Contra o sionismo(?), por Jeanderson Mafra

Foi lançado em São Luís o livro do escritor e jornalista Breno Altman, um dos mais ferrenhos críticos da ideologia sionista no Brasil

Contra o sionismo(?)

por Jeanderson Mafra

 Há pouco mais de um mês, foi lançado em São Luís, o badalado livro do escritor e jornalista Breno Altman, um dos mais ferrenhos críticos da ideologia sionista no Brasil e que é alvo de uma campanha difamatória e processos vindos dos representantes da camarilha sionista no Brasil.

 Altman se apresenta como “judeu”, descendente de pais sobreviventes do genocídio perpetrado pelos nazistas contra minorias consideradas inimigas pelo Reich alemão. Porém, esta blindagem retórica de um “lugar” não foi suficiente aos seus detratores, pouco interessados com sentimentos de humanidade e solidariedade a outros grupos humanos, senão os de seu próprio círculo.

 “Contra o Sionismo” é um testemunho vivo e bem atual de um sistema que sobrevive há décadas através de chacinas, confisco de terras, expulsão de nativos, apartheid, racismo e genocídio da população da Palestina e que,  neste momento, assim como há mais 76 anos, se mantém contra o povo palestino, vítima do mais recente e primeiro genocídio televisionado da História.

No entanto, por mais que Breno Altman se posicione acidamente contra o sionismo e suas bases racistas, ele acaba por ratificar e defender as principais teses que embasam o próprio sionismo e sua razão ser. Sem mais delongas, essas teses são: a) os judeus são um povo, uma etnia; b) A Diáspora foi um acontecimento histórico c) os judeus e os árabes são primos semitas.

 Logo no início do livro, Altman declara:

 “Ser judeu está relacionado ao pertencimento a uma etnia, a uma herança cultural, ou até mesmo a uma religião”

 Extraindo a parte da herança cultural – que é puramente uma herança religiosa – Breno Altman defende aqui a principal tese sionista, uma mentira deslavada e disseminada diariamente por seus perseguidores da CONIB: a de que os judeus são um povo “étnico”, que possuem um DNA comum e um elo sanguíneo que os caracteriza. Talvez Altman não tenha compreendido que o termo “raça” foi substituído por “etnia” pelos sionistas liberais no pós-guerra e que esta noção é a mesma defendida pelos judeófobos quando viam no judeu um ser essencial, com um “etnos eterno” que não podia se desvencilhar de sua nódoa, de sua marca de traidor, assassino de Deus, errante e escória do mundo. Toda a maçante “questão judaica” na Europa, era fruto de um preconceito irracional contra uma população heterogênea que seguia o judaísmo ou dela tinha elos parentais no passado. A Europa cristã não reconhecia como cidadãos aqueles que não seguissem a sua fé e estas pessoas eram vistas como estrangeiras. No entanto, estes judeus, quando não eram orientais (árabes) eram oriundos do próprio seio europeu ou do leste eslavo.

Se todos nós, defensores da causa Palestina, tivermos cuidado e trilharmos o roteiro científico e histórico apontado por Shlomo Sand, Arthur Koestler e geneticistas honestos, como o israelense Eran Elhaik, iremos parar de disseminar estas conclusões míticas que só reforçam o discurso sionista e atrapalham o melindroso e árduo exercício de solidariedade internacional pelo povo palestino. Povo, este,  que sempre esteve lá e são os verdadeiros donos da terra, bem como descendentes dos antigos povos da região e de sua tradição oral e escrita.

Sobre a segunda tese, o historiador Shlomo Sand é enfático ao demonstrar que não houve nenhuma “diáspora judaica” da Palestina como menciona, diversas vezes, Altman, em seu livro. A Diáspora não é um fato histórico.

O que ocorreu foi uma disseminação da religião judaica por vários países, impérios e reinos, tanto da Ásia quanto da Europa, e que Sand – em seus livros “A Invenção do Povo Judeu” e a “A Invenção da Terra de Israel” – elenca, com vários registros, os eventos de conversão ao Judaísmo, muito comuns na antiguidade e que provam que aquilo que chamamos “povo judeu” não é uma comunidade etnocêntrica, mas uma comunidade religiosa que foi reduzida em seu número pelas perseguições e interdições que sofreu no Ocidente dirigido pela cristandade.

Por muitos séculos, foi essa visão de “povo”, “diáspora” e “direito à terra santa” – por mais inocente que muitos “amigos da causa”, e de boa vontade a usem – que mobilizou o pensamento colonial europeu rumo ao Levante: com as Cruzadas e outras intervenções, morticínios de “infiéis” em Jerusalém, culminando, em 1948, com a partilha da Palestina para fundar uma base militar do Ocidente na Ásia.

 A Diáspora foi um discurso religioso inventado pela Igreja Católica em seus primórdios para identificar e macular os judeus europeus como “errantes” no mundo em decorrência de um “castigo” por terem matado Jesus. Foi Justino, o Mártir, em seu livro “Diálogos com o Judeu Trifão” que o dissemina pela primeira vez no meio cristão. Para Justino, o fato de haver judeus em Roma e em outras cidades europeias era um castigo divino; e usava este argumento como estratégia para converter estes judeus ao cristianismo, dizendo que se assim o fizessem iriam ter a terra santa de volta, convertidos “àquele que trespassaram”.

 Judeus sempre viajavam e ajudaram a movimentar a economia da Europa e da Ásia, seja com especiarias, produtos do Oriente Médio; seja com a venda de negros escravizados e o câmbio de moedas e ouro;  seja emprestando dinheiro com ágio. E boa parte destes judeus eram orientais, vindos da Palestina ou então eram convertidos à fé. Tinham, por sua vez, autorização dos poderes constituídos para praticar a usura proibida aos cristãos (tema para outro artigo)

Ver os judeus como um “povo” – e povo “eterno” e “errante” – interessava à Igreja, que via nos fiéis judeus a prova da existência de Deus, de sua justiça, do castigo aos hereges e a garantia que a promessa do retorno de Jesus era verdadeira. Dentro da mística cristã, a imagem do judeu era essencial e onde não havia judeus, a Igreja se incumbia de os inventar. Nesse sentido, os judeus eram aliados da doutrina católica e, no momento oportuno, se  tornariam “parceiros” da revelação cristã,  unindo-se pela “reconquista” do Oriente Médio contra os primitivos árabes,  seguidores de Maomé. Aliás, hoje, são os árabes que continuam a sofrer, a nível global, o antigo estigma projetado nos judeus europeus.

Com a mais recente agressão sionista ao povo palestino, ficou evidente para o mundo que o sionismo é uma ideologia racista e de apartheid que utiliza a limpeza étnica  como seu principal modo de atuação. Esta limpeza se faz também no campo dialético e histórico. O Estado de Israel emula toda a história da Palestina como se fosse a sua e rouba, à luz do dia, desde à sua culinária à sua arqueologia, fazendo crer ao mundo que é o povo daquela terra ancestral. É um roubo não só das terras, mas da memória de um povo.

O mais engraçado nisso tudo é que, atualmente, a entidade sionista realiza os mesmos atos de reconhecimento da judeidade que a Inquisição e as Leis de Nuremberg praticavam para dar cidadania a seus cidadãos: por meios duvidosos de genealogia e genética. É preciso provar parentes, avós; ter registros familiares e outros critérios que, pasmem, eram os mesmos adotados pelo Nazismo  para definir alguém como de  “sangue impuro” e inimigo do Estado.

Bem compreendido, não foram os judeus que  emigraram ou “erraram” mundo afora, numa fantasiosa “Diáspora”. Foi a religião judaica que se espalhou pelo globo, pois era e sempre foi uma religião proselitista como o Islã e o Cristianismo.

 O judaísmo, não sendo uma questão de sangue, qual versou Roman Gary, é um assunto vencido pela própria ciência e pesquisa histórica; e eu, do alto da minha insignificância como pesquisador e defensor da causa palestina, sempre gosto de enfatizar isso em fóruns, palestras e atividades acadêmicas que tenho a oportunidade de participar. Este tema é dos mais urgentes se queremos realmente ser contra e vencer o sionismo no seu delirante campo discursivo que agrega: colonialismo, racismo e religião, embora tenha nascido laico.

Então, ficar dizendo que os judeus são um “povo”, que houve uma “diáspora” ou que os judeus são descendentes de “Isaque” e os árabes de “Ismael” é trilhar o caminho da derrota e da sabotagem da questão palestina. Inclusive, há muitos palestinos no Brasil reforçando essas mesmas teses e achando que são primos dos “judeus”. E aqui vamos logo deixar claro uma coisa: judeu é quem pratica o judaísmo (somente) e árabe é uma etnia.

Não existe nenhuma característica judaica “cultural ou secular”. E Shlomo Sand destrincha muito bem esse outro argumento sionista em sua obra “Como deixei de Ser Judeu”; lá esclarece, de forma bem sadia, que tais insinuações seculares sobre a judeidade não passam de barulho vindos de uma carroça vazia. Seria como dizer: sou um ateu cristão!

Por sua vez, a ideia de duas linhagens de irmãos do mesmo pai, Abraão, e dos quais descendem, por um lado, judeus e por outro, os árabes faz parte do semelhante rol de mitos  de origem que justificam a colonização de terras e algumas desigualdades sociais. É semelhante à lenda que coloca os negros como descendentes de Cam, pai Canaã, filho de Noé que foi amaldiçoado por ver sua nudez, sendo a escravidão e a sua cor escura um destino e um sinal de maldição do demoníaco Javé.

Em diversas igrejas evangélicas é o que se escuta de pastores em pregações fervorosas e é explanado até no Congresso Nacional como discurso político por alguns quadros desta bancada histérica.

Mitos e mais mitos sionistas para justificar as coisas como elas são; e manter legítimas, com verniz “bíblico”: o racismo, a colonização, a guerra, o roubo de terras; a fome, a subjugação do homem pelo homem e o genocídio de milhões de vidas não agraciadas pelo “senhor dos exércitos” como seu “povo eleito”.

Afirmar essas teorias, como faz Altman – e muitos outros “amigos interessados” da causa palestina – é defender que, de fato, os sionistas têm direito à terra que já fora sua e que para lá retornaram com a ajuda do ocidente cristão. É o maior fanatismo de nosso tempo! Mobiliza uma espiritualidade política e força feroz das massas e se funde no apoio “oportuno ” de líderes mundiais populistas quais: Biden, Bolsonaro, Orban, Milei e tantos que, abraçados com o movimento internacionalista evangélico, suprem as necessidades paranóicas de multidões crentes num advento messiânico; que vêem nos israelenses a permanência da promessa apocalíptica, “pois ali está o povo escolhido”, “ali estão aqueles de onde Jesus veio e por estes foi negado”. “Então, a promessa da segunda vinda é verdadeira” assim pensam os neuróticos por Sião nos quatro cantos do mundo, apoiando, para isso, o assassinato de milhares de mulheres e crianças. Eles são a lenha no caldeirão da política externa de países governados pela extrema-direita. E este é o ponto terrível de soarmos com o seu discurso.

Cada afirmação errônea no palanque pró-palestino serve somente aos interesses do sionismo. No que é preciso formação dentro da questão Palestina, entender seus enunciados, sua história, sua mística e saber cativar todos os segmentos. É um mundo de palavras como toda luta pela emancipação política e liberdade. Trata-se de ser zeloso e não dar munição ao inimigo. Ora, “então você sabe que somos um  povo étnico”, “então, você confirma que fomos diasporados de nossa terra ancestral e retornamos após séculos de perseguição”, “que esta terra é nossa e que nossa guerra é legítima. Então, temos aqui um ponto que nos une, não?”.

 Mas o que diabos fazem intelectuais, pesquisadores, humanistas e pensadores como Altman e Butler acharem que são “judeus seculares”? Essa categoria nula, como disse Sand, que não carrega nada e é barulhenta como uma carroça vazia? Seria o fato de serem filhos ou descendentes de perseguidos pelo nazismo, quando muitos desses judeus nem o eram, não seguiam a fé e tampouco tinham um sangue judeu? Estariam,  então, estes “judeus seculares” concordando com uma propaganda e invenção irracional dos antissemitas? É o que diria o antissionista Isaac Deutscher quando afirmou que Hitler redefiniu a identidade judaica. Ou seja: você não precisa ser judeu (seguir a religião); basta sabermos que alguém da sua família seguia, num passado muito remoto, a religião judaica.

De qualquer modo, a ideia de “judaísmo secular” se tornou moda entre grupos intelectuais e parece ser uma reconstrução do humanismo da Haskalá: o iluminismo judeu na Europa, que nasceu como resposta à ideia de  que estes eram um grupo retrógrado que não refletia sobre o futuro universal da humanidade, senão no seu próprio. Ocorre que não havia nada de judeu nisso, senão o fato de alguns membros do movimento pertencerem à comunidade religiosa, quando a maioria esmagadora, no entanto, era ateia e avessa à religiosidade. Havia sim uma certa sabedoria rabínica no pensamento de Lessing e Moses Mendelsohn, mas é um erro concluir que o pensamento em si é uma característica judaica, como os judeófobos acusavam. Por exemplo: que a Psicanálise era judaica, pois de Freud; que a Teoria da relatividade era judaica, pois de Einstein, ou o Marxismo era judaico, pois de Marx, quando todos estes deploravam qualquer tipo de fé como um atraso na humanidade. Nem mesmo Espinoza aceitava essa associação, tanto que assinava como Benedictus, a forma latina do nome Baruch – que significa abençoado ou bendito –  para não se ver envolto na religião que repudiava e da qual recebera o “herem” (excomunhão).

 Etnia é, neste caso, um termo sem fundamento ou solução para classificar pessoas laicas que se prendem à religiosidade de seus antepassados ou a uma tradição que hoje possui “status” no meio liberal.

Não obstante, é assim que os “sionistas de esquerda”, outra categoria problemática, também se identificam. Como a proclamar um “übermensch”, uma prova de sentimento supra-humano, de ter um legado no sofrimento superior do Ocidente, “pois venho do povo que sofreu o genocídio”. E isso lhe dá um cabedal, um brilho a mais no mundo identitário, e assim, todos querem ser judeus – está na moda – mesmo que não o sejam, mas e daí?

 Contrata-se um genealogista; faz-se um destes testes propagandeados para descobrir qual sua tribo perdida; se pinta todo um passado e memória construída e, quem sabe, ganha-se uma cidadania no Oriente Médio. É batata! E o Sionismo precisa destes emocionados sem identidade. Se tudo der certo, você ganha até um terreno de uma família palestina expulsa ou assassinada. O importante é movimentar o “inocente” mercado imobiliário da morte.

A cultura é uma vivência, uma experiência coletiva, a promoção de suas práticas e costumes que, no caso destes senhores, é a prática de pensar ou, como disse Amós Oz,  “criar palavras”, pois está isso (segundo ele) dentro do arcabouço judeu, de sua essencialidade. Mas, ora, pensar é humano e não um atributo judeu ou de qualquer grupo pretensioso. Qualquer um pode pensar; jamais é uma característica de casta, nem mesmo dos europeus que se creditam serem superiores e os pais da civilização. Ah, e quanto exemplo de “civilização” nos deu a Alemanha, berço de tantos ilustrados, com suas câmaras de gás!

 Portanto, não há sangue, não há costume, não há cultura, não há nenhum elo ou característica etnocêntrica. Eis o racismo e a  eugenia enrustida em discursos pseudo-filosóficos.

 Qual é a dificuldade de se declarar não judeu como fez Espinoza e Sand, afirmando que o “judeu secular” também é uma invenção? Acredito que, talvez, inconscientemente, estejam presos a um “amuleto”, a um artifício, a este “prestígio” virtual que, mais ainda neste campo, lhes concede um trânsito para falar com animosidade ou para ser creditado como um pensador da tradição com peso e também ganho sobre a causa palestina. Aliando, talvez, o caminho da paz numa sujeição final da questão dos oprimidos a uma primazia do “sionismo brando”… também uma farsa!

O camarada Breno Altman deixa claro, de antemão, que o livro estava “longe de corresponder a um estudo histórico aprofundado” e que suas palavras “agora escritas” tampouco foram ditas com “pretensões científicas ou professorais”.

“Contra o Sionismo: Retrato de uma Doutrina colonial e racista” foi publicado pela Editora Alameda e é uma leitura instigante a todos os que defendem a causa Palestina. Um verdadeiro chamado à reflexão.

Palestina Livre!

Jeanderson Mafra é membro fundador da Aliança Palestina-Maranhão. É Escritor e Poeta. Autor da obra “Discurso, Sujeito e Verdade: um Arquivo judeu na historiografia do Maranhão”. Graduou-se em Letras na Faculdade Santa Fé e possui Mestrado na área de Estudos de Linguagem e Práticas Discursivas pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA)

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