5 de junho de 2026

Perder a piada é preciso

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Apesar da grande e rápida evolução das sociedades, sempre aparece alguém para fazer algo tão tosco como uma piada injuriosa, desqualificadora ou potencialmente propagadora de preconceitos contra grupos e/ou pessoas. E, quase sempre também, aparece uma corte, com discursos falaciosos, para defender essa tentativa bisonha.

Vamos a alguns.

Não é possível fazer humor correto. Bobagem. Desde comédias de costumes (Shakespeare, Feydeau, Molière) até “sitcoms” atuais, o humor saudável e respeitoso é sempre possível. Tentar usar o inconsciente coletivo preconceituoso e propenso a rir de idiotices é apenas malicioso e disfarce para a falta de criatividade.

Isso é ditadura do “politicamente correto”. PC é uma expressão guarda-chuva, disseminada por comunicólogos norte-americanos (em geral “neocons”), para associar, como uma variante de “falácia do espantalho”, demandas sociais a algo negativo, à censura. Se cronistas, artistas e intelectuais não-conservadores caem nesse conto é outra estória, mas, mais frequentemente do que não, PC significa “aquilo que eu não gosto e desejo reprimir”. Falar contra “PC”, na verdade, é, portanto, uma tentativa de minimizar a importância e desqualificar demandas sociais. É só resistência à mudança.

Eu quero minha liberdade de expressão! Poupe-nos… Não apenas grupos ofendidos por piadas idiotas têm o direito de criticar expressões canhestras de pensamento como muitos setores da sociedade também são atentos a isso. Ministério Público, GRADI, Conar, OAB, Conselho Federal de Psicologia, etc. Crítica é… crítica! Não censura. Alguém se dizer vítima de perseguição por ser apropriadamente criticado é apenas falta de argumento. E exercer o direito a criticar é liberdade de expressão também, em geral para uma direção mais socialmente responsável.

Não existe censura prévia na maior parte das sociedades ocidentais. O princípio geral é: se alguém é sonso, e fala/escreve o que quer, com vistas a ganhar audiência para algo, tem a responsabilidade em relação a isso e precisa ouvir/ler o que não quer também.

Mas fulano/a usou a palavra XPTO! Ora, quem pertence a um grupo discriminado pode fazer humor consigo mesmo, é até sinal de sanidade mental. Frequentemente é em tom de denúncia de um preconceito ou de deboche dos preconceituosos (o que pode e deve ser feito desde que pelo menos um tom abaixo.) Não cabe a quem não é potencialmente alvo de um preconceito em questão ficar usando a torto e a direito expressões preconceituosas. É necessário ser inteligente, sensível e criativo para isso.

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Saia-se da adolescência inconsequente, somos adultos e vivemos em sociedade. O distanciamento presencial garantido pela internet não deve ser usado como refúgio para comportamentos antissociais. O próprio questionamento em redes sociais (isto é, internet também) de alguns pronunciamentos de humoristas famosos aponta para a direção que a sociedade mais valoriza.

Está em dúvida se deve fazer uma piada?

Pense que está em uma reunião social presencial com várias pessoas. Imagine nessa reunião pelo menos : 1 mulher (melhor loira e sem companheiro), 1 negro (melhor de outro estado), 1 gay (se possível afeminado), 1 judeu (ou alguém de minoria religiosa e/ou ateu.)

Você desconfia que alguém nesse conjunto não irá rir de sua “espirituosidade”?

Simples : perca a piada e mantenha sua imagem de pessoa sensata.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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