Alteramos a foto da reportagem por se tratar de uma versão anterior à oficial, portanto confirmava a presença de Karina Calandrin, professora de Relações Internacionais da Universidade de Sorocaba (UNISO). Calandrin declinou do convite e foi substituída por Gabriel Ben Tasgal, diretor do Programa de Diplomacia Pública.
A Rede Universitária de solidariedade ao povo palestino lançou nota de repúdio à palestra promovida pelo Centro de Estudos Judaicos da Universidade de São Paulo (USP) chamada “TERROR FUNDAMENTALISTA ISLÂMICO: ameaça letal à DEMOCRACIA”, por compreender que tal evento incentivaria a islamofobia.
Desde seu nome, a atividade acadêmica realizada na última segunda-feira (11), fomentaria “uma identificação automática e indevida entre a religião islâmica, o fundamentalismo, e o terror”, segundo a Rede, como se esses elementos resumissem a “essência do Islã”, além de trazer o conceito de “democracia” de forma “abstrata, sem definir localidade, país ou contexto social”.
Tal discurso poderia gerar “medo infundado ao islamismo e aos muçulmanos que vivem integrados e de forma pacífica no Brasil”, religião presente no país desde o sequestro e escravização dos malês, grupo de origem nagô e que falavam árabe. Os malês, inclusive, foram protagonistas de uma das grandes revoltas abolicionistas do final do século XIX em Salvador.
“A disseminação de estereótipos anti-islâmicos gera desconfiança e temor, contribuindo para isolar os muçulmanos brasileiros da comunidade brasileira em geral, gerar ódios, culpabilizações infundadas, e expor suas vidas a perigo”, afirma a nota.
Os efeitos da intolerância e racismo religioso contra muçulmanos no Brasil é um tema pouco abordado, ainda que sejam o segundo grupo mais atacado, superados apenas pelos povos do axé (umbanda, candomblé, ifá, culto à jurema, entre outros). As mulheres, principalmente as revertidas, são o principal alvo de discriminação, sofrendo desde agressões verbais e físicas até sendo negadas oportunidades de trabalho.
Sob a coordenação da professora da USP, Francirosy Campos Barbosa, o Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos (Gracias) realizou o primeiro Relatório de Islamofobia no Brasil em 2022. O trabalho possibilitou a organização de dados para dar resposta aos desafios cotidianos enfrentados pela comunidade.
Nesse sentido, organizações como a (Associação Nacional de Juristas Islâmicos) ANAJI oferece serviços jurídicos para amparar em casos de islamofobia, como a luta das mulheres que usam vestimentas religiosas como o hijab, de não serem impedidas de emitir a CNH. Outro caso recente abordado pela ANAJI foi o ataque islamofóbico na Mesquita Abu Baker Assadik, em São Bernardo do Campo (SP), em que um homem invadiu o Jummah Salat (reza de sexta-feira, a mais importante da semana), para desferir insultos e ameaças.

Além do viés islamofóbico, o evento contou com a participação de Zeev Benny Begin, ex-parlamentar sionista “favorável a que o Estado racista de Israel mantenha o controle sobre a Palestina ocupada e à mentira do “direito de defesa” do ocupante e colonizador”, de acordo com nota lançada pelo Comitê de Estudantes em Solidariedade ao Povo Palestino (ESPP-USP). Zeev é filho do ex-Primeiro Ministro israelense Menachen Begin, responsável pela milícia Irgun, que realizou expulsões em massa e limpeza étnica contra o povo palestino.
Confira a nota na íntegra:
“Com grave espanto e preocupação, recebemos a informação sobre a
realização na USP de uma palestra, promovida pelo Centro de
Estudos Judaicos, intitulada “TERROR FUNDAMENTALISTA
ISLÂMICO: ameaça letal à DEMOCRACIA” (caixa alta no original,
como mostra a imagem abaixo).
Fica evidenciado que o título desse evento promove a islamofobia na
medida em que fomenta uma identificação automática e indevida
entre a religião islâmica, o fundamentalismo, e o terror, como se
“terror” e “fundamentalismo” fossem características exclusivas do
islamismo ou como se elas pudessem definir e resumir a “essência do
Islã”. O título sugere ainda a ideia de “ameaça” desse mesmo “Islã”
(“terrorista”) à “Democracia”, aqui formulada de forma abstrata,
sem definir localidade, país ou contexto social.
Semelhante título gera, assim, um medo infundado ao islamismo e
aos muçulmanos que vivem integrados e de forma pacífica no Brasil.
Definitivamente, os muçulmanos não representam qualquer ameaça
à democracia brasileira. No entanto, o título enseja a ideia de “medo
maior” que supostamente paira sobre todos nós.
A disseminação de estereótipos anti-islâmicos gera desconfiança e
temor, contribuindo para isolar os muçulmanos brasileiros da
comunidade brasileira em geral, gerar ódios, culpabilizações
infundadas, e expor suas vidas a perigo.
Neste sentido, o título do evento nada tem de acadêmico. Deve ser,
pois, veementemente denunciado pelo seu caráter islamofóbico e
nefasto para a convivência pacífica entre os muçulmanos e demais
brasileiros no Brasil.
Este episódio apenas revela a correção das iniciativas de membros da
comunidade acadêmica da USP que defendem a ruptura de convênios
dessa universidade com o Estado de Israel (jamais com os
acadêmicos judeus!) até que este Estado aceite a
autodeterminação do povo palestino e o fim do regime de apartheid
em toda a região.
Finalmente, saudamos todas as atividades que reúnam pesquisadores
muçulmanos e judeus, brasileiros, palestinos e israelenses, entre
outros, em debates acadêmicos francos e críticos, na defesa dos
direitos humanos e do direito à autodeterminação nacional do povo
palestino.
Na defesa dos direitos humanos, contra a islamofobia, o
antissemitismo e demais formas de ódio racial!
Pelo direito à autodeterminação nacional do povo palestino!
Rede Universitária de solidariedade ao povo palestino.
11 de junho de 2024″
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