21 de maio de 2026

Universidades, socorro!! Guedes e Weintraub são armas de destruição em massa, por Frederico Firmo

O desenvolvimento dos países asiáticos só foi possível porque criaram uma massa crítica formada por pessoas capacitadas para deglutir, digerir os conhecimentos gerados em qualquer parte do mundo e criar novos conhecimentos.

Universidades, socorro!! Guedes e Weintraub são armas de destruição em massa

por Frederico Firmo

No mundo de hoje o maior valor de uma sociedade não está nas coisas concretas mas sim na posse do conhecimento. O pré sal é um exemplo, onde de nada valeria a existência deste petróleo sem o conhecimento científico e tecnológico desenvolvido que possibilitou sua exploração. Um país sem conhecimento é um país dependente condenado a viver apenas de serviços ou da venda da mão de obra barata. Nem a soja sobreviveria, pois a que temos é em grande parte fruto das pesquisas da EMBRAPA. As ações dos agentes de destruição em massa, Guedes e Weintraub podem levar à destruição das estruturas de produção de conhecimento no país.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O primeiro passo para a destruição das Instituições de Ensino e Pesquisa no País foi dado pela PEC do orçamento e o discurso ilusório de que cortar gastos públicos é fazer cortes gerais em todas as direções. Em nome da austeridade fiscal impôs-se que orçamento de todas as instituições seriam congelados. Quando impôs-se que não haveria novos contratos, que os aposentados não seriam repostos vaticinaram a extinção da produção de conhecimento no país. Muitos anos atrás conversando com Daniel Bés, um dos grandes físicos argentinos, ele me confidenciou muito triste que a física argentina estaria morrendo. Aquilo me assustou pois havia na Argentina físicos de alto nível, produzindo trabalhos importantes. Mas Daniel me explicou dizendo: se você for visitar nossas instituições você encontrará os mesmos de vinte anos atrás. Sem renovação é a morte. A Argentina vivia uma onda liberal que deixou marcas até hoje. Sem mais notícias, eu espero que tenham sobrevivido ou ainda tenham forças para lutar pela sobrevivência, como parece ser a sina nesta América Latina. Mas a diáspora de cérebros impactou profundamente a Argentina.

O Brasil na década de 80 houve uma expansão das Universidades. É desta época a criação e consolidação de grande parte das Universidades Federais.  A abertura de posições levou a contratação de grande parte do contingente atual  de professores das universidades brasileiras. Lá se vão 40 anos. Nestes quarenta anos, Universidades incipientes se tornaram Universidades respeitadas, formaram não apenas alunos mas também seus próprios professores que foram se doutorar no Brasil ou em grandes centros no exterior. Criou-se importantes grupos de pesquisa teórica e experimental. Para ficar apenas na área da Física, o desenvolvimento da Física Nuclear no país teve consequências tecnológicas tanto no que tange os reatores nucleares, como o domínio do ciclo do enriquecimento de urânico, afora os inúmeros trabalhos científicos importantes cujo peso só pode ser apreciado pela comunidade científica nacional e internacional. Para dar outros exemplos, os grupos das universidades da área de Óptica e Informação Quântica deram origem ao  Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Informação Quântica . Um Instituto sólido e respeitado em todo o mundo. A Física de Estado Sólido  é na verdade formada por inúmeras sub-áreas  fundamentais espalhadas por várias universidades, já trouxe contribuições importantes a física e para a tecnologia de hoje. A Astrofísica Brasileira, hoje na ponta,  trabalha e gerencia alguns dos maiores telescópios do mundo e  tem produzido inúmeros trabalhos importantes. A Meteorologia se torno mais conhecida inclusive pela longa lista de trabalhos prestados  pelo INPE CPTEC, EPAGRI e outros.  A Física de Partículas e Teorias de Campo, se desenvolve através de vários grupos de várias universidades de dão continuidade  aos  trabalhos fundamentais desde César Lattes,Leite Lopes,Jayme Tiommo,Mário Schoenberg etc…

Vou parar por aqui apenas deixando claro que devo ter deixado de fora áreas e cientistas importantes da física e que o que aqui falo sobre a Física  deve ter ocorrido em todas as áreas do conhecimento . Ao longo dos quarenta anos, além de ajudar no desenvolvimento de universidades públicas de qualidade, o crescimento destes grupos sofreu altos e baixos, mas soube como nunca usufruir de períodos mais estimulantes. Períodos quando se tornou quotidiano formar alunos, estabelecer grupos de pesquisa, se inserir na comunidade internacional através de intercâmbios, visitas, conferências. Nestes períodos formava-se novos pesquisadores com a certeza de que os mesmos teriam depois de um doutorado ou pós doutorado posições nas universidades em expansão. Esta expansão foi um grande passo no percurso para formar uma massa crítica grande e densa de pesquisadores, cientistas, pensadores, técnicos, em todas as áreas que podem colocar o país numa posição de soberania numa sociedade global baseada em conhecimento.

A expansão e formação de uma massa crítica é bem mais importante do que restringir as verbas apenas a alguns centros de pesquisa já estabelecidos. Contrariamente ao que alguns ainda defendem, o país precisa de mais universidades públicas onde a formação ande lado a lado com a pesquisa em todas as áreas. O país precisa de uma massa crítica, suficientemente grande, capaz de de criar e absorver todo o conhecimento criado e gerado no mundo. O maior capital de qualquer país é a sua capacidade de dominar os conhecimentos. O desenvolvimento dos países asiáticos só foi possível porque criaram uma massa crítica formada por pessoas capacitadas para deglutir, digerir os conhecimentos gerados em qualquer parte do mundo e criar novos conhecimentos.

No momento corre-se um risco real de destruir tudo o que foi construído. O grande número de contratações 40 anos atrás, com a criação e ou expansão da maioria das Universidades Federais, indica que grande parte destes professores pode e ou deve se aposentar nos próximos anos. As ameaças seguidas e a insegurança está levando uma grande parte destes professores a pedirem aposentadoria. Os ataques sucessivos à universidade por parte do ministro, os cortes sucessivos em nome da diminuição dos gastos públicos, também têm sido um motivador de aposentadorias. A impossibilidade de novos contratos vai gerar um esvaziamento dos quadros inviabilizando a Universidade. O mesmo efeito tem sido sentido no INSS, e Receita Federal. As consequências deste esvaziamento será o mais puro obscurantismo. Enquanto isto o ministro da Educação insiste em transformar a universidade pública de qualidade numa cópia de universidade privada sem qualidade através de um projeto que não dá nenhum Futuro.

Isto se agrava mais ainda quando este processo de destruição se instaura logo após a criação de 18 universidades, e duas centenas de Institutos Técnicos Federais. As universidades recém criadas estão em construção, isto é, precisam de mais orçamento para construção de sua infra estrutura. Precisam da contratação gradual de novos professores e pesquisadores na medida em que os cursos forem se desenvolvendo e sendo criados. Por uma questão de boa gestão, quando um curso é criado os professores são contratados na medida em que os cursos vão sendo ministrados. A contratação para os anos finais de cada curso só irão ocorrer posteriormente. A tal austeridade fiscal vai inviabilizar cursos e universidades e em nome da austeridade fiscal e  diminuição dos gastos públicos isto vai transformar o investimento já feito  em dinheiro jogado fora.

As obras, paralisadas nas universidades pela tal PEC do orçamento, só demonstram como esta falsa austeridade fiscal cria novas ruínas modernas, com os esqueletos dos prédios se transformam em monumentos  em homenagem ao  dinheiro jogado fora. Laboratórios de Pesquisa, sem verbas não podem ser criados e ou se tornam sucata pela falta de dinheiro para novos equipamentos e ou insumos básicos de manutenção das pesquisas. Temos um governo que confunde Política de Estado com Política de Governo. Se considerasse a Educação uma política de Estado não teria escolhido um ministro como Weintraub. Não bastasse o papel da Lava Jato na paralisação de obras, temos agora um Guedes Mão de Tesoura que não sabe sequer podar uma árvore, ele a derruba.

A proposta de fusão da CAPES e CNPq irá destruir um sistema exitoso de formação e produção de conhecimento. Um sistema de sucesso gestado e desenvolvido ao longo de governos desde a época de Vargas. Mas para o atual Ministro o passado é apenas vermelho e tem que ser destruído. Este é um ministro mal intencionado, pois afinal foi professor de uma universidade federal. Não deveria ser ignorante sobre a ciência no Brasil nem sobre a Universidade e sobre os Centros de Pesquisa. Porém demonstra ter como foco a destruição não apenas das Universidades, mas também das Instituições que promovem e avaliam a produção de conhecimento. Todas as ações e medidas nos permitem conjecturar que Wientraub age em  parceria com o destruidor do futuro, Guedes, que além de operador do mercado é um empresário educacional, cuja irmã tem trânsito livre no MEC.

Nesta trajetória de atentados e destruição, um ministro que é ex professor de uma Universidade Federal finge desconhecer o papel das conferências e congressos no país, quando lança uma norma burocrática proibindo que dois professores de uma mesma unidade participem de uma mesma conferência. Indo mais longe, proíbe a liberação mesmo que o professor tenha financiamento garantido. A não ser que seja por ressentimento, não consigo conceber que um ex-professor desconheça tanto a realidade da pesquisa na sua própria Universidade. Mas é patente que o Ministro está usando o imaginário popular sobre  uma repartição pública, onde funcionários teriam a mesma função. Evocando a contenção de despesas a chefia restringe a licença a apenas um por unidade. Esta manipulação midiática apela também para o  ressentimento, o que  tem sido a marca registrada deste governo e do golpismo. Weintraub sabe o que está fazendo, afinal pois  já foi alertado e esclarecido pelas lideranças da comunidade científica. Porém Weintraub vai fazer ouvidos moucos.

Para esclarecer os leitores, é importante dizer que boa parte do desenvolvimento da Física no país, se deve a existência de Reuniões Anuais de Trabalho promovidas pela Sociedade Brasileira de Física. Nestas reuniões, usualmente realizadas nas proximidades da Poços de Caldas de Nassif, pesquisadores do país e convidados internacionais se reunem para compartilhar o conhecimento produzido. Nestas Reuniões de Trabalho Grupos inteiros de pesquisadores, professores, mestrandos e doutorandos das diversas universidades colocam em julgamento e avaliação pela comunidade científica seus trabalhos. Uma conferência e ou reunião de trabalho é um momento de troca, compartilhamento, criação de novas parcerias e de avaliação do trabalho realizado.

Estas Reuniões de Trabalho estão no cerne do desenvolvimento e formação dos grupos de pesquisa no país. Me recordo que as primeiras Reuniões de Trabalho em Física Nuclear contavam apenas com um número reduzido de pesquisadores experientes e um número maior de jovens mestrandos e doutorandos. Hoje estas Reuniões se expandiram, aumentaram não apenas em quantidade de pesquisadores experientes, mas também em áreas de pesquisa. As reuniões se tornaram cada vez mais internacionais e a participação de grupos inteiros, isto é de todos os pesquisadores de um dado grupo, tem sido crucial para este desenvolvimento. Aos que desconhecem o trabalho de pesquisa, a inscrição em Conferências, não é feito por instituição mas sim por trabalhos científicos. O aceite de um número grande de trabalhos de uma mesma instituição demonstra a qualidade e produtividade desta instituição. No linguajar liberal , nas Reuniões de Trabalho a produtividade e a qualidade é avaliada. Em outras palavras o Ministro do governo liberal quer que se tenha cada vez menos avaliação e menos produção.

O atual governo parece focalizar de forma odienta a universidade, a ciência e o conhecimento em geral. Manipulando um ilusório imaginário popular, excita os ressentidos e a falta de conhecimento sobre a universidade. Para grande maioria da população o professor na universidade apenas ministra aulas. Porém, professores com dedicação exclusiva, utilizam pelo menos vinte horas semanais desenvolvendo pesquisas, formando grupos de pesquisas, orientando , mestrandos e doutorandos e difundindo o conhecimento produzido em Conferências e em publicações de artigos em periódicos científicos nacionais e internacionais. As propostas ministeriais parecem querer que esta universidade não tenha Futuro, e se enquadrem  cada vez mais no figurino das empresas educacionais.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Comentários fechados.

Recomendados para você

Recomendados