Uma revolução muito muito distante, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Todos concordavam que as coisas não podiam continuar como estavam, mas não exista denominador comum para persuadir uma ação coordenada

Uma revolução muito muito distante

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Num país muito muito distante havia necessidade de uma revolução. Todos concordam que as coisas não podiam ficar como estavam. Mas não existia um denominador comum que fosse capaz de persuadir a maioria a agir de maneira coordenada.

Os juízes queriam mudanças, desde que elas não afetassem os privilégios senhoriais que eles desfrutavam. Os promotores eram intransigentes: o novo regime deveria permitir a condenação automática de todos os suspeitos, razão pela qual o Ministério Público teria competência para escolher os juízes que homologariam as acusações ofertadas ao Judiciário. Obviamente os advogados não podiam aceitar a consolidação da tirania desejada por aqueles tinham o monopólio da persecução penal e que pretendiam impor o princípio da presunção de culpa e sabotar o direito de defesa.

Nos hospitais públicos e nas escolas estatais a revolução era considerada inadiável. Os profissionais da saúde e da educação eram mal remunerados, as instalações e equipamentos à disposição deles eram insuficientes ou obsoletos. Mas alguns dos médicos odiavam lidar com os pobres num país que tinha poucos ricos. Empobrecidos, até os professores começaram a encarar os médicos elitistas como inimigos.

As empresas de comunicação eram devotas incondicionais da causa revolucionária. Tanto que elas transformavam mentiras e meias-verdades em fatos inquestionáveis e atacavam ferozmente qualquer pessoa que discordasse do jornalismo opinativo (um eufemismo para propaganda ideológica neoliberal).

Quando a esquerda governava e as coisas estavam indo bem ou mais ou menos bem, a imprensa dizia que tudo o que a presidente fazia estava errado. Quando a direita assaltou o poder e começou a matar as pessoas pobres de fome os defeitos do governante passaram a ser minimizados ou simplesmente esquecidos. Os jornalistas bem sucedidos daquele país eram coerentes; eles se mantinham sempre muito muito distantes das notícias.

Os pastores evangélicos daquele país gostavam de ficar distantes da divindade e só conseguiam adorar um livro: o Código Penal. Eles se esforçavam bastante para cometer todos os crimes descritos na bíblia dos criminalistas. Quando apanhados pelas teias da Justiça, eles diziam ser inocentes como Jesus ou culpavam Satã. Vá de retro pastor.

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Mas se alguém pedisse para um templo dividir a riqueza acumulada lavando dinheiro de bandido, traficando armas, cometendo estelionatos e apropriações indébitas, o pastor dono dele se transformava num demônio. E acusava todos os adversários dos abusos que ele cometeu de serem comunistas.

Os revolucionários de esquerda daquele país muito muito distante eram engraçados. Eles brigavam mais entre si do que com seus adversários. Para muitos deles a revolução era uma questão de cargos e salários… mais de salários do que de cargas horárias.

Não faltavam “ismos” naquele país. Feminismo, veganismo, ambientalismo, paganismo, maconhismo, homossexualismo… Cada “ismo” queria transformar sua moralidade ou hábito peculiar em plataforma política revolucionária.

Geralmente os “ismos” estavam todos do mesmo lado, mas alguns militantes eram de esquerda e outros fingiam não ser de direita. Existiam ecologistas verde florestal e verde dólar. Mas quando alguém marcava um churrasco para discutir a revolução ocorriam sismos. Os veganos sempre protagonizavam episódios deprimentes de sectarismo e até de violência quando a carne entrava no cardápio.

Os índios tinham suas terras em comum. Mas os terroristas rurais queriam transforma-las em propriedade privada e contavam com a ajuda do presidente. Ele mesmo um terrorista urbano expulso do Exército.

As forças desarmadas obedeciam fielmente o presidente terrorista. A revolução que os militares queriam fazer quando a esquerda estava no poder foi consumada no momento em que a direita entregou uma fatia maior do orçamento ao Exército. Os generais obviamente comemoraram em paz sua vitória na guerra ideológico-politica. Há dois anos eles se empanturram de caviar russo, lagosta norte-americana, queijo suíço… Mais champanhe francesa, por favor. O vinho italiano nunca mais vai faltar no altar do Ministério da Guerra.

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Mais distantes da Lei do que da barbárie, os policiais daquele país dizem odiar o crime, exceto quando eles mesmos os cometem produzindo relatórios mentirosos sobre fatos que não ocorreram ou que aconteceram de maneira diversa. Mas não se enganem. Esses policiais criminosos não temem ser punidos. Os crimes deles são tolerados pelo Judiciário. Quando sofrem alguma sanção os policiais comemoram o fato de que expulsos da PM serão imediatamente admitidos numa milícia com salário maior do que aquele que ganhavam no serviço público.

Naquele país muito muito distante, o Estado ficou cada vez mais distante do povo e o povo, coitado, cada vez mais distante da comida. A fome tem o poder de causar uma verdadeira revolução, eu suponho. Todavia, me parece evidente que os famintos, embora sejam a maioria, encontrarão muita resistência dos juízes, promotores, advogados, médicos, pastores, professores, jornalistas, militares, esquerdistas, e outros “istas” etc bem alimentados.

Os protagonistas tradicionais da revolução odeiam revolucionários, especialmente se eles forem miseráveis. O que emana da pobreza além do mau hálito e do cheiro de perfume barato?

O maná daquele país muito muito distante sempre foi uma curiosa mistura de racismo e antropofagia. Aqueles que se julgam melhores (mais brancos, superiores, etc) devoram ferozmente o Leviatã. E eles nunca deixarão de usar violência extrema e letal contra os famintos que eles mesmos ajudaram a criar.

Melhor deixar tudo como está, dizem em segredo os revolucionários bem alimentados e muito muito distantes da fome. Exceto no que diz respeito aos índios, objetam alguns deles. E por causa disso os índios provavelmente perderão tudo que tem, muito embora eles tenham muito pouco.

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