25 de junho de 2026

Três homens ilustres, por Ivan Colangelo Salomão

Antonio Delfim Netto, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Carlos Bresser-Pereira consagraram sob suas penas – tanto de intelectual quanto de policymaker – o destino do desenvolvimento nacional por meio de ideias e políticas que, de alguma maneira, retratam as conquistas e as agruras do Brasil atual.

Três homens ilustres

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por Ivan Colangelo Salomão

Aprendemos desde cedo que não se deve fulanizar a história. Os eventos que determinam os caminhos e descaminhos da humanidade respondem muito mais a processos continuamente descontinuados por interesses, instituições, circunstâncias e, por que não, acaso, do que exatamente à intervenção individual de determinado sujeito histórico. Sós, homens e mulheres algo podem, mas podem pouco.

É muito provável que a história da humanidade teria sido outra se a dona Klara Pölzl tivesse abortado sua quarta gestação. Ou se a dona Ekaterina Geladze tivesse evitado o nascimento de seu rebento mais famoso. Ou mesmo se a dona Olinda Bonturi tivesse seguido a tabelinha com um pouco mais de atenção. O mundo seria uma esfera muito melhor, é verdade.

Ainda assim, deve-se atenuar a importância das digitais individuais no encadeamento dos fatos que compõem a história. Ainda que jamais geradas as vidas supracitadas, teria sido igualmente plausível que outros personagens as tivessem substituídos, fazendo com que a vileza de suas obras houvesse, de alguma maneira, vazado de suas respectivas caixas de Pandora.

País de carências mil, o Brasil tenta há mais de um século camuflar sua tragédia material e simbólica por meio da construção artificial de heróis bem-aventurados. De Tiradentes a José Bonifácio, de Pelé a Ayrton Senna. Inobstante a legítima admiração que se pode nutrir acerca das mais distintas trajetórias pessoais, um país sério não pode fiar a indivíduos mitificados a concepção de seu imaginário, muito menos o conforto de sua resignação. Heróis não existem. Há vergonha na cara, consciência coletiva e luta política. O resto é engodo.

Tudo isso para explicar a deferência que mantenho por determinados atores vivos da história nacional, ainda que deles discorde a respeito dos mais variados assuntos. Por ocasião da conversa transmitida pelo canal da TV GGN sobre o livro dos ministros da Fazenda, o professor João Furtado questionou a conveniência de se contar com o apoio do ministro Delfim Netto, prefaciador da obra.

Eu não poderia concordar mais se o objeto em discussão fosse a sua conivência com as incontáveis (e inarráveis) barbaridades cometidas pela ditadura militar. Não é esse o caso. Delfim Netto não é apenas um economista de conhecimento enciclopédico e um interlocutor obrigatório. Sem juízo de valor, trata-se de um homem por cujas mãos passou a história do Brasil contemporâneo. A despeito dos erros cometidos durante as suas passagens pelo comando da economia, Delfim terá seu nome gravado no panteão dos brasileiros ilustres pelo conjunto de sua obra.

E para não soar tendencioso, entendo que Delfim Netto compõe um triunvirato de sábios que não apenas observaram, refletiram e interpretaram as transformações do país nos últimos 50 anos, como delas participaram diretamente. Tanto do ponto de vista intelectual quanto político, três são os brasileiros que hoje, agosto de 2021, podem olhar para as últimas cinco décadas e nelas reconhecer as próprias digitais.

Antonio Delfim Netto, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Carlos Bresser-Pereira consagraram sob suas penas – tanto de intelectual quanto de policymaker – o destino do desenvolvimento nacional por meio de ideias e políticas que, de alguma maneira, retratam as conquistas e as agruras do Brasil atual.

Antonio Delfim Netto, um jovem professor da USP, foi o responsável por modernizar a retórica e o método do departamento de Economia da maior universidade brasileira. Seu trabalho seminal sobre o café alçou-o à Secretaria da Fazenda do estado e, posteriormente, ao Ministério da Fazenda do governo Costa e Silva. Nome por trás do chamado “milagre econômico” (1968-1973), foi convocado a reassumir o comando da economia quando da eclosão de uma das mais graves crises econômicas por que passou o país, no início dos anos 1980. Participou ativamente do debate público mesmo após a queda do regime de exceção. Deputado federal por quase duas décadas, ajudou a pensar – e, eventualmente, a corrigir – o país cuja formatação recente ele mesmo havia operado.

Fernando Henrique Cardoso, intelectual refinado, foi um dos mais importantes sociólogos latino-americanos da segunda metade do século XX. Pesquisador prolífico, publicou um sem-número de livros, artigos acadêmicos e jornalísticos entre os anos 1960 e o início da década de 1980, quando se tornou senador. Ministro das Relações Exteriores e da Fazenda sob Itamar Franco, elegeu-se presidente da República em 1994. Nos oito anos em que governou o país, patrocinou transformações robustas em suas estruturas econômica e social, reformulando instituições e criando um novo paradigma de gestão pública. Se a timidez dos resultados de curto-prazo de sua gestão lançou-o em certo ostracismo político nos anos 2000, seu legado tem sido devidamente resgatado nos últimos tempos.

E Luiz Carlos Bresser-Pereira, pensador multifacetado, foi secretário do governo Franco Montoro antes de assumir o Ministério da Fazenda, em 1987, em meio às graves crises externa e inflacionária que acometiam a economia brasileira pós-Cruzado. No governo FHC, comandou o recém-criado Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado, posto do qual arquitetou uma importante reforma gerencial do Estado brasileiro. Autor de mais de 30 livros e centenas de artigos publicados em revistas brasileiras e estrangeiras, sua fecundidade acadêmica já seria digna de nota per se. Um dos responsáveis pela descoberta do mecanismo inflacionário brasileiro nos anos 1980, sua principal contribuição à teoria econômica – o novo-desenvolvimentismo – vem sendo oferecida desde meados dos anos 2000. Líder intelectual dessa corrente de pensamento heterodoxa, sua longa e intensa trajetória lhe reserva a distinção de ser um dos mais respeitados cientistas sociais brasileiros da atualidade.

Três jovens senhores na casa dos 90 anos de idade, que mantêm vigor físico e higidez intelectual num dos momentos mais delicados e desafiadores da história recente do país. Três homens em cujas memórias vivas repousam parte significativa de nossa história.

Não se trata de confiar-lhes a iluminação do caminho. Menos ainda de se relevar os erros que certamente cometeram. Mas apenas de se reconhecer a contribuição de suas obras individuais para entender, formar e reformar a sociedade brasileira. Afinal, heróis não há; é do esforço coletivo que se constrói uma nação.

Daí a deferência a homens que dedicaram a vida a refletir o Brasil.

Ivan Colangelo Salomão, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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