Urge mudar nossa visão sobre economia e política, por Roberto Bitencourt da Silva

por Roberto Bitencourt da Silva

Levando em conta fenômenos econômicos e políticos da conjuntura e mirando o retrovisor do tempo, assim como algo que se possa chamar de futuro em nosso país, abaixo chamo a atenção para sérias limitações em nossas percepções de sociedade e Estado, derivadas da hegemonia do pensamento liberal.

Limitações com força de incidência na ação e no pensamento político, sobretudo das esquerdas e dos movimentos sociais. Somente esses atores políticos podem ser os mais consequentes para desempenhar o papel de inibir o golpismo entreguista em curso, proteger as garantias individuais e sociais da Constituição, perseguir mudanças sociais e políticas progressistas, como também defender a soberania nacional.

Mas, para isso, faz-se necessário escantear categorias de percepção, não raro, assimiladas da retórica das estruturas de poder mundial e eivadas de preocupações e sentidos que são incompatíveis com o nosso tempo ou com os desafios relacionados ao nosso perfil de inserção no mundo.

1. Está mais do que na hora de mudar o software mental e deixar de lado o efeito, o secundário e passageiro, priorizando o essencial. Em primeiro lugar, é descolonizar nossa cosmovisão sobre o Brasil e o mundo.

2. O liberalismo ensina todo dia que o mundo da concorrência empresarial é o ideal para garantir a livre escolha dos sujeitos e o bem-estar coletivo.

3. O problema é que esse mundo não existe. Há muitas décadas – e isso tem se intensificado nos últimos anos – a cena mundial é regida pelas corporações multinacionais. O mundo é dos monopólios e oligopólios privados.

4. A liberdade de escolha do sujeito consumidor é praticamente inexistente, pois condicionado dia a dia por intensa propaganda.

5. O sujeito pensa que é livre, mas é tratado como objeto gerador de lucros para as corporações. Em elevada medida, os seus próprios desejos são artificialmente criados.

6. As corporações multinacionais nada investem em países como o Brasil. No máximo antecipam recursos para criação de unidades fabris, que importam seus equipamentos, estabelecem os preços que bem entendem e transferem os seus lucros para fora, extraindo riquezas de onde se instalam. Ademais, pagam pouco ou nada em impostos.

7. Mais vale, com esforço nacional próprio, em vez de financiar megacorporações internacionais e a acumulação capitalista em outras praças, criar e manter as próprias indústrias, de modo a preservar as riquezas no país, incentivar o domínio tecnológico e a geração de empregos adensados.

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8. Só o Estado pode fazer isso. As classes dominantes no Brasil são tipicamente vende pátria, parasitárias e rentistas: grandes fazendeiros, multinacionais na indústria, bancos e especuladores imobiliários e financeiros. Com esses setores no comando do país, o povo trabalhador não tem voz nem vez. E o país dotado de parco domínio técnico-cientifico.

9. O renitente e inconsequente antiestatismo econômico deve ser superado por amplas faixas das classes populares e médias e dos segmentos políticos à esquerda. No mundo do capitalismo realmente existente, para financiar o grande capital e a concentração de renda, o Estado é fortíssimo. Urge reorientá-lo para o bem-estar social e a soberania nacional.

10. O cenário mundial é altamente preocupante em função da lógica totalitária e imperialista dos EUA, guardião armado do grande capital internacional.

11. Nações como o Brasil, que integram a periferia capitalista, são concebidas como meras fornecedoras de matérias-primas, fontes de energia e alimentos, pelo centro imperial do mundo.

12. A síndrome de vira-latas do entreguismo aposta decisivamente nos pretensos “investimentos externos”, por interpretar o brasileiro como incapaz de engenho criativo e esforço próprio. Um racismo mal disfarçado atravessa a cantilena da louvação a tais “investimentos”, que nada investem, vivendo apenas de sangrias dos orçamentos públicos e de preços oligopolizados ao consumidor.

13. O golpe parlamentar-judicial-midiático em curso no país é reflexo de uma intensificação da espoliação mundial capitalista, que tem buscado senão o desmonte, o estrangulamento de Estados nacionais na periferia. Líbia, Síria, Venezuela, Irã, são alguns casos mais dramáticos.

14. No mundo em que vivemos, onde a assimetria e as relações opressivas entre centro e periferia são crescentes, falar em democracia e autoritarismo é quase perda de tempo, uma erudição abstrata, ahistórica e desencarnada, notadamente pautada pelos cânones do mainstream estadunidense.

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15. Não existe A DEMOCRACIA, mas versões e experiências plurais, que dão maiores acentos a dimensões diferentes, nas esferas política, social/distributiva, econômica, direitos individuais.

16. As linhas que definem o mundo, infelizmente, estão além disso. São feias, sujas e cruéis.

17. O centro da reflexão e da ação política em nosso país deveria girar em torno do tema soberania nacional. Sem ela, o fiapo de democracia que possuímos morrerá de vez.

18. À esquerda, se fôssemos pensar em revolução das estruturas sociais, a questão da soberania nacional estaria forçosamente presente. Romper as cadeias da dependência e da subalternidade externa, que condicionam a vida nacional, é o eixo da revolução brasileira. Sem isso, as esquerdas devem esquecer qualquer conversa sobre revolução.

19. A hipótese revolucionária demandaria não apenas um trabalho pedagógico, organizacional e mobilizatório das esquerdas, das classes populares e frações da pequena burguesia. Iria requerer, senão uma participação ativa de importantes faixas das Forças Armadas, ao menos uma posição neutra ou passiva delas em relação a eventual mobilização popular transformadora. Reacionarismo de frações da cúpula à parte, se o tema é soberania nacional, em tese as Forças Armadas não podem ser concebidas como atores alheios e indiferentes.

20. Revolução imaginada a partir de guerrilhas, em um país da dimensão continental brasileira, a própria História já deu o seu parecer. Ademais, as novas tecnologias de destruição, vigilância e controle são notoriamente sofisticadas e abrangentes. Por isso, ativa ou passivamente, é inescapável fazer menção às Forças Armadas.

21. Obviamente, não há um pingo de possibilidade nesse sentido no horizonte.

22. Pelo contrário, há um refluxo significativo das pautas das esquerdas. Em boa medida devido ao precário trabalho político dos últimos anos junto a grossa parte da população, bem como em função da timidez programática e da acomodação de importantes parcelas das esquerdas à ordem política e econômica vigente.

23. No entanto, se os últimos pontos valeriam, como hipótese para uma revolução, vale mais ainda para o cenário atual de desmonte do país, de incremento da condição neocolonial.

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24. Não há um direito coletivo, um bem ou patrimônio nacional que não esteja sob o risco de alienação, para satisfazer os interesses do capital internacional.

25. De instituições como os Poderes Legislativo e Executivo – amplamente controlados por oligarquias testas de ferro do grande capital nacional e estrangeiro –, do sistema político-eleitoral e do Judiciário, não há nada a esperar. Em regra, estão sabotando o Brasil; só têm jogado contra o Povo.

26. O passado brasileiro: os direitos trabalhistas, reivindicados por décadas pelos trabalhadores e pelas esquerdas, só foram conquistados com suporte do Exército, nos anos 1930. A criação da Petrobras idem. Muitos direitos sociais na Constituição de 1988 contaram com o silêncio militar e com a enorme mobilização e organização dos trabalhadores e das esquerdas, inclusive greves gerais (de verdade), no curso da década de 1980.

27. Ou a gente muda o software mental sobre política e economia ou não vai sobrar nada. Uma terra de indivíduos dispersos, atomizados, uma maioria sob a condição de zumbi superexplorada, para saciar a gula predatória das classes dominantes domésticas e externas.

28. As lutas pela defesa dos interesses nacionais e populares levarão tempo e não serão eleições que resolverão os graves problemas vigentes. Antes de qualquer coisa, os trabalhadores precisam se organizar e se mobilizar, acompanhar o engenho e a dedicação da juventude estudantil.

29. As esquerdas precisam ter ousadia programática, deixar de lado o contrabando liberal e entreguista em suas visões de país e desenvolver ações que permitam disputar a agenda pública, com projeto de Nação. Seriam ações relevantes e urgentes.

30. Quase escrevi que as esquerdas precisam desenvolver um projeto alternativo de Nação. Bobagem. Com a camarilha que se encontra no poder, as esquerdas precisam ser a alternativa à derrocada completa da Nação.

Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.

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11 comentários

  1. urge….

    No caso do Brasil: DESESPERADAMENTE !!! Continuamos com uma visão pseudo-esquerdista embolorada contra o capitalismo. Algo abandonado até por países verdadeiramente comunistas como Cuba ou China. Entregamos mercados e fontes de matérias primas como fazíamos nos séculos 16 ou 17. É uma aberração. Não usamos o potencial extraordinário de transformação social, educacional, econômico, tecnológico, promovido pela industrialização. Estamos patinando numa discussão que teve lugar há 3 séculos atrás. É o tamanho do nosso atraso.  

  2. Atenção especial ao item

    Atenção especial ao item 13

    “intensificação da espoliação mundial capitalista, que tem buscado senão o desmonte, o estrangulamento de Estados nacionais na periferia. Líbia, Síria, Venezuela, Irã, são alguns casos mais dramáticos.”

    A PEC 55 vai colocar o rentismo brasileiro na centro do debate eleitoral – ao longo dos 200 anos do nosso sistema não-autônomo de dominação da elite “brasileira, evitar isto sempre foi um dos principais objetivos – isto a cabeça do povo chegando onde está a verdadeira política no país, o temo em torno do qual tudo gira.

     

    Será que o sistema de dominação do Eixo City-Wall Street já não havia previsto isto? Será que eles realmente não previram que vai haver uma avalanche da esquerda nas eleições de 2020 e 2022, quiçá já agora em 2018, porque todo o debate vai girar em torno de “você é a favor ou contra a PEC”.

    Graças a PEC, as pessoas vão passar a dar valor pro congresso na hora de votar, e graças a PEC elas vão se conscientizar que precisam eleger uns 400 deputados da frente ampla da esquerda que está por se contruir – isto é suficiente pra mudar tudo no páis, até pra fazer uma nova constituição.

     

    A classe média alta brasileira são pessoas ignorantes, muito impressionáveis consige mesmas, tomadas pela soberba e narcisismo, desprovidas de cultura, assim como o são os jovens e a classe média alta mulçumana dos países mencionados – são muito similares em termos de consciência do que eles são no mundo e muito facilmente arrigimentáveis por PsyOps que gerarão sua própria destruição. Eles jamais perceberiam nada do que está acontecendo, mas e os estrategistas do Eixo City-Wall Street? Será que eles não conseguem calcular o que vai acontencer, sendo que é um cálculo tão óbvio?   

  3. Resumindo… fora fhc e sua

    Resumindo… fora fhc e sua gang! Queremos nossos votos de volta! Queremos a volta da democracia! Não queremos essa ditadura monstruosa dos apátridas bastardos… Devolvam a presidência para a Pª Dilma Roussef e para o seu Chefe da Casa Civil Exmo Sr Lula da Silva! Eles é que irão decidir se os caminhos apontados pelo autor do post, Sr Roberto Bitencourt da Silva, podem ser viabilizados! Reforçando, gostaria de pedir aos colegas não golpistas, os políticos principalmente, que não percam o foco com solicitações de impeachment e nem com discussões comandadas pelos ditadores. Gostariamos de vê-los focados na luta pelo retorno da nossa Pª Dilma Roussef A Legítima, com o seu Chefe da Casa Civil Exmo Sr Lula da Silva… e fora os bastardos ditadores filhosdelasputanas!

  4. Sobre revolução falavam a

    Sobre revolução falavam a mesma COVARDIA em 68 e os que falavam também eram escrevinhadores,a mídia de esquerda nunca foi valente como a da direita,jamais convocou o POVO a luta é a tal da esquerda caviar é o grito que ainda ecoa dos que lutavam;Viva o coito anal a POLOP é vergonha nacional.

  5. “Antes de qualquer coisa, os

    “Antes de qualquer coisa, os trabalhadores precisam se organizar e se mobilizar, acompanhar o engenho e a dedicação da juventude estudantil.”

    Eis um grande desafio. Numa nação manipulada por uma imprensa que ‘edita’ as ordens do dia para milhões que deveriam ler e ouvir com muito cuidado tudo o que chega ao nosso alcance pedir por organização da classe trabalhadora, que não é homogênica, é uma tarefa difícil.

    Além do mais, todos os interesses que estão em jogo quando grupos de grande influência e poder como os empresários, banqueiros, políticos e magistrados agem em afronta às reais necessidades da população, do país e à Constituição.

    Nesse cenário, em que uma campanha para caçar um grupo político – e uma liderança – foi lançada a custo de milhões de emprego e da própria noção de Estado de Direito, fica complicado organizar e debater algo importante e maior como os rumos da nação e seu papel no mundo.

    É de lamentar que a população não consiga enxergar a diferença entre a seletiva combate à corrupção e tentativa de impedir um líder de seguir na vida política nacional.

  6. Que mundo é esse?
    Prezado Roberto Bitencourt da Silva Escrevo sobre estes temas, geralmente no Pátria Latina, Dinâmica Global e no Monitor Mercantil. Chamo “a banca” o sistema financeiro internacional que se apossou dos controles da economia, da política e da vida dos povos, principalmente depois de 1989. Isto está até escrito por Mohamed El-Erian, exPresidente da PIMCO, vice-diretor geral do FMI etc (A Única Solução, D.Quixote, 2016). A banca soube melhor do que qualquer outro grupo usar os recursos da informática, das teorias da informação e dos sistemas gerais. É o único setor realmente global. Seus dois objetivos são: apropriar-se de todos os ganhos dos setores econômicos e promover a permanente concentração de renda. As estatísticas nacionais e internacionais de 1990 até hoje mostram que a banca está conseguindo. Mas o perigo maior para ela, salvo países de governo nacionalista, como a Rússia (daí os bloqueios e acusações que recebe) é a pressão demográfica, que vem respondendo com guerras e migrações. Com os drones, as guerras são feitas em escritórios. E este é o inimigo de todos nós, humanos que não pertencemos às 100 famílias que controlam a banca. Minha proposta é a construção da cidadania. É um processo que pode levar à liberdade e à consciência de tê-la. Mas não é, de modo algum, fácil e rápido.

  7. Vejo mudanças de pensamento

    Nunca vi tanta gente escrever que necessitamos de uma revolução, na sua acepção correta da palavra!

    Não estarei vivo para ver tal tão sonhado dia, pela minha idade, mas estou seguro que a faremos e logo. Assim teremos a segurançade que nossos filhos, netos e todos os demais jovens brasileiros, poderão viver em uma sociedade  democrática, onde todos tenham direito aos beneficios advindos disto, sistema juridico válido para todos igualmente, oportunidades semelhantes, distribuição de renda mais equanime, termos nosso Brasil dirigido internamente e não pelos serviços de inteligência e corporações internacionais.  

    Mas sou seguro, SEM LUTA NÃO VAMOS SAIR DESTA SITUAÇÃO, EM QUE FOMOS COLOCADOS PELA NOSSA CANALHA ELITE!

     

  8. Panfletando com nosso

    Panfletando com nosso coletivo em uma das esquinas mais movimentadas e populares de Fpolis, há cerca de 3 meses  atrás , as pessoas não sabiam o que é o pré sal. No começo achei que estava zoando comigo mas logo percebi que estavam falando sério. O panfleto era da FUP e eu dizia: o pré sal é nosso, e me perguntavam : pre´sal? o q é isto? não foi um nem dois foram muitos. é claro que havia quem soubesse e até quem fazia questão de pegar o folheto. Conto esta historinha muitas vezes para que tenhamos noção da tarefa que temos pela frente.

  9. O PROBLEMA É QUE A ESQUERDA SE VENDEU!

    QUER UMA PROVA?

    Responda: Por que nossos partidos “amiguinhos do povo” não estão exigindo em suas camisetas, grandes faixas, blogs, carros de som, programas de TV, etc, o

    REFERENDO SOBRE A PEC 55?

    A resposta está nos links abaixo, e duvido que alguém conteste:

    1) Tem gente levando propina de bilhões pra deixar vender o Pré Sal:

    https://www.facebook.com/democracia.direta.brasileira/photos/a.300951956707140.1073741826.300330306769305/856424677826529/?type=3&theater
     

    2) PT luta com todas as forças, para que o povo não tenha como interferir em seus “negócios”:

    https://www.facebook.com/democracia.direta.brasileira/photos/a.300951956707140.1073741826.300330306769305/854096261392704/?type=3&theater 

    3) O PT perdeu a vergonha:

    https://www.facebook.com/democracia.direta.brasileira/photos/a.300951956707140.1073741826.300330306769305/869151879887142/?type=3&theater

     

  10. http://outraspalavras.net/bra

    http://outraspalavras.net/brasil/polemica-o-porque-das-previas-cidadas/

    Dá para pensar e muito. Novas formas, novas idéias, tentando perceber como segundo Deleuze, nossa subjetividade é capitalista, a partir do reconhcimneto que se dá a cada dia, a cada palavra, pensamento e ação nossos desta subjetividade que em nós é semeada antes mesmo de nascermos e,  com coragem , sinceridade e  afeto , nos deixando afetar pelo que acreditamos ser bom para todos, aí sim podemos .

  11. A omissão das FFAA

    A inexplicável omissão das FFAA diante da entrega do patrimônio nacional a aventureiros estrangeiros:

     

    A MISSÃO DO MINISTÉRIO DA DEFESA (Do portal http://www.defesa.gov.br/):

    “Coordenar o esforço integrado de defesa, visando contribuir para a garantia da SOBERANIA, dos poderes constitucionais, da lei e da ordem, do PATRIMÔNIO NACIONAL, a  SALVAGUARDA DOS INTERESSES  NACIONAIS  e o incremento da inserção do Brasil no cenário internacional.”

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