Um filme depois de outro – Cinema e História

O que propõe o professor Marcos Silva, aqui, é que essas obras-primas, na placenta da sala de aula, germinem em nossos estudantes o mesmo amor pela história humana que levou o cineasta a produzir cada filme.

Um filme depois de outro – Cinema e História

por Jeosafá Fernandez Gonçalves e Thiago de Faria e Silva

Resenha de: SILVA, Marcos. Sessões descontínuas [volume 1] – Lições de História no cinema brasileiro. São Paulo: Almedina, 2020, 226 pp. IDEM. Sessões descontínuas [volume 2] – Lições de História no cinema mundial. São Paulo: Almedina, 2020, 173 pp

Muitos caminhos podem ser empreendidos pelo professor de História em sua luta por despertar nos estudantes a curiosidade necessária para que os fatos relevantes do passado de nossa comunidade, de nosso país e do mundo assumam para eles significados e sentidos vivos. Da pesquisa documental à leitura de obras específicas, tudo é ferramenta que auxilia o desenvolvimento de habilidades essenciais aos jovens dos dias atuais, convocados a todo momento pelos meios de comunicação a se confrontarem com enxurradas de fatos brotadas da televisão, da internet e dos jornais em escala exponencial.

Um meio cada vez mais empregado para seduzir os estudantes para o fascinante mundo da História é o mergulho na produção audiovisual que, desde o fim do século XIX, tornou-se uma fonte de pesquisa praticamente inesgotável.

Não há fato relevante da História humana que já não tenha sido tratado pelo cinema e, após o triunfo da sétima arte e da veiculação em massa de seus conteúdos, pela televisão, agora também pela internet, é cada vez mais frequente que episódios decisivos para a humanidade cheguem ao indivíduo por esses meios tecnológicos, antes mesmo de eles serem tratados em sala de aula.

Este Sessões descontínuas, em dois volumes, dentre os muitos caminhos possíveis para desenvolver o senso de História, tão importante para a formação do juízo crítico que almejamos para nossas novas gerações, opta pela exploração da fronteira entre História e Cinema. Tal contato, pelo lado do cinema, gerou verdadeiras obras-primas.

O primeiro volume comenta filmes brasileiros, de Agulha no palheiro, de Alex Vianny (1952), a Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dorneles (2019), passando por outras obras de grande importância como Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos (1963), Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade (1969), e Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho (1964/1984).

O que propõe o professor Marcos Silva, aqui, é que essas obras-primas, na placenta da sala de aula, germinem em nossos estudantes o mesmo amor pela história humana que levou o cineasta a produzir cada filme.

As sessões propostas no segundo volume do livro são frutos preciosos de sua densa, sensível e erudita trajetória como cineclubista, professor, historiador e artista. Apresentadas à primeira vista como descontínuas, essas sessões e lições convidam o leitor a desvendar as várias linhas de continuidade que vão se tecendo ao longo das interpretações sobre as relações possíveis entre a História, o Cinema e as Artes em geral.

O repertório das obras escolhidas é diversificado, pois foi construído pela própria caminhada do autor em suas pesquisas e aulas, desde o Cineclube Tirol, em Natal, até às aulas sobre História e Fontes Visuais, ministradas na FFLCH/USP, onde Marcos é Professor Titular de Metodologia da História. Abrange do clássico Outubro, de Sergei Eisenstein e Grigory Alexandrov (1927), ao bem mais recente Minha quase verdadeira História, de Dany Levy (2007), passando por obras de referência como Rastros de ódio, de John Ford (1956), Blow-up, de Michelangelo Antonioni (1966), e Morte em Veneza, de Luchino Visconti (1971).

Na obra, o leitor encontrará as artes (pintura, música, literatura, teatro, cinema) em diversas historicidades, compondo um intenso diálogo, ora proposto explicitamente pelos filmes, ora pela sensibilidade analítica do autor, ao inserir novas referências no horizonte de reflexão, com músicas e outras artes “se fazendo”, para citar uma expressão recorrente nos textos e reflexões de Marcos.

O leitor conviverá com um universo inspirador de referências e caminhos possíveis, que vão desde a mitologia grega, passando pelas reflexões sobre as catástrofes do século XX, chegando à ficção científica como campo de pensamento instigante para a História e seu ensino.

Os cinemas aqui discutidos são telas que se abrem e provocam interpretações sobre historicidades diversas, não circunscritas ao contexto de produção dos filmes. E estes são analisados de forma complexa, em múltiplas dimensões, desdobrando-se em instrumentos reflexivos densos, manejados de forma leve pelo autor, ao discutir o filme como obra artística, mas sem esquecer outras dimensões, tais como a análise dos gêneros fílmicos, o cinema de autor, a história do cinema, o cinema como indústria e mercado, além de destacar o lugar político e social crescente dos filmes nos séculos XX e XXI. A defesa da importância da arte como expressão humana central para a vida é algo presente em toda a obra: nas interpretações dos filmes, na postura aberta e instigante proposta pelas análises e conexões entre as artes e, principalmente, pela clareza e beleza da escrita, ao mesmo tempo, densa e poética do autor.

Marcos Silva nos convida a esse prazeroso diálogo, ao partilhar seu rico repertório, que, como verá o leitor, é descontínuo somente à primeira vista.

Jeosafá Fernandez Gonçalves – Escritor, Colégio Dom Bosco, Vila Matilde, São Paulo, SP

Thiago de Faria e Silva – Historiador, IF/Brasília, Campus de Águas Claras

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