O racismo, o STF, e os ataques às religiões afro, por Luis Nassif

Por racismo, entenda-se toda manifestação que envolve raça que seja utilizada contra pessoas vulneráveis, retirando delas direitos próprios de todo ser humano.

Há muita discussão sobre a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de criminalizar o racismo. Seria uma exorbitância da sua parte, avançando no terreno das leis? Penso que não.

Trata-se de uma defesa ampliada da condição humana.
Por racismo, entenda-se toda manifestação que envolve raça que seja utilizada contra pessoas vulneráveis, retirando delas direitos próprios de todo ser humano.
Alguns exemplos.

Mudei-me certa vez para um prédio. Trabalhava em casa uma senhora nordestina. Ela foi impedida, pelo síndico, de entrar no elevador social. Abri um Boletim de Ocorrência contra ele.

Se ela fosse negra, estaria configurado o crime de racismo. Era nordestina, humilde, de condição social inferior, mas não era negra. Deixou de ter o amparo da lei. No entanto, sofreu uma agressão de natureza social e racial.

Ironizar uma mulher por ser loira seria, então, racismo? Para evitar a ditadura do politicamente correto, a condição essencial é a situação de vulnerabilidade da pessoa.

Outro exemplo.

A fé judaica foi utilizada pela Inquisição e pelo nazismo para perseguir pessoas. Acertadamente, a discriminação contra o judaísmo foi incluída na categoria de crimes raciais, agravante para os crimes cometidos contra judeus. No entanto, há uma guerra aberta contra as religiões afro, com terreiros sendo fechados, símbolos sendo destruídos, sem que essa ação seja caracterizada como crime racial. Na minha infância, tive amigos protestantes e espíritas que sofriam discriminação na escola por sua fé, herança direta da Inquisição portuguesa.

Leia também:  A fama de mau de Paulo Henrique Amorim

Pior, há o estereótipo de que o negro é, por definição, um suspeito. É o que está por trás da medida de Sérgio Moro, do excludente de ilicitude, quando ele diz que, em alguns ambientes, não há como diferenciar bandidos de cidadãos comuns. Ou o trabalho do governador genocida, Wilson Witzel de atuar preponderantemente em comunidades negras.

Anos atrás, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação contra a TV Record por ataques às religiões afro. Ganhou em primeira instância. Procuradora e juíza foram crucificadas pela mídia, sob acusação de irem contra a liberdade de imprensa. A ação foi rejeitada nas instâncias superiores.

Com sua decisão, o STF abre espaço para que uma das práticas raciais mais nefastas, a de cunho religioso, possa finalmente ser combatida.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

3 comentários

  1. a saber do que se trata “A condição humana” de Arendt (um dos mais belos trabalho de revisão, diga-se, de Marx!), o que significa “condição social inferior”, senhor editor?

    (Nassif, com todo o respeito, admiro muito sua coragem e resistência, abraço!)

  2. Este governo Bolsonaro é de cunho ideológico justo o q eles acusam q os outros governos foram, são um grupinho de pessoas q se acham donos do Brasil e são participantes de sociedades antes secretas,quando forem descobertos e seus objetivos revelados,o chicote vai estralar pra eles !!!

  3. O obvio precisa ser dito. Esta escalada de intolerância se amplia na medida em que se multiplicam religiões neopentecostais. Escroques que comandam estas “evagelicas S.A” instigam seguidores a vilipendiar tudo o que se relacione a outras crenças, e quase sempre com garantias de que os vândalos jamais serão punidos.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome