4 de junho de 2026

Quem foi mesmo que renovou o Samba, hein?

 


Num texto publicado no Rio, na extinta “Revista Civilização Brasileira”, em maio de 1966 , o crítico musical Flávio de Macedo Soares chamava a atenção para o fato de que na evolução da música popular, as crises – no sentido sociológico, de interrupção do curso regular e previsível dos acontecimentos – eram constantes. E que nos Estados Unidos essas crises eram provocadas pelas grandes corporações; o que não ocorria no Brasil, onde, então, os interesses envolvidos na indústria da música apenas tiravam proveito das situações de transformação geradas naturalmente. 

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Muito sintomaticamente denominado “A nova geração do samba”, o texto de Macedo Soares analisava a crise (na acepção sociológica) que gerara a bossa-nova, cerca de seis anos antes, e o surgimento da chamada “corrente nacionalista” do moderno samba. Tipificada por Carlos Lyra, Sérgio Ricardo, Nara Leão, Edu Lobo, Dori Caymmi (ainda mencionado como “Dorival Caymmi Filho”) etc., essa corrente abrigava uma nova fornada de músicos engajados, entre os quais o critico incluía Caetano Veloso, Gilberto Gil e “Francisco Buarque de Holanda”, além de nomes hoje desaparecidos ou em outros caminhos, como os de Sidney Miller, Paulo Thiago, Luís Carlos Sá. 

Mas a crise desencadeada pelo advento da bossa-nova não foi a primeira nem a última dentro da imbatível vertente principal da música brasileira. Antes dela, houve pelo menos duas outras. 

Em 1917, quando Donga registrou o “Pelo Telefone”, deflagrava-se a primeira tensão. Como a autoria do proto-samba começou a ser contestada, J.B. da Silva, o “Sinhô”, criou uma outra letra, em resposta à registrada. Surgia então, no seio da incipiente comunidade sambista do Rio, uma grande polêmica, que acabou por opor baianos e cariocas e projetar o nome de Sinhô. 

Daí até a década seguinte, Sinhô foi o “Rei do Samba”, numa hegemonia só ameaçada pelo talento de Caninha (cognome de Oscar de Morais, 1883-1961), agraciado pelo jornal A Pátria com o título de “Imperador”. Ocorre, entretanto, que os “sambas” compostos por ambos eram, estruturalmente, maxixes. E o maxixe é até hoje reconhecido como um híbrido da habanera cubana com a polca européia, ao qual apenas se acrescentou um tempero afrobrasileiro. 

De qualquer forma, boa parte da década foi das composições de Sinhô, interpretadas principalmente por Francisco Alves e Mário Reis, cantores de grande prestígio. Até que em 1927 a gravadora Odeon lançava A malandragem, de Alcebíades Barcelos (o Bide), considerado o primeiro exemplar gravado do “novo samba” que estava sendo criado pelos compositores do bairro do Estácio. 

Por essa época, o jovem Noel Rosa iniciava carreira compondo emboladas nordestinas e outras canções nos estilos rurais então em voga. Admirador confesso de Sinhô, o poeta já tinha notícia de que um novo tipo de samba já estava sendo feito e cantado no Rio de então. Enquanto o de Sinhô vinha da década passada e da Cidade Nova, o novo samba surgia no Estácio e dali se espalhava pelos morros próximos do Centro, seguindo pelas linhas de trem até os subúrbios, conforme anotaram João Máximo e Carlos Didier no livro Noel Rosa; uma biografia. 

Chegava-se ao ápice da segunda grande crise do samba, em 1930, quando Noel Rosa encetou amizade e parcerias com sambistas como Canuto e Antenor Gargalhada, do Salgueiro; Ismael Silva, do Estácio; Cartola, de Mangueira; e outros bambas. A partir desse ponto de ruptura, o samba — para usar uma expressão tão ao gosto dos escribas de hoje — nunca mais foi o mesmo. Pelo menos até a crise da bossa-nova, em que foi despojado de sua excitante polirritmia para que se tornasse mais compreensível aos ouvidos estrangeiros, o que felizmente deu certo; ainda bem. Não esqueçamos, porém que, no desdobramento dessa ruptura, eclodiu uma outra variante, buscando um outro universo temático, mais comprometido com a realidade político-social, chegada no 1º de abril de 1964. 

O samba realmente já não era mais o mesmo. Mas a dicotomia entre o samba “da cidade” e o “do morro” permanecia. Para romper mais essa barreira foi que, na passagem para a década de 80 surgia um estilo que, além de incorporar novos instrumentos ou modos de executá-los, servia-se das infindáveis possibilidades harmônicas desenvolvidas nas magistrais interpretações de João Gilberto, Tom Jobim etc. Então, redesenhava-se a polirritmia; e o cavaquinho saía da limitação dos acordes fundamentais para visitar as infinitas possibilidades e alterações das “sétimas” e “diminutas” –. Coisas de músico, mesmo! 

Pois este é o samba que está aí, inclusive no texto do doutor etnomusicólogo Phillip Galinsky (http://www.jstor.org/stable/780347). E que os interesses das grandes corporações insistem em aproximar do universo pop, simpático, atual, bacaninha, mas musicalmente pobre, como todos nós sabemos. 

Agora, a indústria e a Mídia hegemônica, mais uma vez, forçam uma crise, propalando aos quatro ventos que Fulano, Sicrano ou Beltrano renovaram o samba, dando-lhe uma injeção de Pop. 

Tadinhos! Eles esquecem (ou não querem saber) que, no Samba – arte e comportamento – as verdadeiras transformações continuam acontecendo naturalmente. Como sempre.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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