Um cheque em branco para Eduardo Paes?, por Roberto Bitencourt da Silva

Os segmentos partidários e da opinião pública sintonizados com valores progressistas, ao menos, deveriam exigir de Eduardo Paes alguns compromissos programáticos públicos.

ArchDaily Brasil

Um cheque em branco para Eduardo Paes?

por Roberto Bitencourt da Silva

Termina o 1º turno

Os resultados eleitorais do 1º turno na cidade do Rio de Janeiro foram marcados por fenômenos políticos variados e que não pretendo aqui explorar em demasia. Como nota passageira, destaque-se a incapacidade das esquerdas em se acertar numa coalizão, que viabilizasse força para enfrentar as candidaturas dos setores conservadores, Eduardo Paes (DEM) e Marcelo Crivella (Republicanos). Ademais, uma flagrante manipulação do Ibope também ocorreu e precisa ser assinalada.

Às vésperas da eleição, no sábado à noite, o Ibope veiculou números que inflavam Benedita da Silva (PT), colocando-a em terceiro lugar na disputa, ultrapassando Martha Rocha (PDT). Uma discrepância sem motivo aparente. Não tinha explicação. Tratavam-se de números que não guardavam qualquer relação com as sondagens anteriores, inclusive a do Datafolha do mesmo dia, que sempre colocavam Martha em empate técnico com Crivella. Martha terminou em terceiro, mas com um percentual inferior ao que indicavam as pesquisas.

No apagar das luzes, o argumento do voto útil, mobilizado pelos pedetistas, tendeu a naufragar, já que os eleitores simpáticos ao petismo e muitos psolistas destinaram os votos para Bené, sob a alegação de que esse sim seria o voto útil. Estes eleitores foram gostosa e deliberadamente manipulados. Em grande medida, por opção própria. Em todo caso, o Ibope incidiu no resultado eleitoral carioca. Em qual proporção não sei dizer. Porém, influiu, maculando a já frágil democracia eleitoral brasileira e da cidade. Mas, essas são águas passadas.

Paes no radar das esquerdas

Crivella e Paes estão no segundo turno. As movimentações e alegações fragmentárias que se pode observar, aqui e ali, entre os segmentos sociais e políticos ditos progressistas, é que parecem ser tão problemáticas, quanto a impotência para oferecer projetos e candidaturas efetivas ao Poder Executivo, municipal e estadual.

O expressivo descolamento da realidade cotidiana das camadas trabalhadoras e populares é outra faceta que peculiariza essas esquerdas. O terror imposto pelas milícias e varejistas das drogas são um conhecido obstáculo. A desindustrialização da cidade – décadas atrás – e mais recentemente a pulverização dos direitos e das organizações do mundo do trabalho trazem dificuldades adicionais. Reduzem a segurança nas condições de vida, desmontam os fóruns de aprendizado solidário e de politização. A escassez de engenho criativo, projetos, vontade política e convicções, também afasta as esquerdas do povo. Em elevado grau, uma mazela nacional.

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Isso posto, entendo que mereça de imediato ser chamada a atenção a postura de frações da militância e do eleitorado petista e psolista, em relação ao segundo turno. Igualmente, a posição de líderes partidários como o deputado federal Marcelo Freixo (Psol) e Washington Quaquá, presidente do diretório estadual do PT.

Em especial as lideranças e cúpulas partidárias autodenominadas progressistas, sobretudo petistas e psolistas, deveriam refletir um pouco, antes de darem um verdadeiro cheque em branco para Eduardo Paes, como imediatamente estão tendendo a fazer. Não obstante, a escolha manifestada pelo PDT, colocando-se na neutralidade, deu mostras de açodamento irrefletido.

Explícita ou sub-repticiamente, está sendo adotada uma singular lógica de polarização democracia versus fascismo, na qual Eduardo Paes personificaria e seria enquadrado no pólo democrático. Tal leitura política demanda, no mínimo, uma séria revisão.

Ambos os candidatos que chegaram no 2º turno apoiaram o maldito golpe parlamentar, judicial e midiático de 2016, que tantos direitos tem retirado da nossa gente, que tantos interesses nacionais tem violado. Ambos apoiaram o congelamento dos investimentos constitucionais em saúde e educação, a famigerada lei do teto dos gastos. Ambos são instrumentos representativos do grande capital, doméstico e estrangeiro. Com os dois, indiferentemente, Bolsonaro mantém aliado político na Prefeitura. Nos governos de ambos os personagens as atividades criminosas, predatórias e extorsivas das milícias cresceram. Um é a carta da Globo. O outro da Record e da Igreja Universal.

As duas gestões de Paes na Prefeitura carioca foram caracterizadas por ataques à educação e repressões vorazes aos professores, sobretudo grevistas. À época, conforme registravam o noticiário e os estudos de pesquisadores em urbanismo e direito à moradia, o seu governo foi equiparado ao do antigo governo de Carlos Lacerda. Um “campeão” nas remoções arbitrárias e desumanas de famílias humildes e faveladas das suas casas.

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Paes é também um político notória e acentuadamente plástico, oportunista, que já apresentou abertos afagos a Bolsonaro, na eleição anterior para o governo do estado e agora, nessa corrida eleitoral, sendo também saudado pelo nefasto presidente da República. Crivella, um dos piores prefeitos das últimas décadas, vive pendurado no pescoço de Bolsonaro.

Cuidado com Eduardo Paes e a necessária oposição a Crivella

Os segmentos partidários e da opinião pública sintonizados com valores progressistas, ao menos, deveriam exigir de Eduardo Paes alguns compromissos programáticos públicos. Também aguardar um pouco o tipo de campanha que irá se desenhar, a orientação a ser adotada pelo candidato e por Bolsonaro.

Eduardo Paes, eventualmente eleito, com um verdadeiro cheque em branco, teria em suas mãos recursos e instrumentos de uma aliança bolsonarista, em iniciativas nocivas às camadas populares, faveladas, trabalhadoras e aos servidores públicos. Ele seria muito mais perigoso do que um Crivella hoje sangrando, com nítida erosão do capital político, mais fácil de ser questionado e contido.

Na hipótese de um cheque em branco dado a Paes, sem exigências nem condicionalidades de apoio e voto, ele alcançaria muito maior consenso, contando com o suporte do bolsonarismo na Presidência. Retornaria à Prefeitura com incontrastável força e respaldado para fazer o que bem quisesse, na sua conhecida linha extemporânea e arbitrária. O fascismo no bolso, com cervejinha na mão, chapéu de malandro e a camisa da Portela. Democrata só no gogó e no nome da legenda.

Por outro lado, Crivella, caso exitoso, teria mais um governo amesquinhado, já debilitado, esvaindo-se em inércia e incapacidade imaginativa. Um exemplo da sua inércia: deixou de atuar, o ano inteiro, para mitigar as dificuldades geradas pela pandemia na educação. O seu governo não se mexeu para prover conexão à Internet aos alunos, de modo a reduzir e superar a exclusão digital. Em uma medida eleitoreira, agora no final do ano, determinou o retorno às atividades presenciais nas escolas. Os professores entraram em greve contra a medida irresponsável e destituída de razoabilidade, já que são grandes e crescentes os riscos de contágio na cidade.

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Portanto, entendo que se deveria deixar correr os dias, para se avaliar com atenção e serenidade o comportamento e as alianças tecidas por Paes. Entregar um cheque em branco em sua mão seria um completo absurdo, um despropósito. Os circunstanciais termos de negociação e exigência são amplos. O primeiro turno contou com quase 50 % de alienação eleitoral, com tendência de crescimento no 2º turno. O que torna tudo imprevisível e cada voto muito importante. As esquerdas partidárias têm esse recurso decisivo para exigir compromissos visando o interesse da maioria.

Por óbvio, não me refiro a uma eventual manifestação de apoio a Paes – contra Crivella e o seu obscurantismo e negacionismo bolsonarista –, com vistas a transações de cargos. Mas, sim, a compromissos públicos. Por ora, exercer os papeis de grupo de pressão e de monitoramento sobre Paes, eis as atribuições mais oportunas aos setores progressistas. Todavia, no momento, a docilidade despolitizada com que petistas e psolistas estão expressando intenção de voto para Paes poderá redundar na entrega da cidade, de mão beijada, a alguém notoriamente conservador e autoritário.

Em todo caso, o TSE pode dar uma canja para alguns segmentos alinhados com o PT e o Psol. O Tribunal está analisando esta semana a plausibilidade de tornar o prefeito Crivella inelegível.

Roberto Bitencourt da Silva – cientista político e historiador.

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1 comentário

  1. Peloamor! Crivella não! Quanto pior melhor, não! Crivella representa a vitória do fanatismo cego religioso, que mistura Jesus com arminha. Representa o cúmulo da ignorância, mediocridade, manipulação rasa! O Paes tá mais para compor futuramente com este personagem misterioso que o centro tá querendo fabricar para 2022. Vai seguir o alinhamento com Rodrigo Maia. O muito ruim e o péssimo virou rotina num país de esquerda dividida e vaidosa.

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