A carpa da Verdade, por Clarisse Gurgel 

O “Super Ministro” confessa: o teto de gastos é uma promessa de seriedade. Como todo especulador, a promessa é a única forma de valorizar seus títulos. Este é, pois, um dos papéis do atraso.

A carpa da Verdade

por Clarisse Gurgel 

Tudo o que estou dizendo, aqui, pode ser mentira. Mas, também, posso estar falando a mais absoluta verdade. O desafio, portanto, ao ler um texto, é o de verificar o que há nele, que, diante da realidade, não faz sentido. Para isto, é importante que saibamos que a verdade é, muitas vezes, travestida, deslocada e até representada pelo seu contrário. Todo texto é uma fala e toda fala carrega uma incompletude em relação ao real. Portanto, há alguma coisa que sempre falta, na linguagem. Aquilo que nos faz ter sempre a sensação de que, por mais que eu diga, eu não consigo expressar o que desejo. Diferente disto, porém, é a mentira: aquilo que insiste em se apresentar, mas que deforma a realidade, em uma compulsão por esconder – não o presente, propriamente – mas, acima de tudo, o passado. A mentira está no campo da escolha pelo falso.

A verdade, porém, não aparece como exumada, bastando desenterrá-la. Ela é conhecida pela história, ou seja, pelos fragmentos do que o sujeito fala, livremente, ao longo do tempo. Razão pela qual, a melhor forma de decifrar as verdades em um discurso é testemunhá-lo, quando seu porta voz está muito à vontade. De tal modo que poderíamos dizer que a verdade é a vontade do sujeito à vontade. Saber se um deputado ou senador dizem a verdade só é possível se você participa do cotidiano dele – o cotidiano político – no que corresponde a seus bastidores, onde as decisões são tomadas e os interesses acabam expostos.

Até nos bastidores, porém, a verdade pode ser acessada, através de mentiras. Por isto, Freud, citando Shakespeare, disse, certa vez: “a carpa da verdade foi fisgada com a isca da mentira”. Em suas próprias palavras, em Moisés e o Monoteísmo: “passa-se com a dissimulação de um texto o mesmo que com um crime de homicídio. O difícil não é executar o ato, mas eliminar-lhe os vestígios”

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Nos últimos dias, assistimos ao que o próprio “Super” Ministro Paulo Guedes chamou de debandada de seu ministério. Desde o início do governo Bolsonaro, já saíram: Joaquim Levy,  Marcos Cintra,  Mansueto Almeida,  Rubem Novaes,  Caio Megale, e, agora, Salim Mattar e Paulo Uebel. Desde já, podemos observar, entre todos, um vestígio em comum: a frustração quanto aos planos de cada um, ao assumir um posto no governo. Esta mesma frustração, que, muitas vezes, serve de ponto de partida para a mentira. Não sem razão, Bolsonaro demonstrou compreensão, diante da decisão dos colegas, acreditando que, certamente, as saídas se deviam a promessas de ganhos melhores, em outro lugar. Esta, aliás, é uma das diferenças entre um Posto Ipiranga, privado, e uma Petrobrás, pública. As subsidiárias do Guedes, despidas de compromisso público, preservam esta volúvel volatilidade, em que o interesse cessa, quando o ganho cessa.

Ao justificar sua saída, Salim Mattar falou mentiras ocultadas por verdades.  Em termos simples, mentiu por meias-verdades. Para entendermos isto, que é o papel da verdade como base para mentiras, basta atentarmos para a estrutura do sonho – e da ideologia – que, por mais onírico, mais fantasioso, sempre tem lastro no real. Salim Mattar, comprometido em desestatizar o Brasil, afirmou ter saído pela demora nas privatizações. Disse, também, que a indisposição para privatizar é fruto do desejo de manterem práticas corruptas.

Vejamos as meias-verdades: a corrupção, de fato, só pode existir no setor público, pois o ato de corromper, nas relações de troca, sempre envolve a violação do princípio da coisa pública. Assim, o crime de apropriação indébita ou tráfico de influência não existem, no interior de atividades privadas, já que, nelas, o princípio da coisa pública é inexistente. Acumular dinheiro, sem obstáculos, no mercado, é regra e não desvio ético. Assim, Salim diz a verdade quando sinaliza para uma possível queda no índice de corrupção, a partir da privatização. O que não é dito – porque não pode ser dito – é que a privatização torna regra aquilo que é crime, no setor público. A prática criminosa ganha legitimidade moral e legal e desaparece dos índices de irregularidade. Não à toa, a grande maioria dos casos de corrupção envolve violações em contratos entre o setor público e o setor privado. Estes mesmos contratos que Paulo Uebel estava encarregado de liberar da fiscalização pública. Deste modo, desburocratizar e privatizar é ocultar, na dinâmica usual do mercado, aquilo que, até o momento, é crime no setor público.

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Paulo Guedes também falou a verdade, ao afirmar que, se rompesse com o Teto dos Gastos, Bolsonaro caminharia para uma zona de impeachment. De fato, Bolsonaro terá este rumo exato, se desobedecer a Lei de Responsabilidade Fiscal. Mas não porque ele estaria cometendo um crime, segundo a Constituição Federal – afinal, estamos em Estado de Calamidade, momento em que as restrições aos gastos são suspensas. Gastos, estes, ademais, que se provaram viáveis, assim que se mostraram imperativos.

Bolsonaro caminhará para a zona porque ele estará cometendo um crime, segundo a lei do mercado. E é apenas o mercado, em sua face mais pragmática e instrumental, que sustenta Bolsonaro, até agora, no governo. São esses que querem as mortes por coronavírus e as mortes por reformas neoliberais. Porque a letalidade cresce, na medida em que as taxas de lucro crescem. Não à toa, o patrimônio dos super-ricos brasileiros cresceu US$ 34 bilhões, durante a pandemia. Uma terrível verdade. Este é o limite – ou a ausência de limite – para os apoiadores de Bolsonaro. Os mesmos que tentam fazer uso do Estado, transformando-o em um permanente Estado endividado. Este é o sintoma de Paulo Guedes. Aquilo que aparece como o problema a ser resolvido, mas que serve para ocultar uma outra coisa, que não pode ser dita.

Um Estado à beira do caos é o resultado e não a causa. Eis a metonímia que a muitos engana. Ao contrário de um Estado, efetivamente, fiscal, mantido pelo recolhimento de tributos, o modelo de Estado Endividado se sustenta através de empréstimos e juros a correr. Por isto, o maior inimigo deste novo Estado é a democracia. Na mente de figuras como Paulo Guedes, demandas populares comprometem o pagamento aos credores. Dentre esses credores, está o próprio Paulo Guedes e sua turma. Paralelo aos dividendos colhidos pelos abutres, testemunharemos um aumento devastador da miséria, da exploração e, portanto, da dependência. Esta será a verdade que irá se impor, se as reformas de Guedes e da Rede Globo avançarem mais.

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Por isto, o “Super Ministro” confessa: o teto de gastos é uma promessa de seriedade. Como todo especulador, a promessa é a única forma de valorizar seus títulos. Este é, pois, um dos papéis do atraso. Ademais, prometer uma farsa eleva o falso à condição de desejo. Razão pela qual, a seriedade como promessa não deve ser levada a sério. A mentira não está, pois, no prazo do cumprimento da promessa, mas naquilo que se promete. Esta é a razão pela qual  – ao contrário da Rede Globo e de Rodrigo Maia, que refazem o pacto com o diabo, calculando os ganhos futuros –  o que cabe, aos que são explorados, é a luta para que, tal como os “velhos políticos”, Paulo Guedes não cumpra o prometido.

Clarisse Gurgel é cientista política, professora da Faculdade de Ciências Sociais, da UNIRIO, membro do Cartel Psicanálise e Política e do Coletivo Escritos pela Democracia.

 

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