberdade” que reúne ensaios importantes de Paulo Freire, que extraio algumas passagens, de sua Apresentação, para relembrar o seu caráter de conhecimento pertinente, engajado, reflexivo sobre seu tempo e espaço. Importante lembrar que a referida Apresentação foi escrita na primavera de 1965, com Freire já no exílio, depois de 72 dias de prisão, acusado de pensador subversivo.

Logo do primeiro parágrafo da Apresentação vale lembrar a caracterização dessa obra como “esforço educativo”, determinado pelas “condições especiais da sociedade brasileira”.

Sobre a sociedade brasileira daquele 1965, ou seja, há mais de cinquenta anos, Freire a descreve como “intensamente cambiante e dramaticamente contraditória. Sociedade em ‘partejamento’, que apresentava violentos embates entre um tempo que se esvaziava, com seus valores, formas de ser, e que ‘pretendia’ preservar-se, e um outro que estava por vir, buscando configurar-se”.

Se naquele tempo Freire chamou de “dramáticas” as contradições da sociedade brasileira, é justo supor que ele não buscaria adjetivo mais brando para caracterizá-las hoje.  Nas linhas que seguem, Freire expõe sua visão da sociedade brasileira como vivendo uma “passagem”, que idealmente seria de superação da dominação do passado, mas que se defronta com forças do atraso que lutam pela manutenção do status quo.

Paulo Freire reconhece a necessidade de fazer uma opção, para encontrar respostas às principais questões postas naquele tempo.  

“Opção por esse ontem, que significava uma sociedade sem povo, comandada por uma ‘elite’ superposta a seu mundo, alienada, em que o homem simples, minimizado e sem consciência desta minimização, era mais ‘coisa’ que homem mesmo, ou opção pelo Amanhã. Por uma nova sociedade, que, sendo sujeito de si mesma, tivesse no homem e no povo sujeitos de sua História”.

Como não poderia deixar de registrar, Paulo Freire escreve que o empenho nessa tarefa de construção de uma educação para a liberdade custou-lhe “o afastamento de suas atividades universitárias, prisão, exílio. Empenho de que não se arrepende e que lhe valeu também compreensão e apoio de estudantes, de intelectuais, de homens simples do povo, engajados todos eles no esforço de humanização e libertação do homem e da sociedade brasileira. À estes, entre os quais muitos estão pagando na prisão e no exílio, pela coragem da rebeldia e pela valentia de amar, oferece o Autor este ensaio”.

Quando Paulo Freire nos fala sobre a opção que teria de ser feita, lá nos idos da década de 1960, ela teria de ser “entre uma ‘educação’ para a ‘domesticação’, para a alienação, e uma educação para a liberdade. ‘Educação’ para o homem-objeto ou educação para o homem-sujeito”.

Dramaticamente nos encontramos neste 2021, ano do centenário do nascimento do generoso e amável educador brasileiro diante do mesmo dilema, que desde tanto tempo nos deprime e apequena como indivíduos e sociedade.

Mas não podemos esquecer que, o amor está na base da pedagogia de Paulo Freire e ainda diante das mais perversas perseguições, ele sempre defendeu o diálogo como prática essencial da educação e o ato de Esperançar.

Referência:

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeio: Paz e Terra, 1996.

100 YEARS OF PAULO FREIRE: ANUAL CONFERENCE. TEACHERS COLLEGE – COLUMBIA UNIVERSITY. A virtual conference to celebrate Paulo Freire’s 100th birthday, on December 1, 2, 7, 8, and 9, 2021.

Link: https://www.tc.columbia.edu/freire100/?fbclid=IwAR2iaFvQTTvoILXFiHk-QB3mkYghXhiQNMP6tn-uw5Mp3_wsYITvKMiyS4c

Arnaldo Cardoso, sociólogo e cientista político formado pela PUC-SP, escritor e professor universitário.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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