7 de junho de 2026

O papel da imprensa no golpe 2016, por Cintra Beutler

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por Cintra Beutler

Não é de agora: a imprensa tradicional é ferramenta das classes hegemônicas locais e serve a um propósito que nada tem de republicano.

Não se iluda: só chegamos a esta crise em grande parte pela atuação da imprensa de massa. Utilizada como lastro, assim como as instituições de Estado, a imprensa serve ao propósito de climatizar o estado de coisas para algum plot. Ou seja, propiciar à população comum a sensação de algo externo. O anti-esquerdismo e o antipetismo são, em maior parte, oriundos dessa sensação e da criação artificial do ódio partidário propagado pela imprensa. Assim, a mídia (entendida aqui como o conjunto de veículos de massa composto por rádio, TV, jornais e revistas) é usada dentro dessa estratégia, para o fim de permeação, de criação de um sentimento uniforme e de direcionamento da opinião pública em um sentido único. Assim, o cidadão médio é levado a pensar numa certa direção por conta da repetida propaganda. Esse cidadão medíocre não se dá conta disso, pois é normalmente incapaz de exercer ou é impermeável ao pensamento crítico.

A sensação impalpável:

A mídia serve como meio de propaganda ao propósito final de preencher as falas da opinião pública com convicções, de forjar a adesão voluntária do cidadão irracional a uma forma de pensar introjetada artificialmente. E conta com diversos mecanismos para essa manipulação, com destaque para:

1. Omissão: quando deliberadamente não divulga fatos inconvenientes a ela;

2. Desproporcionalidade: quando, para fatos semelhantes, há diferentes abordagens. O uso de eufemismos para quando os alvos do nociário são aliados e o uso de palavras fortes enfáticas quando do contrário, são bons exemplos;

3. Distorção: quando dá uma versão falaciosa a um fato verdadeiro divulgado;

4. Meia-verdade: quando divulga parcialmente o fato, mutilando partes do todo;

5. Desinformação: quando mescla parcelas de fatos verdadeiros com mentiras ou assertivas improváveis ou pouco prováveis;

6. Mentira deliberada: quando simplesmente falta com a verdade;

7. Repetição: quando, se valendo dos métodos acima, noticia e alveja constantemente certas figuras, siglas ou bandeiras, com frequência e assiduidade.

Paralelo entre 1964 e 2016:

No golpe de 64, Jango foi defenestrado pela imprensa hegemônica e rotulado como corrupto. Nada muito diferente do que aconteceu com Lula e Dilma. Os jornais à época ratificaram o golpe e forneceram as justificativas necessárias para abafar qualquer contestação do público, tanto quanto pelo método quanto pela motivação do golpe. Obviamente, as classes elitistas apoiaram o golpe por serem naturalmente contrários a qualquer iniciativa que fizesse menção ao trabalhismo ou emancipação dos trabalhadores e demais classes subalternas. Mas era necessário o apoio das classes intermediárias para corroborar o plot sem oposição.

A criação do inimigo único e visível

Em 1964, havia ali um sentimento anti-comunista e macartista manifesto, muito por conta das tensões geradas pela Guerra-Fria. Os inimigos do “cidadão de bem” mudaram, embora guardem semelhanças. 2016 foi o ano do apogeu da crise inflamada pela imprensa, que culminou com este golpe branco. Trocam-se as épocas e os personagens, mas os motivos e os objetivos são essencialmente os mesmos: a criação e a exacerbação do inimigo, do totem erguido para expiação em praça pública como a representação do mal a ser combatido. Lá em 64 o inimigo a ser combatido era Jango, a ameaça comunista e tudo o que ele representava. Aqui em 2016 é o PT, Dilma e Lula.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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5 Comentários
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  1. maria rodrigues

    6 de junho de 2016 11:46 am

    Se por um lado não temos hoje

    Se por um lado não temos hoje aquelas tropas vindas de MG para o Rio para darem fecho ao golpe, mantendo os militares no poder por 21 anos, enquanto inocentes eram torturados, mortos e desaparecidos – tudo às claras -, hoje, com esse governo interino, temos tudo que houve em 64, menos as Forças Armadas, dizem alguns. Mas temos, claramente, uma polícia militar, filhote da ditadura, espraida Brasil afora, a conter manifestações à base da truculência.

    Li um artigo com o título: Após o pacote de bondade, virá o pacote de maldade.

    Na verdade, muitos anlistas dese governo, ainda interino, admite que não podemos sentir o que vem pela frente, se Temer levar a fatura o próximo julgamento. Se mantiver o apoio da mídia e do judiciário, provavelmente seu ministro da justiça e aquele general dirão a todos a que vieram, e mostrarão seus serivços.

    Por fim, podemos admitir que Dilma é o Jango daquele 64, por não terem visto a dimensão das coisas que aconteceram ao seu redor. 

  2. Antonio's

    6 de junho de 2016 2:05 pm

    Pensamento único

    Num país que uma única emissora de tv chegou a ter 95% de audiencia, fica fácil perceber o grau da lavagem cerebral aplicada a população brasileira desde os anos de chumbo. Uma geração perdida contando ainda com a era FHC, tivemos aproximadamente 30 anos de catequização e colonização das mentes dos brasileiros, sempre regidos pela cartilha do Tio Sam ou o “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, dito por um ministro também colonizado, submisso e lacaio, sem contar aquele que teve que tirar os sapatos, para adentrar em território americano. Triste povo midiotizado, amante dos  “states” , reacionario e depreciativo com o seu próprio país. Recentemente com a cabeça e o cofre, vindos exatamente da pátria mais amada que a da sua de origem, foi massa de manobra dos financiamentos estadunidenses e ingenuamente protestou, contra o Governo legitamente eleito e como todo o bom “ignocente”, está conseguindo destruir os seus direitos trabalhistas, acesso a educação e saúde gratuítos. Antes chamados de coxinhas foram promovidos a trouxinhas e atualmente a escondidinhos, já que não conseguem mais sair às ruas de tanta vergonha e humilhação. Já passou da hora de muita gente se interessar mais por política, não pelos políticos, pois são todos da mesma laia e farinhas do mesmo saco, mas defender e eleger quem realmente tem compromisso com a nossa independencia e com a nossa democracia. 

  3. João de Paiva

    6 de junho de 2016 2:36 pm

    Artigos, mais do que comentários inteligentes.

    Leio vários blogs, mas em apenas dois deles posto comentários. E um deles é o GGN. Diferentemente de outros, como o 247 e Tijolaço, os comentários que leio aqui são quase sempre de bom nível, demosntrando que o leitorado é bem formado, bem informado, articulado e equilibrado, sabendo elogiar ou criticar os artigos postados, sem apelar para a ofensa e baixaria.

    Cintra Beutler é um dos que comentam matérias publicadas no blog e muitas vezes os comentários dele são análises e observações tão racionais e pertinentes que se constituem qualificados artigos, dignos de serm colocados em destaque. Não me surpreende que algumas vezes os comentários de Cintra Beutler sejam elevados à categoria de posts.

  4. resistente

    6 de junho de 2016 4:09 pm

    excelente artigo

    excelente artigo comparativo…

  5. Serjão

    7 de junho de 2016 5:40 am

    Globo

    A mídia é a pilastra central onde se sustenta o Golpe de Estado atual. 

    Estamos vendo uma imensa quantidade de manifestações de resistência, mas nenhuma delas tem, ou tiveram, como foco a Globo, que é a mais poderosa e influente de todas as outras midias.Sem a Globo não há Golpe.

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