
Em um debate sobre a língua portuguesa, no contexto da unificação ortográfica, Mia Couto afirmou que “as identidades são transitórias e precárias. O problema é que elas são vividas como definitivas e eternas”. Os sucessivos ciclos de desenvolvimento urbano do Rio dão pertinência à afirmação do escritor moçambicano. Variados sonhos de cidade e ideais de civilização se chocam na arena pública, entre forças que buscam renovação e outras que defendem a preservação de patrimônios intangíveis. A cidade, como a língua, se transforma invariavelmente, o dia a dia muda e, com ele, as identidades urbanas. Mas como estas são vividas como absolutas nem sempre os processos são perceptíveis.
Observe-se o exemplo do botequim. Surgido na belle époque carioca, no início do século XX, quando o Rio se transformava em centro cosmopolita, esse tipo de comércio, oriundo das boticas e armazéns, funcionava como um refúgio para a massa operária, efetiva ou potencial, que se aglomerava na cidade em busca de oportunidade. Era o tempo do triunfo do racionalismo urbano, baseado no modernismo de Le Corbusier, e tendo como modelo a Paris do Barão Haussmann. O Rio industrializava-se e precisava de mão de obra qualificada.
Nesse contexto, o botequim rapidamente passou a ser visto como um desvio no caminho entre o lar e o trabalho. Nele, o trabalhador escapava da rígida hierarquia das fábricas, com seus chefes, capatazes, gerentes e diretores, e também de suas responsabilidades como provedor do lar. Muitas vezes, o dinheiro da feira ficava no balcão da taverna, para desespero da mulher. As instituições logo trataram de enfrentar o assunto, criminalizando o ócio e a malandragem. A igreja condenava moralmente; a medicina alertava para o alcoolismo como doença social; e a polícia reprimia.
Mas, ao mesmo tempo, ali era um dos poucos espaços onde a classe trabalhadora e a população pobre podiam estabelecer relações menos desiguais, que fugiam à rígida e excludente hierarquia social. Afirmava-se ali um sentido de boemia que logo atrairia segmentos das camadas médias da população. Assim, o botequim passaria a ser não só lugar de malandros, ociosos e alcoólicos, mas também de sambistas, poetas, jornalistas, entre outros. Surgia uma outra identidade para o botequim, como espaço de “liberdade”, embora cheio de regras e etiquetas, e de expressão cultural.
Na segunda metade da década de 1990, o ex-prefeito Luiz Paulo Conde lançou uma série de livros para enaltecer instituições vistas por ele como patrimônios culturais do Rio. Lançou edições sobre igrejas e sebos, um catálogo de estilos arquitetônicos da cidade e um guia de botequins. Os três primeiros desapareceram em solenidades e salamaleques palacianos. O último surpreendeu pela repercussão. O “Rio Botequim”, ao tirar o bar das esquinas obscuras e páginas policiais dos jornais, lançou luz sobre a importância cultural desses estabelecimentos para certa identidade carioca.
A partir de então, a ideia positiva do botequim atenuou a má fama do bar como espaço de desvio, ainda que esta representação perdure. Os jornais criaram colunas especializadas; chefs renomados passaram a valorizar a gastronomia popular dessas casas; surgiram especialistas no assunto; criaram-se concursos de melhores botequins, garçons e chope; e o tema até virou assunto acadêmico, com monografias em várias disciplinas.
Mas talvez o sinal mais contundente desse processo tenha sido a transformação do bar propriamente dito, por meio de uma profissionalização do serviço. As empresas familiares dos velhos botequins estão sendo substituídas por sócios investidores, que contratam chefs, gerentes, relações públicas e assessores de imprensa, e apostam no ramo em meio à onda de valorização do botequim. Nos últimos anos, surgiram redes e bares modernos, que nada têm a ver com os botequins originais, mas que evocam esses estabelecimentos para vender uma ideia de legitimidade boêmia.
Esse movimento assombra boêmios identificados com a velha tradição do botequim, que veem tal identidade ameaçada. Para estes, no botequim carioca, o serviço é secundário. O importante é seu caráter de clube social da vizinhança, onde funciona como ponto de encontro e de sociabilidade. Mais relevante do que o menu e a carta de cervejas é a relação entre freguesia, garçons e donos de botecos. Esses guardiões da tradição resistem contra os novos usos do bar, e se apegam intransigentemente aos sinais físicos e simbólicos da identidade original do velho botequim, como o balcão, o ovo colorido e uma boa conversa fiada.
Como percebeu Mia Couto, há um tanto de fetichismo em todas essas identidades. E como são vividas como se parte da nossa existência estivesse em jogo, é preciso brigar por elas. Enquanto isso, a vida segue, e o que se vê é que a boemia do Rio hoje tem múltiplos espaços de representação. E, por enquanto, o velho pé-sujo e o novo boteco convivem na cidade.
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