4 de junho de 2026

Vidas divorciadas: Robin Hood e Cunhambebe, por Fábio de Oliveira Ribeiro

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Vidas divorciadas: Robin Hood e Cunhambebe

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Peço ao leitor que preste especial atenção aos dois parágrafos abaixo. Eles são essenciais para compreender o resto do texto: 

Eles moravam na floresta e eram considerados fora-da-lei pelos que viviam numa cidadela fortificada. A religião para eles não era muito importante, pois eles sabiam que a Igreja estava ao lado dos poderosos que invadiam a floresta para persegui-los. O líder deles era um exímio arqueiro, capaz de colocar uma flecha no olho de um inimigo a 30 metros de distância. Mas ele não tinha nenhum título, tampouco usava a força para ser obedecido.

A liderança entre os fora-da-lei era consensual e obtida pelo exemplo. Mas quando precisavam decidir algo importante eles se reuniam e discutiam e adotavam a decisão que fosse apoiada pela maioria. Não havia hierarquia entre eles e as tarefas cotidianas (caçar e cozinhar) eram divididas. Os inimigos deles eram ricos e monopolizavam a Lei, mas não eram justos. Portanto, eles achavam justo agir como salteadores para se salvar da pobreza.

A descrição feita acima se ajusta perfeitamente à comunidade imaginária liderada por Robin Hood, herói mítico que segue inspirando escritores e cineastas. Mas ela também se aplica às malocas de tupinambás no litoral paulista durante o século XVI. Todavia, há uma diferença brutal no tratamento dado às duas comunidades e seus líderes. Enquanto Robin Hood é valorizado, lembrado e retratado de maneira positiva, Cunhambebe foi expulso do imaginário brasileiro e a imagem que fazemos dele (quando ele é citado) é sempre negativa.

Onde erramos? Quinhentos anos após a invasão deste imenso território (que hoje nós chamamos de Brasil) ainda contamos uma ficção para nós mesmos: nossos antepassados “colonizaram” uma terra incógnita. Todavia, Pindorama não era incógnita para os indígenas, tampouco estava desabitada quando os portugueses cá chegaram. O processo de ocupação deste território foi violento e extremamente injusto para com aqueles que aqui habitavam.

Esta injustiça ainda se expressa na imagem negativa que fazemos de Cunhambebe. Injustiça que se multiplica ao infinito quando procuramos longe de nossa própria história um personagem substituto que preencha o vazio deixado pela impossibilidade cultural de encontrar aqui mesmo um paradigma para a luta contra os abusos cometidos pelos poderosos. Pior, ao adotar Robin Hood (um estrangeiro fictício) possibilitamos que a histórica da invasão e ocupação violenta de Pindorama possa continuar a ser contada como sendo um ato bom e justo.  

O ato fundador injusto segue justificando todas as outras injustiças: assassinatos cometidos por policiais, impunidade dos assassinos estatais, golpes de estado contra a vontade popular e a exclusão econômica, política e social da esmagadora maioria da população que fomenta a barbárie nossa de cada dia. 

 

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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7 Comentários
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  1. Jotage

    3 de abril de 2017 10:33 pm

    Cunhambebe

    Fosse vivo Cunhambebe hoje, estaria nas masmorras de Curitiba.

  2. WG

    3 de abril de 2017 10:37 pm

    Mais uma sacada muito boa,

    Mais uma sacada muito boa, Fábio. É preciso reescrever a história do Brasil, a passada e a presente.

  3. jose carlos vieira filho

    3 de abril de 2017 11:47 pm

    história

    um povo que não conhece sua história não tem presente, não tem futuro.

  4. CunhambebeReal

    4 de abril de 2017 2:56 am

    Meu Querido Canibal, Antonio

    Meu Querido Canibal, Antonio Torres http://www.saraiva.com.br/meu-querido-canibal-443940.html

  5. Eudes Gouveia da Silva

    4 de abril de 2017 10:31 am

    Prestei atenção nos dois
    Prestei atenção nos dois primeiros parágrafos como alertou o autor. E? Nada.
    Pois é, o autor sustenta que Cunhambebe é sistematicamente omitido dá história mas faz o mesmo: omite quem foi e o que fez Cunhambebe.
    A única virtude do texto é chamar a atenção para o personagem.
    Vamos ao Google.

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      4 de abril de 2017 12:11 pm

      Prestei atenção ao seu

      Prestei atenção ao seu comentário… e nada.

      Você não passa de um nóia contraditório.

      Além de ignorar a principal característica do texto (a oposição entre a valorização midiática de Robin Hood e a desvalorização de Cunhambebe pelo esquecimento seletivo), você foi incapaz de perceber que meu objetivo era justamente “… chamar a atenção para o personagem” soterrado pela história oficial brasileira. 

      No mais, digo a você o que os “tiras” dizem às suas vítimas:

      Circulando, vagabundo!

  6. Trunfim

    4 de abril de 2017 11:14 am

    A História do Brasil é a da traição

                Realmente parece que primeiro foi Cunhambebe, traído pelos Jesuítas, fez acordo de paz e ao depor as armas seu povo foi exterminado. 

                Depois foram muitos outros. Promessas de liberdade e terras às famílias dos Escravos que integrassem o Exército e fossem para as guerras. Temos o massacre dos Lanceiros em Cerro dos Porongos, as vítimas da seca confinadas em Campos de Concentração cercados por Soldados do Exército, a remoção de favelas, os golpes, as ditaduras e agora o golpe de 2016 quando traidores entreguistas tomaram de vez o poder e estão doando o país. 

    Histórias sobre os Cunhambebes

    http://ubatubense.blogspot.com.br/2009/05/quem-foi-cunhambebe.html

    http://www.maranduba.com.br/amaldicaodecunhambebe.htm

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