Vidas divorciadas: Robin Hood e Cunhambebe, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Vidas divorciadas: Robin Hood e Cunhambebe

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Peço ao leitor que preste especial atenção aos dois parágrafos abaixo. Eles são essenciais para compreender o resto do texto: 

Eles moravam na floresta e eram considerados fora-da-lei pelos que viviam numa cidadela fortificada. A religião para eles não era muito importante, pois eles sabiam que a Igreja estava ao lado dos poderosos que invadiam a floresta para persegui-los. O líder deles era um exímio arqueiro, capaz de colocar uma flecha no olho de um inimigo a 30 metros de distância. Mas ele não tinha nenhum título, tampouco usava a força para ser obedecido.

A liderança entre os fora-da-lei era consensual e obtida pelo exemplo. Mas quando precisavam decidir algo importante eles se reuniam e discutiam e adotavam a decisão que fosse apoiada pela maioria. Não havia hierarquia entre eles e as tarefas cotidianas (caçar e cozinhar) eram divididas. Os inimigos deles eram ricos e monopolizavam a Lei, mas não eram justos. Portanto, eles achavam justo agir como salteadores para se salvar da pobreza.

A descrição feita acima se ajusta perfeitamente à comunidade imaginária liderada por Robin Hood, herói mítico que segue inspirando escritores e cineastas. Mas ela também se aplica às malocas de tupinambás no litoral paulista durante o século XVI. Todavia, há uma diferença brutal no tratamento dado às duas comunidades e seus líderes. Enquanto Robin Hood é valorizado, lembrado e retratado de maneira positiva, Cunhambebe foi expulso do imaginário brasileiro e a imagem que fazemos dele (quando ele é citado) é sempre negativa.

Onde erramos? Quinhentos anos após a invasão deste imenso território (que hoje nós chamamos de Brasil) ainda contamos uma ficção para nós mesmos: nossos antepassados “colonizaram” uma terra incógnita. Todavia, Pindorama não era incógnita para os indígenas, tampouco estava desabitada quando os portugueses cá chegaram. O processo de ocupação deste território foi violento e extremamente injusto para com aqueles que aqui habitavam.

Esta injustiça ainda se expressa na imagem negativa que fazemos de Cunhambebe. Injustiça que se multiplica ao infinito quando procuramos longe de nossa própria história um personagem substituto que preencha o vazio deixado pela impossibilidade cultural de encontrar aqui mesmo um paradigma para a luta contra os abusos cometidos pelos poderosos. Pior, ao adotar Robin Hood (um estrangeiro fictício) possibilitamos que a histórica da invasão e ocupação violenta de Pindorama possa continuar a ser contada como sendo um ato bom e justo.  

O ato fundador injusto segue justificando todas as outras injustiças: assassinatos cometidos por policiais, impunidade dos assassinos estatais, golpes de estado contra a vontade popular e a exclusão econômica, política e social da esmagadora maioria da população que fomenta a barbárie nossa de cada dia. 

 

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