4 de junho de 2026

Manual prático do embarque no trem, por Leandro Machado

Do blog Mural, da Folha

Manual prático do embarque no trem

Com fones no ouvido e a mochila nas costas, encosto no gradil –cercadinho, ou chiqueirinho da plataforma, como dizemos aqui em Guaianases, zona leste de São Paulo.

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Vou me encaixando no meio da gentarada –pessoas que, agora, às 7h30, prefiro chamar de concorrentes. Astuto, dou microcotoveladas com o braço direito numa mulher de bolsa rosa. Sai pra lá, minha senhora, quero dizer.

Tento entrar na frente de um homem que, mais inteligente, me fecha a passagem. Não é bobo, claro. Deve ter anos de experiência em embarque de trem.

Alguns centímetros, poucos que eu consiga, podem me proporcionar um troféu dificílimo de conseguir em horários mais movimentados do dia: um lugar sentado no trem da linha 11-coral da CPTM.

O trem ainda nem entrou na plataforma e a ansiedade toma conta. Quase ultrapasso a linha amarela que resguarda a minha segurança, o que gera um olhar inquisitivo do segurança da CPTM. Nesses tempos de proibições governamentais, o melhor é me manter no meu lugar.

Quantas cotoveladas terei que dar para conseguir um lugarzinho?, penso. Chutes? Empurrões? Rasteiras desleais?

Talvez, quem sabe, se Deus quiser e alguém tropeçar à minha frente, vou me sentar. Confortável, vou poder cochilar por alguns minutos, ler um livro, entrar no Facebook, ou mesmo rir dos azarados que terão que dividir o metro quadrado em pé com outras 8,4 pessoas, segundo dados da própria CPTM.

O trem vem entrando na plataforma, lentamente. Aumenta a expectativa. Posiciono minha mochila na frente do corpo para que ela não fique presa e atrapalhe meu projeto de conseguir um banco vazio.

A composição para e as portas se abrem tão devagar que me dá nos nervos. E agora eu vou e vou, correndo e cotovelando. Aquele banco tem de ser meu, porra!

Seria, com certeza, não fosse a mulher da bolsa rosa me roubar, rápida, este primeiro troféu do dia. Ela se senta, e me olha, triunfante, como se quisesse me humilhar porque é mais habilidosa em matéria de embarque em trens. Se eu não fosse tão tímido, talvez começasse a chorar.

A vida não acaba hoje, minha senhora, muito menos a CPTM. Podemos tirar uma melhor de três no resto da semana, topa?

Leandro Machado, 24, é correspondente de Ferraz de Vasconcelos
@machadoleandro
[email protected]

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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