Carta de Repúdio ao black face no Festival de Marchinhas de Ubatuba

Enviado por Matê da Luz

Carta de Repúdio ao black face no Festival de Marchinhas de Ubatuba

O Coletivo Afrobrasilidades – Articulação Negra de Ubatuba – vem por meio desta carta apresentar sua indignação e repúdio ao black face apresentado pelos artistas Julio Mendes e Claudia Gil durante o Festival de Marchinhas Carnavalescas de 2018. A apresentação de duas músicas, pela dupla, inscritas no evento contou com essa “performance” historicamente opressora e racista e, como se não bastasse, o corpo de jurados do festival  premiou  uma delas como melhor fantasia dentre as demais apresentadas.

Diante de tal situação, que mais uma vez coloca o negro enquanto ser ridicularizado, como elemento à margem da sociedade, carregado de chacota, estereótipos e demais estigmas de um país que viveu séculos de escravidão, nós, ativistas desse movimento negro, nos colocamos perante a Fundação de Arte e Cultura de Ubatuba – FundArt e à esses artistas para evidenciar que tal ato é violento.

Qualquer tipo de coisa que venha menosprezar a raça negra ou que possa ser caracterizado injúria racial são crimes previstos em nossa legislação (Lei nº 7.716/89).

Amparados pela Constituição Brasileira que prevê pena de reclusão por atos racistas, exigimos que tal prêmio seja revisto e retirado pela FundArt, além de retratação pública por parte dos artistas em questão e do poder público.

Reconhecemos, enquanto coletivo negro, os trabalhos culturais realizados pela FundArt e sabemos da notória importância de Julio Mendes e Claudia Gil no cenário artístico de Ubatuba, principalmente no que tange a cultura caiçara, no entanto, por mais que o uso da blackface possa não ter, nesse caso, a intenção de rebaixar ou ofender ninguém, não quer dizer que não o faça. Ademais, quando se trata do órgão gestor da cultura no município, combater esse tipo de manifestação racista, por essência, deve fazer parte de sua política cultural cotidiana, por isso, nosso questionamento se encontra também no fato de que até o atual momento a mesma ainda não se posicionou.

Para maiores informações, nos colocamos a disposição para falar abertamente sobre o assunto com local, data e horário a ser definido em comum acordo entre o coletivo, os gestores da FundArt e artistas que se apresentaram. Queremos, mais do que tudo, ampliar os olhares e promover a compreensão sobre as questões ligadas à luta do movimento negro dentro e fora do espaço artístico, para assim, contribuir também com a arte e cultura local.

Vale ressaltar que o objetivo original do black face era não somente a humilhação do ser negro através de uma caricatura exagerada, mas também impossibilitar que indivíduos negros fossem capazes de representar a si mesmos, sendo uma forma pouco sutil e muito eficaz de manter atores negros longe dos palcos. O black face retrata de maneira esdrúxula o indivíduo negro, com reforço de estereótipos criados e perpetuados pelo homem branco, numa tentativa de padronização dos nossos corpos, dos nossos cabelos e da nossa pele.

Quando trazemos esse contexto para o cenário brasileiro e fazemos uma analogia à personagem carnavalesca Nega Maluca temos um agravante na história: a caricatura de uma mulher negra, hiperssexualizada, encarada como moeda de troca para o turismo sexual. O black face dos Estados Unidos reforça o estereótipo do negro ridicularizado, a Nega Maluca do Brasil reforça o estereótipo da “mulata exportação”.
 

De acordo com o site “History of Black face”, o blackface começou quando homens brancos se caracterizavam de homens negros escravos ou livres durante a era dos shows dos menestréis (1830-1890) e essas caricaturas tornaram-se fixas no imaginário americano reforçando estereótipos. Por conta disso, essa carta tem como objetivo repudiar toda e qualquer ação difamatória, opressora e que reforce o maior crime já praticado contra a humanidade: a escravidão.

Sabemos da possibilidade do blackface invocando às tradições circenses, onde a “máscara” já foi muito utilizada, no entanto temos que considerar que historicamente ela faz parte de um conjunto de mecanismos que tinham por intuito tão somente inferiorizar a figura do negro e tal intuito não mudou ao longo do tempo. Em muitos casos, além da pintura na face, acentuavam-se os lábios do ator e dessa forma comediantes levavam plateias brancas e aristocráticas ao delírio. As peças eram geralmente de chacota e o foco da risada: o personagem “negro” e o público alvo: sulistas estadunidenses em sua maioria, ex escravistas.

Julio Mendes é professor de Matemática, na Escola Estadual Maria Alice Alves Pereira, e justamente por sua trajetória acreditamos que deva ponderar tal prêmio, pois ainda que sem intenção cometeu uma ação ofensiva que reforça práticas racistas corriqueiras. O Blackface é uma atitude que ofende, subjuga, recoloca o negro em um lugar passível de ridicularização que é anacrônico, pois vivemos um momento de reivindicações e de conquistas – na contemporaneidade não há lugar para essa forma de estética.

Vale lembrar que o preceito fundamental da liberdade de expressão não consagra o “direito à incitação do racismo”. O negro e/ou a negra não são fantasia!

De 1989 para cá, outras leis importantes na luta contra o preconceito racial foram criadas no Brasil, como o Estatuto da Igualdade Racial (2010) (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Lei/L12288.htm) e a Lei de Cotas (2012) (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12711.htm).

Estamos no aguardo de um posicionamento oficial.

Coletivo Afrobrasilidades – Articulação Negra de Ubatuba

15 de fevereiro de 2018

 

Carta redigida coletivamente por integrantes do movimento negro de Ubatuba e protocolada hoje, dia 15 de fevereiro na Fundação de Arte e Cultura de Ubatuba. 

Mariana A. Nassif

3 Comentários

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  1. todos devem frequentar os

    todos devem frequentar os lugares onde serão possivelmente ridicularizados. a sátira deve ser, sim, uma metralhadora que não poupa ninguém, mesmo os melhores, do difícil ato de se ver ridículo em qualquer atitude.

  2. Enfiando a colher no angu

    Premissa: O politicamente correto não é uma chatice, mas um avanço civilizatório. Ponto. 

    Não fosse assim, ainda estaríamos, em pleno 2018, dizendo nas rodinhas familiares e sociais que “…isso é coisa de preto”, entre risadas. 

    Avançando. Domingo, aqui em São Luís do Paraitinga, saiu o tradicional bloco do Saci, centenas de branquelos de gorro vermelho e black face. 

    Tudo igual? Depende. No meu entendimento, a dupla que subiu ao palco em Ubatuba de black face foi sem noção, desatualizada com o mundo atual. Enquanto que em SLP, no bloco do Saci, é uma tradição, manifestação coletiva e espontânea. Não é fácil, é um nó. Não faria jamais black face, não me sentiria bem, considero incompatível comigo, uma abominação. 

    A imagem pode conter: 9 pessoas, multidão, chapéu e atividades ao ar livre

    Mais ou menos no carnaval passado começou uma discussão nas redes sociais, sempre elas, sobre o politicamente correto no carnaval. Algumas músicas incomodavam as novas gerações, de jovens antenados e politizados, que passaram a contestar as tradições e a validade de certas letras. 

    Lembrei-me do texto do ano passado do Thiago França, dono do bar Conceição Discos, na descolada Vila Buarque, ou Baixo Santa Cecília, de onde sai há cerca de cinco anos o bloco Espetacular Charanga do França. A galera do bloco, incomodada com algmas músicas, decidiu, de comum acordo, evitar essas músicas. 

    O artigo do Thiago França reconhece a dificuldade que é tratar o tema, fornecer uma resposta binária, aponta razões e motivos para isso, e deixa ao arbítrio de cada um, ao bom senso, “aquilo que a consciência manda, cada um deve saber de si mesmo”. 

    São contextos diferentes. De um lado, subir ao palco do festival portando black face; de outro, um bloco de rua, que se forma de modo espontâneo e incontrolável. É justo e legítimo que o movimento afro de Ubatuba se manifeste, afinal o festival é institucional. “É mau hábito pisar no calo de quem já sofre”, diz o Thiago. Concordo plenamente. 

    Foi isso que incomodou a galera do bloco Espetacular Charanga do França, a consciência. 

    THIAGO FRANÇA

    Carnaval deve ser politicamente correto? SIM

      

    25/02/2017  02h00

    É MAU HÁBITO PISAR NO CALO DE QUEM JÁ SOFRE

    Chega por e-mail o aviso do jornalista Tárik de Souza: na marchinha “O Teu Cabelo Não Nega”, o “não pega” do verso “mas como a cor não pega, mulata” tem o sentido de “não pega nada, não importa”, o que dá à música um sentido antirracista, ao contrário do que eu interpretava. Pode ser.

    Enquanto parte do movimento negro luta contra o termo “mulata”, Nei Lopes defende sua origem no latim “costurar para unir”.

    No trabalho hercúleo de “desobjetificar” a mulher perante a sociedade, muita gente aplaudiu a Globeleza vestida, ao mesmo tempo em que ouço de uma senhora negra que o trabalho de mulata lhe trouxe dignidade -“era isso ou trabalhar em casa de família”.

    Mais ainda, leio que a preparadora de passistas da Portela afirmou que mulata é profissão, não importa a cor. O debate toma ares acadêmicos, recheado de termos e conceitos -“problematizar”, “lugar de fala”, “empatia”, “protagonismo”.

    Uns acreditam que o uso de certas palavras ajuda a manter o negro na condição de pária no subconsciente popular, enquanto uma amiga carioca reclama de “problematizadores de Facebook” que nunca puseram os pés no Bola Preta, o bloco mais negro da cidade. Complexo.

    Quando a discussão passa para o campo da tradição, mais dúvidas vêm à tona. Penso no cineasta espanhol Luis Buñuel e em sua máxima,”A tradição é uma estátua que anda”. Acredito muito nisso.

    Nossa verdadeira vocação é criar, renovar, dialogar com nosso tempo, contar nossa própria história, como se dispõe a fazer o bloco que criei, Espetacular Charanga do França. Em comparação a tudo isso, pisar no calo de quem já sofre o ano todo é apenas um mau hábito; deixar tudo como está é papel do conservadorismo, não da tradição.

    A interpretação ao pé da letra do verso “mas como a cor não pega, mulata”, dos irmãos Valença, compositores do refrão que recebeu estrofes do genial Lamartine Babo, causa incômodo a muita gente, motivo que levou alguns blocos, o meu entre eles, a excluir a marchinha do repertório carnavalesco.

    Muitas músicas são deixadas de lado por inúmeros motivos, o que deveria ser visto com bons olhos: ao selecionar o repertório da festa, cada bloco busca sua identidade, seu enredo. Ruim seria se todo mundo tocasse a mesma coisa, aí sim o Carnaval seria uma chatice.

    De toda forma, não há banimento ou boicote, cada um deve saber de si mesmo.

    Num cenário em que o preconceito é estrutural, deixar de tocar uma música é apenas um quitute estético dentro da luta diária -vide eu, homem branco, falando sobre racismo no jornal.

    Uns acham tudo isso bobagem, tratam racismo e assédio como “lendas urbanas”; outros sentem na própria pele o ano inteiro. O Carnaval, além de festa, é também um grande laboratório social, um momento de fomentar ideias e aprofundar debates.

    Não me convence essa visão da cultura apenas como entretenimento, esse lugar inócuo da arte que não incomoda e não provoca.

    Uma obra de arte não traz em si verdades absolutas, apenas aquilo que cada pessoa consegue decupar, seja sua ferramenta emocional ou intelectual. A interpretação dos símbolos varia, inevitavelmente, para cada um, com base em suas próprias experiências.

    Para uma questão tão profunda, não há resposta binária certa ou definitiva, apenas aquilo que a consciência manda.

    A Charanga tocará muitas marchinhas e deixará de fora umas duas ou três que já tocou em outros anos, mas censura é ferramenta do fascismo, uma que me recuso a usar.

    THIAGO FRANÇA, músico, é criador do bloco paulistano Espetacular Charanga do França

     

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