Tudo na mais perfeita ordem, o mundo dos economistas de caixinha, por André Motta Araújo

O problema desses obcecados pela ordem é que, na tentativa de criar a ordem no seu mundo imaginário, eles podem produzir imensa desordem no mundo real, o que não lhes afeta.

Tudo na mais perfeita ordem, o mundo dos economistas de caixinha

por André Motta Araújo

A psicologia é parente próxima da economia, só ela explica a existência de economistas que constroem um mundo perfeito onde cada coisa está na sua caixinha. Tal qual a boa dona de casa, tem o lugar certinho do arroz, do açúcar, das batatas, a gavetinha dos temperos, tudo na mais perfeita ordem.

Assim devem ser as finanças públicas e, mais ainda, assim deve ser a economia, tudo certinho, cada coisa em seu lugar.

Essa governança psicológica persegue os Mansuetos da vida até na tipologia física. Nos meus primeiros anos no Banco do Brasil, lá se vão mais de 50 anos, encontrei grande número de colegas de vida certinha, anotavam até o custo do cafezinho para fechar o mês. Outro se lamentava da gratificação semestral de um salário e meio porque isso desorganizava seu orçamento doméstico. Creio que há muito mais gente assim do que aqueles que preferem o imprevisto.

O mundo jamais foi “certinho”, as economias dos países muito menos, o caos absoluto do Século XX com duas guerras mundiais, 58 guerras locais, 647 golpes de Estado (segundo Luttwalk), nove grandes crises financeiras, 16 hiperinflações, incontáveis crises humanitárias, 13 genocídios de grande porte, nunca foi um lugar do “tudo certinho”, mas não importa, o espírito em busca da ordem é como a formiga que vê o formigueiro chutado e desmanchado, ela recomeça a reconstrução no minuto seguinte porque isso está no seu DNA. O indivíduo “tudo no seu lugar” enlouquece se não procurar a ordem.

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Isso explica muitas das loucuras de coisas como a Lei do Teto, uma tentativa de fazer tudo certinho no orçamento, quando isso é impossível.

O problema desses obcecados pela ordem é que, na tentativa de criar a ordem no seu mundo imaginário, eles podem produzir imensa desordem no mundo real, o que não lhes afeta. Eles vivem no mundo imaginário e tentam, desesperadamente, fazer o mundo real se encaixar no seu mundo imaginário.

A CONTA MOVIMENTO DO BRANCO DO BRASIL

O Brasil entre 1945 e 1980 foi o País que mais cresceu no mundo. Nesse período NÃO havia ordem nas finanças públicas, no balanço cambial, na moeda, no crédito, MAS havia um “drive”, um impulso de crescimento na desordem. Uma das alavancas desse crescimento era a facilidade com que a União conseguia se financiar. Um mecanismo engenhoso, criativo era a chamada CONTA MOVIMENTO da União no Banco do Brasil.

No dia 24 a União recebe impostos, no dia 25 com esse dinheiro paga a folha do Ministério da Saúde. Se, naquele momento, a União não tem saldo, o Banco do Brasil adianta por um, dois ou três dias e depois se ressarce com recolhimento de impostos, MAS ISSO É DESORDEM para os “tudo nas caixinhas”.

Não pode. Então fechou-se a CONTA MOVIMENTO e agora o governo faz tudo certo, emite títulos da dívida pública, toma dinheiro no mercado para pagar sua folha e assim não existe a desordem de se usar uma conta de capital de giro rotativo onde os dois lados ganham. A União se financia por dias ou horas e o Banco em outros dias fica com saldo do recolhimento de impostos no seu caixa sem pagar juros, os dois lados ganham.

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Quem acabou com a CONTA MOVIMENTO foi o então Ministro Mailson da Nobrega, um típico “tudo nas caixinhas”, ex-funcionário do Banco do Brasil.

A ORDEM IMAGINÁRIA PODE SER A DESORDEM REAL

Nessa construção da ordem imaginaria entram as reformas, as cruzadas anticorrupção, a Lei do Teto, as privatizações, as “metas de inflação”, o Banco Central independente, “a melhoria no ambiente de negócios”, MAS nessa ordem imaginaria não há crescimento porque isso é DESORDEM.

Os “economistas de caixinha” podem levar um País ao desastre absoluto quando sua ordem imaginária não se encaixa no mundo real.

Voltaremos a esse tema inesgotável porque estamos exatamente agora com uma turma de “economistas de caixinha” tentando destruir o País na empreitada impossível de fazer a economia entrar nas “caixinhas” certas. Eles enlouquecem na desordem, da mesma forma que ficam nervosos se a empregada muda de lugar o tubo da pasta de dente, como é possível essa gentinha gostar tanto de bagunça, que coisa.

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7 comentários

  1. A conta movimento é a “pedalada” que derrubou a Dilma. O PT cometeu um erro institucional, teria que ter aprovado antes a volta da Conta Movimento do Banco do Brasil. Grande dica André, em um próximo governo das forças populares, que espero, será na próxima eleição, vide o efeito Orloff, na Argentina onde as chances de Macri vão se esvaindo. Quanto a Mailson, o considero, o mais medíocre Ministro da Fazenda que este país já teve.

  2. “No dia 24 a União recebe impostos, no dia 25 com esse dinheiro paga a folha do Ministério da Saúde. Se, naquele momento, a União não tem saldo, o Banco do Brasil adianta por um, dois ou três dias e depois se ressarce com recolhimento de impostos, MAS ISSO É DESORDEM para os “tudo nas caixinhas”.”
    Não foi essa a alegação que usaram para cassar a Dilma?

  3. Lendo com atenção percebe-se que o MERCADO já esta gritando que também não quer mais o Bozo

    Os MALES que BOZO esta causando ao BRASIL ..com o desmonte da educação, do BNDES, BB e CAIXA, dos correios, FGTS E PIS ..da manutenção da privataria da pré sal a toque de caixa ..dos programas de assistência social e previdenciários, dos direitos da massa de trabalhadores ..do distanciamento do eixo sul sul, MERCOSUL e BRICs ..do papel da NAÇÃO BRASILEIRA, de 220 milhões de seres humanos, da história da própria humanidade ..do abandono de diversos projetos estratégicos, civis e militares ..estes e outros erros são MUITO MAIS NOCIVOS do que qq crime cometido por qq outro político conhecido

    NUNCA um país com a dimensão do BRASIL foi entregue voluntaria e pacificamente a outro império em decadência de forma tão barata e rápida ..um mercado IMENSO, recursos GIGANTESCO em níveis planetários (até com a AMAZÔNIA incluída) ..tudo tudo dado num prazo de CINCO MESES dum governo esquizofrênico comandado por MALUCOS SOCIOPATAS

    Com este cenário NÃO há teoria heterodoxica e/ou IMAGINÁRIA que salve

  4. Não seria mais lógico pensar que, no caso do Mailson da Nóbrega, no que se refere à mudança do sistema de auto financiamento do Estado, por meio do mecanismo de referida CONTA MOVIMENTO, não se trataria de uma questão de ideologia, da crença de que tudo deve estar dentro da caixinha?
    Quem levou vantagem nessa mudança? Quanto teria sido oferecido ao Mailson da Nóbrega, em vantagens pessoais, em troca da extinção desse mecanismo de auto financiamento do Estado, que acabou jogado às garras dos abutres do cartel dos grandes bancos privados?
    Se o que fundamentou a decisão por essa mudança pode ser atribuído à ideologia, então seria lógico pensar também que o que moveu José Serra a mudar a LEI DA PARTILHA na exploração do Pré-Sal teria sido “aliviar” a Petrobras do encargo de responder por 30% dessa exploração!
    https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2016/11/30/sancionada-lei-que-revoga-obrigatoriedade-de-exploracao-do-pre-sal-pela-petrobras

  5. SEria o lema da bandeira brasileira, Ordem e Progresso, o lema dos economistas de caixinha? Ou para eles a economia somente funciona conforme antigo humorista que tudo tem que ser explicado nos “mínimos detalhes”. GOstaria de ver esses gênios administrando o dia dia de algum empreendimento físico, quando sua capacidade e’ utilizada com altos e baixos, alternando falta ou excesso de clientela. PAra eles não existe improvisação, atitudes pontuais, criatividade para enfrentar imprevistos ou mesmo visão mais ampla de negócio. SE depender desse pessoal sempre vamos estar em ordem mas o progresso nunca chega.

  6. A questão toda é a seguinte: A quem interessa a inflação? Tenho certeza de que os trabalhadores preferem ter um trabalho, mesmo que com alta inflação. Inflação só prejudica os banqueiros, que teriam seus títulos desvalorizados (mas eles já lucraram muito nos últimos 30 anos).

    A solução é a seguinte: impressão de dinheiro (a base monetária brasileira é baixíssima). A economia cresce, voltam os investimentos e os bancos perdem (momentaneamente apenas, pois até com inflação alta no fim eles lucram, é só nos lembrarmos do overnight, que sustentou por um bom tempo todo o setor real da economia).

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